Rodízio de Carros

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carlos henrique abrão
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Carlos Henrique Abrão

A cidade de São Paulo demonstra um enorme congestionamento de veículos, somados aos condutores de motos, bicicletas, bicicletas elétricas e patinetes, além das faixas exclusivas para ônibus e táxis. Isso significa dizer que temos quase um carro por habitante e, na última década, nenhum aumento do espaço de circulação. Ao contrário, temos um milhão de motos complicando ainda mais o trânsito asfixiante da maior cidade do Brasil. O pior é que as autoridades parecem assistir de camarote e nada deliberam para incrementar alternativas. Apenas não nos permitem andar em uma velocidade mínima e aplicam multas e fiscalizações a bel-prazer do gestor público.

Pensando mais e melhor, a relação entre carros e habitantes cresceu assustadoramente, sem que o poder público tomasse qualquer precaução. Ao contrário do que ocorre em nações desenvolvidas, as quais até limitam a chegada de novos habitantes e possuem censo populacional atualizado, aqui é tudo mais ou menos improvisado. Se São Pedro ajudar, as coisas rolam em velocidade de tartaruga e, daqui para a frente, a piora será considerável se nada for feito.

Cogitando um mecanismo mais drástico, o ideal seria um rodízio de carros com finais pares e ímpares. Assim, na segunda-feira, não circulariam carros com finais pares e, na terça-feira, os de finais ímpares, do mesmo modo na quarta e na quintafeira. A medida também alcançaria as motos, que não estariam livres do rodízio nem subordinadas às ocupações profissionais.

Desta maneira, limparíamos bastante o trânsito de segunda a quinta- feira. Na sexta-feira, não haveria rodízio: seria o dia do trânsito livre, para que pudéssemos ter o pulso, sentir a realidade e rever várias práticas de políticas públicas, com a redução da poluição e a diminuição das mortes envolvendo o caótico trânsito paulistano.

Avistamos, ao longo das vias, uma faixa com o aviso: “Cuidado: já se foram 475 vidas em acidentes de moto pela capital”. Mas, em vez de demonstrar sua inabilidade e leniência, o poder público se limita a noticiar o infausto, sem prevenir acidentes ou preparar o condutor para que tenha maior cuidado e cautela, liberando uma microfaixa azul que poucos respeitam e que, para nada, serve.

A implantação do rodízio radical de pares e ímpares, num primeiro momento, irá impactar frontalmente aqueles que se acostumaram a frequentar qualquer lugar utilizando exclusivamente o próprio carro. Assim, aumentaria o número de táxis, veículos da Uber e de qualquer outro meio de transporte coletivo, além, é claro, dos ônibus, boa parte deles com frota antiga e sucateada, além daqueles biarticulados que ocupam todo o espaço e geralmente circulam com poucos passageiros.

É tempo; aliás, já passou da hora de haver um diálogo profícuo sobre alternativas para o trânsito em São Paulo, cidade que abriga os maiores eventos e caminha para melhorar o transporte público, a exemplo do metrô e da conexão com outros meios alternativos de transporte.

Ao mesmo tempo em que se proporia um aumento das restrições de circulação de carros pares e ímpares no rodízio, o poder público também haveria de fazer esforços para reduzir o preço da condução, não apenas no transporte público, mas também em parceria com a Uber, a 99 e outras plataformas digitais, já que, até o momento, não há a figura do mototáxi, vedada até mesmo por questões de segurança diante do transporte inseguro na cidade de São Paulo.

Aproximamo-nos do final do ano, período de festas em que a cidade, já insuportável, se torna incirculável. Tudo isso justifica que se estude um aumento do rodízio de segunda a quinta-feira, para que, na sexta-feira, tudo fique liberado e qualquer um possa sair sem a complicação de ser multado.

Temos quase dez milhões de carros para uma população de 12 milhões. Mais grave ainda: não há espaço para estacionar, mesmo na Zona Azul. De todo modo, um estacionamento particular custa os olhos da cara. Se o poder público aumentasse as áreas de estacionamento e cobrasse preços competitivos em relação aos praticados pelo setor privado, é certo que todos fariam um esforço para deixar o carro e utilizar o transporte coletivo.

Um exemplo: o cidadão deixa o carro em um estacionamento público colado ao metrô e paga, por todo o dia, o valor de apenas dez reais, o que é muito interessante, já que não corre qualquer risco de acidente ou de ser assaltado no meio do caminho, pois o risco é proporcional ao tempo que permanece horas no congestionamento.

Temos, sim, soluções. O que não há é vontade política de demonstrar atitude para promover mudanças e compatibilizar o número de carros com os espaços de circulação. Se nada for feito, em breve pararemos de vez, sem rotas alternativas para um trânsito eficiente e qualificado, com agentes públicos no comando das operações, inclusive nos casos de semáforos apagados.

O modelo atual seria mantido entre as 7h e as 10h e, depois, das 17h às 20h. Caso o tráfego pesado persistisse, em uma segunda etapa, seria cogitável que os carros de finais pares não circulassem pela manhã, invertendo-se a regra à tarde, quando os de finais ímpares não poderiam circular.

Finalmente, se o esquema planejado não fosse suficiente, daí, sim, os carros não circulariam durante todo o dia: na segunda e na quarta-feira, os de finais pares; na terça e na quinta-feira, os de finais ímpares. Ao lado disso, há o estreitamento de pistas com as ciclofaixas e o aumento dos meios alternativos de transporte, que também congestionam o trânsito paulistano.

À engenharia de trânsito cabe monitorar, supervisionar e também modificar as artérias nas quais os semáforos não são sincronizados e há demora excessiva para a reabertura. Tudo isso dependeria da vontade política e de um mapeamento das principais vias de circulação, hoje completamente paralisadas pelo fluxo de veículos e pela falta de equacionamento racional de uma política eficiente de gestão.

Em resumo, o rodízio atual dos veículos, baseado em dois numerais, já está, no tempo e no espaço, superado pelo enorme número de carros e motos que chegaram nos últimos anos, principalmente em razão da indústria chinesa, que veio para ficar. Resta à autoridade governamental, caso queira estabelecer uma disciplina eficiente e audaciosa, ampliar o rodízio de carros e monitorar seu funcionamento por seis meses, como única rota alternativa para que o caos não seja definitivamente implantado no trânsito paulistano.

 

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Carlos Henrique Abrão
Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Doutor pela USP com especialização em Paris, Professor pesquisador convidado da Universidade de Heidelberg, autor de obras e artigos.

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