
Carlos Henrique Abrão
No próximo dia 4 de outubro, mais de 100 milhões de brasileiros estarão aptos a votar e escolher os seis candidatos que nos representarão em Brasília e no próprio Estado da Federação. A grande questão é saber se o jogo político está desgastado e cada vez mais nutre e alimenta a desconfiança da sociedade civil.
Notamos um crescente esgotamento do tecido político mediante campanhas digitais e ataques pessoais, sem qualquer proposta concreta e materializada em mudança. Temos uma dívida pública na casa dos 10 trilhões e, até agora, os prováveis favoritos ao cargo maior sequer debateram questões essenciais e nevrálgicas para que o eleitor possa se definir.
A reviravolta somente acontece com a participação popular, e a República polarizada mostra a cara do descontentamento e um estresse peculiar ao confronto de ideias, além de um reduzido número de embates no coração da modificação da representatividade política.
As costuras políticas enfraquecem o sistema democrático, e mais mudanças de entendimento pioram o quadro sistêmico. O ponto fundamental entre TSE e STF provoca um descontrole e nasce daí uma preocupação sobre o verdadeiro papel da Justiça Eleitoral na quadra do voto eletrônico e do controle das urnas pelos comitês partidários.
Não podemos esquecer que o perfil desenhado para 4 de outubro é um dos mais distantes da vontade popular e mantido pelo andar superior, cujos candidatos são escolhidos a dedo pelos partidos e não recebem qualquer prestígio da sociedade. Muitos partidos e pouca representação, afora os clássicos e eternos candidatos que jamais deixam a política, e outros condenados no passado recente que, mediante um beneplácito da Justiça, voltam ao campo de batalha e pedem o nosso voto.
Não se concebe a reeleição por mais de um mandato, como acontece nos EUA. Após 75 anos de idade, seria vedado tentar se candidatar para qualquer cargo ou função, e isso representaria a isonomia entre os poderes da República. Não se trata de se eternizar no cargo, mas sim de passar o bastão. O ingresso de uma juventude na política é bastante interessante, desde que não esteja inflamada por paixões exclusivamente pessoais e subjetivas.
O Brasil pertence ao seu povo, e a República é de todos. Por tal ângulo, não podemos acreditar que chegamos ao menor nível das eleições na quadra de 2026, uma verdadeira fratura que espalhará efeitos deletérios para os próximos anos, e sem um Congresso efetivo que valorize e participe da opinião da sociedade.
A implementação do voto distrital é inadiável. O eleitor precisa ficar próximo do eleito e dele cobrar sua plataforma apresentada durante a eleição. Se formos analisar, a maioria das candidaturas sofre um total caminho de tensionamento entre o que se pretende e aquilo que poderá ser realizado.
O sistema de capitanias hereditárias, muito comum nos pleitos eleitorais, deve ser encerrado definitivamente. Famílias e mais famílias entram como se fosse possível oxigenar a democracia em condições adversas e nada ancoradas no bemestar coletivo.
Temos adversidades tamanhas que nos impedem de avançar e impingem um modelo de pseudodemocracia, já que pagamos custos tributários elevados, enfrentamos endividamento plural e temos uma população marginalizada por benesses sociais enganosas.
O tempo vai corroendo e esgarçando o tecido social. Somente enxergamos, no horizonte, construções de prédios e fechamento de empresas, indústrias mudando de país e os empregos escasseando, a exemplo do comércio, além de um semnúmero de empresas em recuperação judicial.
Os donos do poder precisam acordar para a realidade, e as famílias políticas precisam dissolver o comando e tentar fazer reformas políticas e partidárias. Os comandantes devem acordar para a realidade, e o crime organizado precisa ser dispersado na sua base, além de termos espetáculos esportivos para além do canhestro futebol.
Quando os 11 ministros do Supremo passam a ser mais conhecidos e ter maior tempo na mídia do que onze jogadores da Seleção Brasileira, isso reflete o tamanho da divisão da sociedade e o antagonismo da classe política em querer melhorar os conflitos e sua realidade.
Não se trata, pura e simplesmente, da almejada reforma do Judiciário, mas do contexto de aprimorar e fortalecer as instituições mediante cunho republicano. Algo que, se inserido no concerto do Brasil, terá conotação excepcional e será capaz de preparar verdadeiros políticos vocacionados ao exercício do poder em prol do bem-estar coletivo.
O reflexo da conjuntura atual será medido por intermédio do número de votos brancos, nulos e abstenções e, para tanto, precisamos acabar com o fundo partidário bilionário, penduricalho gordo da classe política, com o horário de propaganda gratuito e, fundamentalmente, com o voto obrigatório.
O Brasil ainda está longe das nações desenvolvidas em todos os sentidos, mas, se quiser caminhar a passos decisivos para a mudança, a primeira a ser feita está na política, a qual não inspira confiança e provoca desprezo da população.
O nível entre os candidatos e os ataques pessoais somente reforçam o despreparo e destravam a necessidade de mudanças plurais para que a sociedade possa participar e não seja refém de uma chamada de voto de quatro em quatro anos para candidatos despreparados e sem o menor conhecimento dos graves problemas da Nação, dentre os quais saltam aos olhos a corrupção, o gasto público e a falta de investimentos na logística e infraestrutura em todos os sentidos.
Despertar o Brasil do berço esplêndido parece ser o primeiro passo do dia seguinte e dever cívico de todo brasileiro cônscio de sua responsabilidade.
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