
Carlos Henrique Abrão
Desfrutando do clima de ebulição que vive nosso glorioso Supremo Tribunal Federal, o escrito caminha na direção de traçar semelhanças e dessemelhanças entre os 11 do STF e os 11 da Seleção Brasileira, a qual, há muitos anos, não conquista uma Copa do Mundo e acaba de sair do fracasso em território norte-americano.
As assimetrias e simetrias são muitas entre a Seleção e o Supremo, porém vamos cuidar de delimitar, no curto espaço, os aspectos mais relevantes que chamam a atenção e provocam a reação da sociedade civil.
Em primeiro lugar, os atletas da Seleção não são mais conhecidos, ao contrário dos integrantes do Supremo, que diariamente estão na mídia. Em segundo, o exibicionismo é traço marcante, junto com o individualismo, tanto no STF quanto na Seleção. Além disso, temos a prevalecer que nem sempre os melhores são convocados para o jogo ou para a decisão. No Supremo, são interesses políticos e econômicos que mapeiam as escolhas dos convocados, enquanto, na Seleção, a idade-teto geralmente chega a 35 anos. No STF, é mais do que o dobro, podendo atingir 75 anos, e tudo isso complica, e muito, o trânsito do cidadão comum com o direito da Suprema Corte na interpretação de milhares de leis, decretos e resoluções.
Somente será uma Corte Constitucional quando se reservar ao seu papel primordial de princípios e garantias encerrados no texto, sem descer a detalhes para julgamentos particularizados e de casos que envolvem partidos políticos, disputas intestinas de estatais, balanços fraudados e tantas outras coisas que se tornaram rotina no espelho da Corte Suprema.
Nossos craques da bola ganham milhões, principalmente aqueles que estão em território estrangeiro, mas nem por isso os ministros, que têm teto, podem se furtar às ambições de bons valores, notadamente quando há, no palco, grandes bancas e ligações, interconexões e interesses que galvanizam a clientela de uma forma geral. Diríamos que o fato de haver um valor para a classe como um todo não impede que se possa cogitar de novas situações, como hoje se afiguram no horizonte da mídia brasileira e estrangeira.
Jogadores mudam de clubes, ministros só podem vestir, em tese, a camisa do STF e decidir conforme a Constituição e a própria consciência. Tudo isso é um primado que deveria ser regra e se aplicaria em todas as circunstâncias. Na Seleção, há banco de reserva; no STF, não. Somente os 11 participam, e a substituição somente ocorre em caso de aposentadoria ou falecimento, ou quando se despe da toga voluntariamente.
Os craques da bola hoje não são conhecidos. A maioria joga fora e tem sua principal fonte de renda atrelada aos clubes, sociedades anônimas, e há toda uma liturgia para que os atletas sejam beneficiados por seguros no caso de acidente ou qualquer outro imprevisto.
Em atenção aos ministros, possuem segurança 24 horas, inclusive após a aposentadoria, e mantêm um padrão consentâneo com o cargo ocupado. Mas, enquanto tudo está nas mãos do Presidente para indicação e aprovação pelo Senado, na Seleção Brasileira só o técnico opina e a comissão, mas existem fatores externos que podem influenciar, até a situação do estado de saúde e física do atleta.
Os treinamentos são puxados na Seleção e os testes físicos, mais ainda, ao passo que não há treinamento para os ministros supremos e muito menos se obriga à prática esportiva. De todo modo, o desfile de autoridades é bastante conhecido, e há a mídia que repercute as notícias aos quatro cantos.
Continuamos a ser o País do futebol, sem ganhar Copas; permanecemos o País dos bacharéis, sem ter berço estruturado de justiça. Ficamos na expectativa do amanhã, com milhares de faculdades formando bacharéis sem mercado de trabalho. De igual modo, todo dia tem futebol, e os atletas tentam ao máximo um caminho para sair do Brasil.
Enfim, na Seleção dos 11, sempre criticada pela população, e nos 11 do Supremo, igualmente hoje em dia, não está fácil integrar qualquer uma. Porém, uma coisa é certa: a população e a sociedade civil estão de olhos abertos para as próximas cenas, e não adianta tentar improvisar, pois o alto custo e os valores recebidos têm alguma expressão de adesão da soberania popular.
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