Meta amplia coleta de dados de funcionários para treinar IA e enfrenta questionamentos sobre privacidade

Data:

black flat screen computer monitor
Photo by Mohammad Rahmani on Unsplash

A Meta está ampliando um projeto interno voltado ao treinamento de sistemas de inteligência artificial a partir da coleta de dados detalhados sobre o uso de computadores por seus funcionários. A iniciativa, chamada Model Capability Initiative (MCI), tem gerado preocupações entre especialistas em privacidade, reguladores e empregados da empresa devido ao alcance da coleta de informações e seus possíveis impactos legais.

Inicialmente apresentada como uma ferramenta destinada a registrar a interação dos colaboradores com softwares corporativos, a MCI monitora atividades como movimentos do mouse, cliques e navegação em menus para auxiliar no desenvolvimento de agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas de forma autônoma.

Segundo documentos internos divulgados pela agência Reuters, a ferramenta acompanha o uso de mais de 200 aplicativos e sites. Embora a Meta afirme que o sistema está instalado apenas em dispositivos de funcionários localizados nos Estados Unidos, a própria empresa reconheceu que comunicações enviadas por empregados de outros países para colegas norte-americanos podem ser capturadas durante o processo.

De acordo com informações repassadas aos funcionários, e-mails e mensagens trocadas com colaboradores dos EUA podem ser registrados quando a ferramenta estiver ativa. A empresa afirma que os dados coletados passam por processos de dissociação das informações pessoais dos usuários e que o foco da iniciativa é compreender a interação com os sistemas, não o conteúdo visualizado nas telas.

O projeto integra a estratégia do presidente-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, de acelerar a adoção de agentes de inteligência artificial em diversas áreas da companhia. A proposta busca utilizar padrões de comportamento dos trabalhadores para ensinar sistemas automatizados a reproduzir tarefas realizadas por profissionais humanos.

A iniciativa, porém, despertou preocupações relacionadas à proteção de dados, especialmente na União Europeia. Especialistas apontam que a captura de comunicações envolvendo funcionários europeus pode levantar questionamentos sobre conformidade com o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR), que impõe regras rígidas para coleta, tratamento e compartilhamento de informações pessoais.

Representantes de entidades de defesa da privacidade argumentam que dados originalmente produzidos para comunicação profissional não poderiam ser reutilizados livremente para treinamento de inteligência artificial sem justificativa legal adequada e sem observância dos princípios de finalidade e transparência previstos na legislação europeia.

Internamente, o projeto também enfrentou resistência. Funcionários relataram aumento significativo no consumo de dados da rede corporativa após a implementação da ferramenta. Além disso, análises realizadas por empregados indicaram que o sistema teria acesso a informações adicionais, como alterações em códigos de programação, registros de atividade dos computadores, histórico de navegação e conteúdos copiados para a área de transferência.

A Meta contestou parte dessas conclusões e afirmou que interpretações divulgadas internamente sobre o funcionamento da ferramenta continham informações incorretas. A empresa reforçou que avaliou previamente os riscos à privacidade e que está comprometida com o cumprimento das normas legais aplicáveis.

Enquanto isso, órgãos reguladores europeus acompanham o caso. A Comissão Irlandesa de Proteção de Dados informou ter recebido esclarecimentos da empresa sobre a iniciativa, mas ainda há dúvidas sobre o alcance da coleta e sua compatibilidade com as exigências de proteção de dados vigentes no bloco europeu.

O debate em torno da MCI evidencia os desafios enfrentados por empresas de tecnologia na busca por dados para desenvolver sistemas avançados de inteligência artificial sem comprometer direitos fundamentais relacionados à privacidade e à proteção de informações pessoais.

(Com informações da CNN por Katie Paul e Toby Sterling, da Reuters)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Justiça nega pedido de Willer Tomaz para obrigar Richarlison a apagar publicações sobre ilha

A Justiça de Brasília negou pedido de Willer Tomaz e da empresa WT Administração de Imóveis e Bens para obrigar Richarlison a apagar publicações sobre a disputa por uma ilha em Angra dos Reis. O processo continua em andamento.

Maior corretora de criptomoedas do mundo sofre invasão e perde bilhões

A Binance sofreu um ataque hacker que resultou no desvio estimado de US$ 6,3 bilhões em criptomoedas. A corretora suspendeu temporariamente os saques, afirmou que os recursos dos clientes estão protegidos e prometeu cobrir os prejuízos. Empresas do setor conseguiram bloquear parte dos ativos, enquanto as investigações sobre a autoria do ataque continuam.

Presidente do TRF-1 decide em processo envolvendo empresa representada pela própria filha

A presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região...

OAB-ES demite advogada após divulgação de vídeo com manifestações políticas

A OAB-ES demitiu uma advogada de seu quadro de colaboradores após a divulgação de um vídeo com manifestações políticas gravado nas dependências da instituição. Em nota, a entidade reafirmou seu compromisso com a democracia e a liberdade de expressão, mas declarou não tolerar manifestações discriminatórias.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo