A participação de influenciadores digitais em campanhas é permitida pela legislação eleitoral?

Data:

A participação de influenciadores digitais em campanhas é permitida pela legislação eleitoral? | Juristas
Felipe de Moraes Andrade – Procurador do Estado e Advogado especialista em direito público

O fenômeno das redes sociais demanda o acompanhamento do direito eleitoral. Em razão da força anterior dos ditos meios de comunicação (emissoras de televisão, rádio e jornais) houve a opção legislativa pela proibição da participação artísticas em eventos eleitorais.

A Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1993) proscreveu a participação nos seguintes termos:

Art. 39. A realização de qualquer ato de propaganda partidária ou eleitoral, em recinto aberto ou fechado, não depende de licença da polícia. (Vide ADIN 5970)
§ 7o É proibida a realização de showmício e de evento assemelhado para promoção de candidatos, bem como a apresentação, remunerada ou não, de artistas com a finalidade de animar comício e reunião eleitoral. (Incluído pela Lei nº 11.300, de 2006) (Vide ADIN 5970)

Entretanto, o poder de influenciar as massas de forma irrefletida migrou dos artistas consagrados pela mídia para os chamados influenciadores digitais, que arregimentam milhares (até milhões) de seguidores ditando tendências em consumo, bem como também na mudança de costumes e opiniões. Assim sendo, o Tribunal Superior Eleitoral regulamentou diversas situações referentes a utilização da internet para propaganda eleitoral (Resolução TSE nº 23.619/2019), sendo permitido: o impulsionamento de conteúdos de forma paga (art. 3- B); proibiu a utilização de disparo em massa de mensagens de propaganda eleitoral (art. 31, §1-A); bem como outras disposições sobre campanhas através de redes sociais.

Importante destacar que em 2017 fora alterada a Lei das Eleições para inserir dispositivo que opera a criação de um poder para regulamentar a disciplina das campanhas nas redes de forma ampla ao Tribunal Superior Eleitoral, vejamos:

Art. 57-J. O Tribunal Superior Eleitoral regulamentará o disposto nos arts. 57-A a 57-I desta Lei de acordo com o cenário e as ferramentas tecnológicas existentes em cada momento eleitoral e promoverá, para os veículos, partidos e demais entidades interessadas, a formulação e a ampla divulgação de regras de boas práticas relativas a campanhas eleitorais na internet. (Incluído pela Lei nº 13.488, de 2017)

Desta forma o órgão de cúpula da Justiça Eleitoral ampliou seu poder regulamentar para atingir a competência de formular regras de boas práticas relativas as campanhas eleitorais. Entretanto, inexistem regras sobre a identidade de tratamento entre a promoção de candidato mediante um showmício ou em uma live com um influenciador digital com milhões de seguidores.

Entendemos que em razão da amplitude do poder regulamentar, apesar de demandar questionamento sobre a constitucionalidade, demandaria a existência de regramento explícito sobre a possibilidade de utilização de propaganda política através de perfis de influenciadores que exercem atividades análogas aos artistas consagrados pelo público.

Assim sendo, há uma lacuna legislativa que deve ser objeto de projeto de lei em sentido formal para balizar os limites da participação destes influenciadores no pleito, bem como a devida regulamentação da lei por Resolução do Tribunal Superior Eleitoral. Entretanto, em razão do ativismo judicial não é recomendável a utilização em peças de propaganda política de vídeos ou imagens de influenciadores de amplo conhecimento para evitar representações eleitorais de propaganda irregular.

Felipe de Moraes Andrade – Procurador do Estado e Advogado especialista em direito público


Fique por dentro de tudo que acontece no mundo jurídico no Portal Juristas, siga nas redes sociais: Facebook, Twitter, Instagram e Linkedin. Adquira seu registro digital e-CPF e e-CNPJ na com a Juristas Certificação Digital, entre em contato conosco por e-mail ou pelo WhatsApp (83) 9 93826000.

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Mais decisões e mais humanas: o paradoxo que os gabinetes já estão vivendo

Sérgio Longo Um assessor de desembargador me disse, numa conversa...

O que é dano moral e quando ele gera direito à indenização

Uma mulher tenta financiar uma geladeira e descobre, no balcão da loja, que seu nome está no cadastro de inadimplentes por uma dívida que nunca contraiu. Um pai perde o casamento da filha porque o voo foi cancelado sem aviso e a companhia não ofereceu alternativa. Um pequeno comerciante encontra sua foto, sem autorização, no anúncio de uma loja concorrente. Em todas essas histórias, mais cedo ou mais tarde, alguém diz a mesma frase: "isso dá dano moral".

O que é habeas corpus e como ele protege a liberdade de ir e vir

Quase sempre começa com um telefonema fora de hora. Um filho que não voltou para casa, um irmão levado à delegacia sem que ninguém saiba explicar o motivo, uma prisão decretada num processo de que a pessoa sequer tinha notícia. No meio da confusão, alguém pronuncia duas palavras em latim que parecem saídas de um livro antigo: habeas corpus.

Balanço Eleitoral

Ao fim e ao cabo de mais um processo eleitoral, cujo principal objetivo é a escolha de um candidato à Presidência da República, afora outros cargos do Poder Legislativo já definidos em primeiro turno, o que se espera é, ao menos, um balanço de tudo o que ouvimos e assistimos: menos propaganda eleitoral e mais ataques desenfreados de todos os lados, em um nível tão baixo como jamais se imaginou na história deste País, cansado de promessas de um futuro sem igual e de que alcançará sua democracia pelas urnas.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo