
Leonardo Barém Leite
Há cerca de 70 anos (mais ou menos na década de 1960) o Brasil começou a construir uma advocacia mais preparada para lidar com questões especificamente empresariais, que em vários aspectos era (e continua sendo) bem distinta da “mais tradicional”, que apoiava mais os indivíduos, as pessoas naturais/físicas – e aos poucos passamos a entender e a conviver com “duas advocacias”, a depender dos temas, dos casos concreto e das características dos clientes.
E há mais ou menos 40 anos (dos anos “1990” em diante) aprendemos que havia “mais uma” advocacia, que “nasceu” da empresarial, mas que buscou a especialização “nos negócios” e nas empresas (e não “apenas” no direito em si), nos temas e nas questões mais corporativas – em linha com os planos de negócios e as operações das empresas, abordando temas mais estratégicos. É o que costumamos chamar de advocacia que “conversa” com investidores, CEOs, conselhos e diretorias, sendo mais estratégicas para os negócios. Uma advocacia “de negócios”.
Essa modalidade da advocacia empresarial, que chamamos de corporativa, demandou muita “adaptação”, tanto do ambiente corporativo (que precisou entender como, onde e em que poderíamos agregar valor, ajudar no negócio, melhorar oportunidades, precificar riscos, construir modelos de negócios mais rentáveis e com isso sustentáveis etc.) quanto da advocacia empresarial que precisou entender que essa modalidade demanda advogados e advogadas efetivamente corporativos(as), com mentalidade corporativa, conhecimento e experiência em negócios, visão e postura corporativa, ritmo e velocidade, abordagem, formas de comunicação e de trabalho etc.
Especialmente desde a chegada dos “anos 2000” muitos de nós trabalhamos fortemente para a consolidação, o reconhecimento e a valorização da advocacia corporativa, construindo métodos de trabalho, formação e desenvolvimento, cursos, livros, encontros e eventos, grupos de estudo, comissões, congressos e feiras, e muito, muito treinamento – além de construirmos muito valor, explicando e justificando “ao negócio” a nossa participação e colaboração.
Nesse período, muitos “departamentos jurídicos”, executivos jurídicos e advogados corporativos em geral foram melhorando, aprendendo, evoluindo e se especializando em empresas e em negócios, conquistando seu espaço e sendo reconhecidos e valorizados. E foi um grande ganho e uma grande conquista para essa advocacia e para as empresas que a valorizou.
A evolução, porém, é constante e permanente, e agora (nos anos 2020) demanda “novamente” muita atenção ao mundo corporativo, à evolução da tecnologia (assim como da automação, da internet, nos algoritmos e aplicativos, da inteligência artificial etc.).
Em certa medida a realidade atual nos abre muitas novas possibilidades e campos de trabalho, pois vivemos uma fase da sociedade, da tecnologia, da vida e do mercado corporativo que é tão “diferente” do que até então havia e conhecíamos que é “nova” para todos. Ou seja, abre espaço para uma certa “nivelação”, e um certo “oceano azul”.
De outro lado, porém, e seguindo a máxima de que “tudo tem ao menos dois lados”, a “nova fase” (que nem é mais tão nova) demanda uma adaptação/um ajuste extremamente rápido e complexo para o que o mundo corporativo quer e espera da “advocacia corporativa contemporânea”.
Encontrar e conhecer esse “novo conceito” será o grande diferencial para todos nós, pois praticamente “tudo” o que era valorizado pelas pessoas, pelas empresas e até pela sociedade em geral, que demandava muitos e muitos anos de estudo, de prática, de conhecimento, de experiencia e de trabalho duro, e que em certa medida “pautou” a advocacia corporativa por algumas décadas “acabou”.
A automação de toda a operação (no caso jurídica) e a chegada da inteligência artificial, desloca toda a advocacia tradicional para “um outro lugar”, que precisamos descobrir e ocupar.
Pessoas, clientes, executivos em geral já não valorizam os anos de estudo e de conhecimento, a profundidade com que muitos conheciam doutrinas, leis e regulamentos, jurisprudência e assim por diante, e nem a capacidade de elaborar documentos, peças, manifestações etc que muitos agora alocam “às máquinas e softwares, bem como plataformas etc.”. Em certa medida “tudo o que é simples, operacional, padronizado e que estiver “na internet” pode ser buscado e construído em segundos de forma muito mais rápida e atualizada do que os humanos conseguem fazer – e em muitos casos de maneira mais barata.
Nessa linha quem antes acreditava que éramos operadores do direito agora precisa entender que somente teremos espaço e trabalho no universo corporativo atual (e daqui por diante) se formos capazes de ser estrategistas jurídicos.
Da união da tecnologia, da padronização, da automação, da rapidez e do custo baixo (transferindo para “os softwares e as plataformas” toda a operação) com o talento, a experiencia, e as efetiva geração de valor dos humanos que efetivamente forem “os melhores” e mais estratégicos, que consigam chegar no que de fato os negócios e as empresas precisam, construiremos a nova advocacia corporativa.
Esse “futuro” já chegou, está entre nós há alguns anos, e vem transformando profundamente a advocacia corporativa e a sua relação com empresas, parceiros, executivos, investidores etc. – afetando a todos nós que agora precisamos novamente nos reinventar e adaptar “aos novos tempos”.
Questões e temas “mais simples e corriqueiros”, que sejam efetivamente replicáveis, automatizados, e “delegados” à IA, não mais chegarão a nós, e caberá a quem conseguir passar a praticar a advocacia corporativa efetivamente estratégica entender, perceber e ajudar o mundo corporativo a criar uma nova parceria, uma nova forma de atuação conjunta “da máquina” com os estrategistas jurídicos.
A transformação que vem ocorrendo (e que talvez esteja “apenas começando”) nas carreiras jurídicas, nos escritórios de advocacia, nas escolas/faculdades, nos departamentos jurídicos, nos treinamentos e nos cursos, da ordem, das regulamentações, e dos relacionamentos, dentre outros, é tão grande e profunda que o “modelo de ontem” já não vale mais.
Temos que ter consciência dessa transformação e refletir profundamente sobre o nosso papel e o nosso lugar nesse “novo mundo”, para vermos se queremos e se podermos continuar nesse “jogo”, para que em caso afirmativo nos preparemos, nos adaptemos, e consigamos lutar para que consigamos ser (ou continuar a ser) valorizados, estratégicos e acionados pelas empresas e pelos negócios.
As oportunidades e os desafios “estão ai”, para todos!

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