Carol Bassin, Advogada especializada em propriedade intelectual, legislação de incentivo e proteção autoral. Atualmente atua como Consultora Jurídica e Business Affair junto ao agenciamento de talentos. Membro Efetivo da Comissão de Direitos Autorais, Direitos Imateriais e Entretenimento da OAB/RJ
Durante o mês de outubro, o Brasil tem como pano de fundo um único assunto: as eleições. Nas ruas, a quantidade de bandeiras e abordagens com panfletos e adesivos nos lembra de um compromisso inadiável; no próximo dia 4, escolheremos quem irá presidir o país e nos representar no Congresso Nacional.
E como acontece com cada aspecto da vida em sociedade, a arte certamente desempenha um importante papel nesse processo de escolha. Seja pela manifestação de apoio pessoal dos artistas a seus candidatos, seja pela autorização e liberação do uso de suas criações nas campanhas.
Eventos como o promovido pela campanha do presidente e candidato à reeleição Lula da Silva na Fundição Progresso (RJ) no último dia 23, que reuniu mais de cem artistas e nomes expressivos da cultura brasileira, como Chico Buarque, Marieta Severo, Paulinho da Viola, Lenine, Chico César, Mestre Ciça, Malu Mader, Tony Bellotto, Cissa Guimarães, Leandro Vieira, Daniela Mercury e Fernanda Abreu, nos ensinam uma importante lição: um artista que assume sua responsabilidade enquanto personalidade pública entende que não é só o resultado da sua arte que influencia.
Num contexto de internet, redes sociais e intensa circulação de informações e conteúdos, é cada vez mais raro encontrar um artista que se promova tão somente pelas suas obras. A personalidade e a trajetória, como um todo, são o que atraem e congregam os fãs. E aqui, não nos referimos à divulgação de sua vida pessoal (que não deixa de ser um grande nicho atualmente). Mas o próprio existir como cidadão dentro de uma sociedade.
Se uma canção sobre liberdade emociona, nada mais natural do que esperar que seu criador se posicione publicamente quando alguma liberdade é ameaçada. Esse acaba sendo o pensamento e a expectativa de boa parte da coletividade.
Na esfera jurídica, a preocupação em torno dessa “construção de imagem” se reflete, por exemplo, em garantias contratuais de não envolvimento em escândalos ou situações que comprometam a reputação pública. Poderíamos citar aqui alguns exemplos de como a conduta pessoal e o posicionamento de um artista afetam diretamente a sua arte e os projetos dos quais participa.
Basta lembrar do que aconteceu com a campanha do filme musical “Emilia Pérez” no Oscar do ano passado, que foi afetada pela exposição de falas problemáticas da atriz espanhola Karla Sofía Gascón em suas redes sociais.
Ou ainda, no exemplo mais recente, o impacto sobre a nova turnê de Ed Sheeran, envolvida numa polêmica após a retirada do rapper Macklemore dos shows de abertura da “Loop Tour”, depois de manifestações pró-Palestina feitas pelo artista no palco, em um momento de forte mobilização internacional em torno do conflito e de suas consequências humanitárias.
No final das contas, essa reflexão pode ser resumida quase como um silogismo. Se a arte for compreendida como uma ferramenta de conhecimento pessoal e transformação social, a dedução do papel mais amplo e profundo do artista se dá de forma quase automática.
Nas eleições e na vida, as boas escolhas são feitas quando pensamos nas necessidades principais que nos saciam como sociedade. E sim, como bem disseram os Titãs, a gente tem fome de comida, de diversão e de arte. Mas, também, de artistas que nos representem e cuja trajetória nos inspire.
Que suas escolhas no próximo dia 4 de outubro te alimentem!
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