Liturgia, Narrativas e (A) Moralidade: razões do subdesenvolvimento brasileiro

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Muito interessante as manifestações da imprensa em geral, sobre o “twit” alegadamente disparado pelo presidente da república em exercício, Jair Messias Bolsonaro. Ao publicar imagens de práticas de caráter libidinoso no carnaval, situação testemunhada in loco por centenas de pessoas, a maior parte dos órgãos de imprensa ficou estarrecida, de uma forma aliás raramente vista em situações similares. Existem inclusive algumas pessoas que alegam o fato de o presidente ter quebrado o decoro e estar, assim, sujeito a processo de impeachment. Alguns jornais, inclusive, referem que o Poder Executivo, por meio de seu principal representante, não estaria obedecendo a liturgia do cargo, estaria faltando com o respeito com eleitores e criando “narrativas” a fim de distrair a população.

Não deixa de ser interessante alguns jornais admitirem que o presidente procura manter a sua própria narrativa de governo. A admissão da existência de narrativas é muito relevante ; uma das mais bem engendradas narrativas (não em termos de lógica, mas de número de pessoas que a acolheram), por exemplo, foi a de golpe, em relação a processo jurídico político que seguiu todos os trâmites legais necessários, quando do impedimento de Dilma Roussef; depois do fantasioso “golpe”, a quimera de perseguição de Lula, a «alma mais honesta deste país ».

Por fim, o fato de a « Lava Jato » ser a responsável pelas dificuldades econômicas do país, o que denota – para aqueles que acreditam nessa pífia versão – de que as consequências veem antes das causas. É como se o órgão que investiga e denuncia fatos pretéritos estivesse, ao simplesmente exercer seu dever, causando problemas ao status quo corrupto, ineficiente e hipócrita do Brasil. Alguém com o mínimo de reflexão e concentração sobre a história brasileira, desde seus primórdios, acreditaria nisso?

Pois bem: narrativas, se bem construídas, podem levar uma série de pessoas a acreditarem nelas piamente, quase que como verdade absoluta. Uma delas foi a de que teriam os governos petistas acabado com a fome ou com a pobreza. Para que tal fosse efetivado, ocorreram, inclusive, falseamento de estatísticas, e a tentativa, por meio de processo legislativo, da implementação de «conselhos sociais», basicamente um desvirtuamento das intuições republicanas (para não dizer excrescência).

Algo similar, aliás, existe na Venezuela. Isto denota uma característica interessante: a consolidação de uma narrativa configura-se como um processo de influxo de informações na área cultural, por meio de variados canais e de modo milimétrico e ao mesmo tempo constante, a fim de que se alcance uma hegemonia de ideias (você já discutiu com alguém que se acha o senhor da verdade e não aceita o debate honesto?).

Muitas pessoas, aliás, fazem isso despercebidamente, de tão enfeitiçados que estão. Tais são características de um processo de silenciosa revolução cultural, como referida por Olavo de Carvalho em livro homônimo. O que existe, neste contexto, creiam ou não (em que pese os inúmeros exemplos), é o objetivo de fazer com que condutas sedimentadas há séculos ou milênios sejam desarraigadas, para ceder lugar a uma nova constelação de reações.

Na mesma linha estratégica, « é importante, por exemplo, varrer do imaginário popular figuras tradicionais de heróis ou de santos que expressem determinados ideais, pois essas figuras são imantadas de uma força motivadora que dirige a conduta dos homens num sentido hostil à proposta gramsciana (A Nova Era e a Revolução Cultural, p. 65. São Paulo: Vide Editorial, 2014. 4ª edição).

Esta, aliás, é uma das razões pela qual muitas pessoas viram presa fácil dessas narrativas. Não tendo acesso ao germe e princípios da literatura universal e aos mitos fundacionais do monumento civilizacional ocidental romano-helênico cristão-judaico, abdicam do maior patrimônio que possuem: a capacidade de serem pensadores independentes e não seguirem espírito de manada. Não desenvolvendo pensamento crítico, o duplipensar, o maniqueísmo, o relativismo e a amoralidade são todas características que são adotadas por tais pessoas.

Vamos a um exemplo prático.

Cenas de masturbação com uso de crucifixo, brincadeiras de carnaval envolvendo a facada no presidente (que para alguns, inclusive, não ocorreu), peças teatrais que envolvem colocação nasal no orifício anal de outrem (peça macaquinhos) ou, ainda, o toque de criança em corpos de adultos desnudos (algumas financiadas com dinheiro público) não causaram tanto furor quanto um ato perpetrado por pessoas adultas e vacinadas, e alegadamente divulgado pelo presidente.

Escatológico? Sim. Despropositado? Provavelmente. Ato criminoso? O ato em si ou a “twitada”? Mais uma vez, o senso de proporcionalidade entre condutas, princípio antiquíssimo, parece não existir para aqueles que não possuem uma postura discursiva ou interpretativa coesa.

Aliás, a falsa moralidade brasileira, baseada em hipocrisia e em aparências, domina todos os segmentos sociais do país. Os conceitos, a moral, os valores, tudo atualmente é incerto. O que se tem, assim, é a capacidade de se adaptar o discurso e a avaliação de um assunto ou cena conforme o interesse e utilidade de ocasião. Os conceitos são fluídos. Corrupção, compadrio, confusão entre público e privado, tudo se mescla em um caldo de difícil deglutição.

Não existe firmeza de princípios ou posicionamentos. Aliás, uma pessoa firme atualmente leva a pecha de deselegante ou mal-educado quando se expressa, para não dizer fascista, palavra da moda de pessoas que pouco estudaram sobre o tema.

Penso que essa é uma das razões pela qual o Brasil não avança como nação. Perdendo-se em discussões superficiais, ao invés de se desenvolver senso de dever perante a comunidade, muitos utilizam seu tempo com assuntos relativamente irrelevantes. Seca no Nordeste? Roubo de biotecnologia na Amazônia? Teses de doutorado sem aspectos práticos? Gargalos logísticos para escoamento da produção? Parques industriais sucateados? Número anual de assassinatos mais alto do que toda a Guerra do Vietnã (em relação às vítimas americanas)? Nada disso.

O importante é decidir se garoto(a) usa rosa, azul ou xadrez. O importante, ainda, é seguir a liturgia do cargo, mesmo que os últimos governos tenham vilipendiado a Petrobrás, o BNDES, os fundos de pensão, tenham financiado indiretamente, com participação do setor privado, ditaturas e organizações terroristas. Este é o nível de depauperamento intelectual de terra brasilis.

Pragmatismo e utilitarismo parecem que não fazem parte do espírito brasileiro (ainda não temos uma via decente que cruze nosso país de leste a oeste ou de norte a sul). De outro lado, a obtenção de vantagens pessoais a qualquer custo e a manutenção de privilégios, independentemente de classe social, isto parece ser inato. Conseguiremos mudar isso tal perspectiva? Difícil pergunta.

Para além de eventos traumáticos, os quais realmente moldam povos, a educação de qualidade, baseada não apenas em teoria, mas em matérias técnicas e administrativas é uma das grandes chaves para se decifrar o enigma da esfinge brasileira. Enquanto isso, o eterno país do futuro continua em berço esplêndido e em sono profundo.

Por Vinicius Diniz Vizzotto – Advogado, LLM, MSC*

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