A Guerra no Oriente Médio e os fantasmas da História que se repetem

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A Guerra no Oriente Médio e os fantasmas da História que se repetem | Juristas

Fauzi Hassan Choukr

O confronto entre Irã e Estados Unidos não nasceu agora: é o resultado de décadas de intervenções, erros estratégicos e disputas por poder no coração do Oriente Médio.

A guerra que hoje se desenrola no Oriente Médio não pode ser compreendida apenas a partir dos acontecimentos recentes. Como quase tudo na política internacional, trata-se de um processo histórico longo, cheio de camadas e contradições. Nada surge do acaso. Um exemplo claro disso é o próprio programa nuclear iraniano. Muitas vezes apresentado como uma ameaça contemporânea, ele tem origem justamente na política externa dos Estados Unidos durante a Guerra Fria.

Nos anos 1950, foi o próprio governo dos Estados Unidos que incentivou a implantação do programa nuclear no Irã. Isso ocorreu por meio de um programa conhecido como “Atoms for Peace” — ou “Átomos para a Paz” — criado com a finalidade de promover o uso civil da energia nuclear em países aliados. Naquele momento, o objetivo declarado não era militar. Tratava-se de um projeto que buscava difundir a tecnologia nuclear para fins energéticos e científicos. Ao mesmo tempo, porém, o programa representava um movimento estratégico no tabuleiro da Guerra Fria, marcando a divisão de influência entre os polos liderados pelos Estados Unidos e pela União Soviética.

A antiga União Soviética sempre manteve presença estratégica na região, sobretudo por meio de alianças com países como a Síria, que durante décadas foi um dos principais pólos de influência soviética no Oriente Médio. É importante lembrar que muitos dos Estados que hoje ocupam papel relevante na geopolítica regional sequer existiam naquele momento com a configuração atual. A própria Arábia Saudita, por exemplo, consolidou-se politicamente apenas décadas depois, como resultado da ascensão da família Saud e da reorganização política da região.

Para compreender a relação entre Estados Unidos e Irã, é impossível ignorar o trauma político que marcou o ano de 1979. Naquele período, a Revolução Islâmica derrubou a monarquia iraniana e instaurou o regime teocrático que permanece no poder até hoje. Pouco depois da revolução, a embaixada dos Estados Unidos em Teerã foi invadida, e diplomatas norte-americanos foram mantidos reféns por 444 dias.

O episódio ocorreu durante o governo de Jimmy Carter e teve enorme impacto político nos Estados Unidos. A tentativa de resgate organizada pelo governo americano terminou em fracasso, com helicópteros caindo no deserto iraniano e a missão sendo abortada.Foi um dos episódios mais humilhantes da história militar e diplomática norte-americana no período posterior à Segunda Guerra Mundial — superado, talvez, apenas pela derrota no Vietnã.

O impacto político foi imediato. A crise dos reféns contribuiu decisivamente para a derrota eleitoral de Carter nas eleições de 1980, abrindo caminho para a vitória de Ronald Reagan.Em certo sentido, o que os Estados Unidos enfrentam hoje é o retorno daquele pesadelo histórico. Nesse contexto, a escolha do filho de Ali Khamenei como sucessor no comando do país representa um duro golpe nas expectativas americanas de mudança de regime. Havia, por parte de setores da política externa norte-americana, a expectativa de que o conflito pudesse produzir um cenário semelhante ao que se tentou na Venezuela: retirar o líder do poder e substituí-lo por alguém de dentro do próprio regime, mas mais disposto ao diálogo com Washington.

A sucessão no Irã, entretanto, aponta exatamente na direção oposta.Além disso, a morte de membros da família do novo líder — pai, mãe, filhos e esposa, segundo relatos da imprensa iraniana — reforça uma narrativa política poderosa dentro do país: a narrativa do martírio. No contexto cultural e religioso do Irã, a ideia de martirização possui enorme força simbólica. Ela fortalece a coesão interna e reforça a mobilização nacional contra um inimigo externo.

Essa estratégia é conhecida e historicamente utilizada em momentos de conflito. A martirização transforma perdas individuais em instrumentos de mobilização política e identitária.Apesar disso, a sociedade iraniana está longe de ser homogênea. O país possui uma história milenar, uma cultura sofisticada e uma classe média urbana altamente politizada. Grande parte da juventude iraniana vive em permanente tensão com o regime teocrático instaurado após a Revolução Islâmica.

No entanto, essa resistência cultural é muito mais visível nos grandes centros urbanos do que no interior do país. Esse fator ajuda a explicar um possível erro estratégico da campanha militar atual. Muitos dos ataques ocorreram justamente em regiões urbanas densamente povoadas — como Teerã, uma metrópole com cerca de oito milhões de habitantes — onde se concentra uma parcela da população mais crítica ao regime. Em vez de enfraquecer o governo, ataques dessa natureza tendem a fortalecer a coesão nacional diante de uma agressão externa.

Outro elemento central desse conflito é o petróleo. O Irã é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e exerce controle estratégico sobre o Estreito de Ormuz, passagem marítima por onde circula cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente.

Do ponto de vista geopolítico, uma das hipóteses discutidas por analistas é a tentativa de enfraquecer a China, que depende fortemente da importação de petróleo — especialmente do petróleo iraniano. Controlar o Estreito de Ormuz significaria, em tese, limitar o acesso chinês a energia barata. Contudo, essa lógica parece simplista.

Relatos e análises indicam que a China vem se preparando há anos para cenários de crise energética, acumulando reservas estratégicas de petróleo e ampliando investimentos em fontes alternativas de energia. Além disso, Pequim possui outros parceiros energéticos relevantes, entre eles a Rússia, o que reduz significativamente o impacto de eventuais bloqueios.

No plano militar, o cenário também se mostra complexo. Ataques recentes teriam comprometido parte da infraestrutura de inteligência naval dos Estados Unidos na região. Há inclusive relatos de danos a importantes ativos militares, como o porta-aviões USS Abraham Lincoln, o que teria levado à retirada temporária da embarcação. Caso essas informações se confirmem, os Estados Unidos enfrentam um dilema estratégico significativo. Ataques aéreos isolados dificilmente conseguem dominar territórios. A história militar do último século demonstra isso de forma consistente.

Restaria, então, a alternativa de uma invasão terrestre — algo que se tornaria extremamente arriscado diante da geografia iraniana, marcada por terrenos montanhosos e condições naturais favoráveis à defesa. Algumas estimativas apontam que seriam necessários centenas de milhares — talvez milhões — de soldados para uma invasão desse porte, o que tornaria a operação politicamente insustentável dentro dos próprios Estados Unidos.

Outro fator que pesa sobre a Casa Branca é o impacto econômico da guerra.A escalada do conflito fez o preço do barril de petróleo se aproximar de 120 dólares, gerando forte pressão inflacionária global.Esse cenário atinge diretamente a economia norte-americana, que já enfrenta indicadores preocupantes, como aumento do desemprego e inflação acima do esperado.

Não são poucos os analistas que consideram possível que os Estados Unidos busquem, em algum momento, uma saída diplomática que permita encerrar o conflito sem uma derrota política explícita. O problema é que, neste momento, não há um ator internacional com legitimidade suficiente para mediar esse processo.

A Rússia enfrenta seu próprio conflito na Ucrânia e possui baixa credibilidade diplomática no cenário internacional. A China adota uma postura de distanciamento estratégico, evitando envolvimento direto. Sem um mediador reconhecido pelas partes, a diplomacia internacional encontra enormes dificuldades para construir uma saída negociada.

Por fim, cresce entre analistas a percepção de que o conflito também responde a uma forte convergência política entre Estados Unidos e Israel. A relação entre os dois países sempre foi marcada por alianças estratégicas profundas. No atual contexto, muitos analistas consideram que parte da política externa americana está diretamente alinhada às prioridades do governo israelense.

Nesse cenário, a guerra também se torna um instrumento de sobrevivência política para lideranças que enfrentam dificuldades internas.Diante disso, as interpretações sobre as motivações reais do conflito se multiplicam. Algumas permanecem no campo da especulação; outras encontram apoio em fatos concretos.

O que parece evidente, contudo, é que essa guerra vai muito além de um simples confronto militar. Ela revela disputas profundas de poder, energia, influência geopolítica e sobrevivência política. E, como quase sempre ocorre na história internacional, os efeitos desse conflito provavelmente ultrapassam em muito as fronteiras do próprio campo de batalha.

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Fauzi Hassan Choukr
Especialista em relações globais e Direito Penal Internacional, é mestre e doutor pela USP. Pós-doutor pela Universidade de Coimbra e promotor de justiça aposentado do Ministério Público de São Paulo (MPSP).

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