Entrevista: Inteligência Artificial é um caminho sem volta no Direito e veio para ficar

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Inteligência Artificial
Créditos: Zapp2Photo | iStock

A tecnologia já faz parte do dia a dia das pessoas. E no mundo do Direito não é diferente. A chamada inteligência artificial tem tido ainda algumas resistências no ambiente jurídico. Mas, já é inevitável. Ao Portal Juristas, o diretor comercial e de marketing da Kurier (empresa líder na área de extração e gestão de informações jurídicas), Fred Ferraz, explica como funciona a inteligência artificial no ambiente jurídico.

Portal Juristas: O que é Inteligência Artificial?

Fred Ferraz: A Inteligência Artificial é uma área da ciência da computação. O seu objetivo é desenvolver sistemas que têm a capacidade de perceber padrões e de raciocinar, simulando as habilidades da inteligência humana. Em termos mais práticos, são algoritmos matemáticos e estatísticos, que permitem que as máquinas formulem construções como um pensamento. Outra função agregada é a interpretação de mensagens e expressões faciais. Basicamente, as máquinas são capazes de aprender com informações e conexões de dados, similarmente ao sistema neural humano.

Portal Juristas: Como a IA pode ser aplicada no ambiente jurídico?

FF: A Inteligência Artificial é um caminho sem volta no Direito e veio para ficar, para agregar. Promete um futuro promissor na advocacia. A rotina pesada em decorrência da leitura de processos, leis e demais atividades pertinentes à função pode ser otimizada com a AI. Existem, hoje, sistemas que podem cruzar informações para colaborar com decisões em processos judiciais. Ou seja, os sistemas podem ajudar a desenvolver os processos manuais e desgastantes, possibilitando que os humanos cuidem dos intelectuais. Outra funcionalidade que a IA permitiu é um supercomputador que analisa e computa os arquivos de processos, conseguindo responder quais deles não são úteis para a resolução do caso.

Portal Juristas: Então, é possível usar essa tecnologia em escritórios de advocacia?

FF: Sim. Todos os processos do escritório de advocacia podem ser otimizados com a Inteligência Artificial. Hoje a inteligência artificial já consegue dar ao advogados informações de um processo de tempo de duração, valor da condenação e se o indicativo de sentença, tudo através de análise estatística. Isso já oferecemos aos nossos clientes. O que tem de ficar claro é que a função da IA na advocacia é de ajudante. Ou seja, ela fará as atividades repetitivas e rotineiras, que são responsáveis por atrasar o andamento dos trabalhos.

Portal Juristas: Há economia de tempo para o profissional do Direito?

FF: Claro, entre outras vantagens. O profissional pode se dedicar às tarefas que exijam o intelecto humano e as habilidades sociais. Por exemplo, o advogado terá mais tempo para desenvolver contatos com clientes e demais profissionais, aumentando o networking. Ou, ainda, utilizar seu tempo para promover estratégias de marketing que gerem prospecção de novos clientes. A capacidade da IA de analisar e excluir informações irrelevantes ajuda o advogado a trabalhar apenas com os dados realmente necessários, diminuindo o tempo gasto e o cansaço.

Portal Juristas: Então, por onde a IA pode começar a ser implantada?

FF: Existem algumas ferramentas que já estão disponíveis para implantação, com o intuito de otimizar o dia a dia e aumentar a produtividade dos escritórios de advocacia. Diversos softwares jurídicos oferecem funcionalidades surpreendentes para os escritórios. A maioria desses sistemas desempenha muitas tarefas interessantes para agilizar a rotina da advocacia. Uma delas é a leitura e análise de prazo das intimações. Em seguida, após aprender com padrões, ele indica a melhor ação a ser feita.

Portal Juristas: Que tipo de economia de tempo? Dê um exemplo.

FF: Estima-se que um advogado leve cerca de 3 minutos para ler uma intimação e decidir qual atitude deve ser tomada. Parece pouco, mas, para quem recebe uma grande quantidade de tais documentos por dia, muito tempo pode ser demandado pela atividade em questão. No entanto, é possível implantar medidas semelhantes, que são mais acessíveis. Existem softwares jurídicos que operam de maneira parecida e que também têm o objetivo de auxiliar o trabalho dos advogados.

Tais sistemas procuram informações que, antes, seriam buscadas manualmente e apresentam-nas de maneira otimizada e clara, gerando praticidade. Além disso, mostram quando há movimentações em processos que você acompanha.

Portal Juristas: Há muita polêmica e dúvida sobre o uso de ferramentas de AI no Direito. Afinal, tal tecnologia pode substituir as pessoas?

inteligência artificial
Créditos: Andrey Popov | iStock

FF: Não, claro que não. Vale lembrar que, atualmente, o processo legal sofre de lentidão na execução de julgamentos e demais atividades. O trabalho manual e extenso para ler e analisar todas as informações necessárias é cansativo e atrasa o trabalho dos que praticam o Direito. O tempo demandado para executá-lo impede o advogado de desempenhar outras ações mais interessantes para seu escritório de advocacia ou instituição. A inteligência artificial vem para somar e ajudar o operador do Direito.

Portal Juristas: Então, podemos afirmar que o operador do Direito não corre o risco de perder o emprego?

FF: Não, claro que não. Quem fala isso é porque ainda não sabe como é o uso. A IA não vai substituir os advogados. Suas funcionalidades vêm para atender uma necessidade do mundo jurídico, altamente engasgado com o enorme fluxo de processos e dados. Ela garante maior agilidade para analisar toda a demanda de trabalho, auxiliando os profissionais com essa rotina. Pelo contrário, vai ajudar o trabalho de quem lida com o Direito.

Portal Juristas: O escritório ou advogado que não se utilizar da IA pode correr o risco de ficar para trás e até perder o poder de concorrência?

FF: Totalmente. A IA pode modificar a maneira como o trabalho jurídico é feito, resolvendo as questões pesarosas e desgastantes, filtrando as informações para que o profissional lide apenas com questões relevantes. Assim, o advogado conta com mais tempo para desenvolver suas estratégias de persuasão, aumentar suas conexões sociais etc. Ou seja, os humanos passam a se dedicar às etapas mais intelectuais e menos processuais. Os novos advogados poderão se preocupar em desenvolver e praticar as habilidades que apenas os humanos têm para captar novos clientes e defender os casos. Algumas características, como criatividade, persuasão, empatia e capacidade de desenvolver relacionamentos sociais, serão colocadas em foco.

Portal Juristas: Que orientação ou recado você daria aos profissionais do Direito?

FF: Para quem já atua ou vai atuar no ambiente jurídico a IA deve ser vista como aliada. Ela tem como objetivo otimizar as rotinas de trabalho extensas e cansativas da leitura e análise de processos. Contar com a tecnologia para agilizar o cotidiano e facilitar o trabalho do advogado dá liberdade para o profissional se dedicar a outras tarefas antes deixadas de lado. A IA já é uma realidade em grandes bancas e em departamentos jurídicos. É um caminho sem volta. A única questão é usá-la com planejamento estratégico e sem ferir as regras do Código de Ética da OAB.

fred ferraz
Créditos: Divulgação

BIOGRAFIA

Fred Ferraz, diretor comercial e de marketing da Kurier (empresa líder na área de extração e gestão de informações jurídicas).