
O governo do Piauí desenvolveu uma ferramenta de inteligência artificial que permite aos cidadãos solicitar registros de ocorrências policiais e fazer denúncias pelo WhatsApp, sem a necessidade de comparecer inicialmente a uma delegacia. Batizado de BO Fácil, o sistema funciona 24 horas por dia, compreende mensagens de texto e áudio e pode direcionar relatos considerados urgentes para atendimento policial imediato.
Desde o lançamento, em junho de 2025, até meados de outubro de 2026, a plataforma contabilizou 195.382 atendimentos emergenciais, 75.438 solicitações de registro de ocorrência e 9.512 denúncias anônimas. Os números correspondem a uma média de aproximadamente 414 atendimentos emergenciais e 156 solicitações de boletins de ocorrência por dia.
A ferramenta foi criada para facilitar o acesso da população aos serviços de segurança pública, especialmente em situações que envolvem violência contra mulheres e crianças, desaparecimentos e ameaças a escolas. O sistema utiliza o modelo de linguagem Soberano 1, desenvolvido no âmbito do projeto estadual SoberanIA, com participação de parceiros privados e acadêmicos e funcionamento em um centro de processamento de dados do governo estadual.
Ao iniciar uma conversa pelo WhatsApp, o cidadão pode escolher entre três modalidades: registro de ocorrência, denúncia anônima ou atendimento emergencial. Na primeira opção, a inteligência artificial conduz uma entrevista para reunir informações sobre o fato, o local, o horário e os envolvidos. Também é possível fornecer a localização e descrever objetos relacionados ao crime, como celulares roubados. A ferramenta aceita mensagens de voz, o que facilita o atendimento de pessoas que enfrentam dificuldades para digitar ou que estão em situações nas quais escrever não é conveniente.
Ao final da conversa, a inteligência artificial organiza as informações em um relato e disponibiliza um documento em PDF que comprova a solicitação. Esse documento inicial não corresponde ao boletim de ocorrência oficial. As informações são encaminhadas a policiais responsáveis pela validação, que analisam o relato, inserem os dados no sistema oficial e identificam a unidade competente para apurar o caso. Concluída essa etapa, o cidadão recebe pelo WhatsApp o boletim oficial em PDF, com assinatura eletrônica e indicação da delegacia responsável.
Um dos diferenciais do BO Fácil é a capacidade de identificar elementos do relato que indiquem risco imediato, mesmo quando o cidadão não seleciona inicialmente a opção de emergência. Nesses casos, o sistema pode direcionar o atendimento ao Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), onde um profissional assume a conversa. Ocorrências relacionadas a desaparecimentos, violência doméstica e violência escolar recebem atenção prioritária, com alertas internos para agilizar a análise.
No caso das denúncias anônimas, o sistema transcreve e organiza as informações fornecidas por texto ou áudio. Conforme a descrição do serviço, os dados encaminhados às equipes de inteligência incluem a data, o horário e o conteúdo da denúncia, sem informações destinadas a identificar o denunciante.
O BO Fácil utiliza o Soberano 1, modelo de linguagem desenvolvido pelo projeto SoberanIA para atender às necessidades da administração pública brasileira. A iniciativa começou em 2023, com o objetivo de criar uma tecnologia própria, em vez de depender exclusivamente de soluções oferecidas por empresas estrangeiras. O desenvolvimento envolveu pesquisadores e parceiros tecnológicos, e o modelo foi treinado com dados em português. Com aproximadamente 32 bilhões de parâmetros, a tecnologia está sendo especializada em áreas como segurança pública, saúde e compras governamentais.
O sistema também integra outros serviços estaduais, incluindo ferramentas para agendamento de consultas e exames, elaboração de documentos de licitação, apoio a professores e análise de currículos. Segundo o governo estadual, o ecossistema de inteligência artificial já está presente em mais de 800 serviços públicos.
Entre os objetivos do projeto estão a redução de custos com fornecedores externos, a possibilidade de replicar soluções digitais em diferentes áreas e a manutenção de informações sensíveis em infraestrutura controlada pelo próprio Estado. A administração estadual considera que o desenvolvimento de tecnologia própria pode ampliar a autonomia na gestão de dados públicos, especialmente em setores que lidam com informações sobre saúde, segurança e educação. O governo também pretende ampliar a capacidade do centro de processamento de dados e negocia a possibilidade de disponibilizar a tecnologia a outros órgãos públicos e países de língua portuguesa.
A experiência do Piauí demonstra uma aplicação da inteligência artificial na modernização dos serviços públicos, combinando atendimento automatizado com validação humana em etapas essenciais, como a formalização dos boletins de ocorrência.
(Com informações do Tilt UOL por Helton Simões Gomes)
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