Uso de imagem sem viés comercial ou depreciativo em documentário não gera dever de indenizar

Data:

Criança Autista
Créditos: Michał Chodyra / iStock

A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido de indenização de um homem que processou a HBO Brasil Ltda. pelo suposto uso indevido de sua imagem no documentário Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez, que aborda o homicídio da atriz Daniella Perez, ocorrido nos anos 1990, praticado por Guilherme de Pádua e sua esposa Paula Thomaz.

O documentário reproduz uma matéria jornalística exibida em televisão aberta, tratando da vida de Guilherme após o cumprimento da pena, quando passou a integrar a mesma comunidade evangélica do autor da ação. O requerente, que aparece no vídeo por cerca de dois segundos, alegou ter autorizado a exibição da imagem na reportagem original, mas não sua reprodução pela HBO para fins comerciais ou de forma depreciativa.

Histórico das decisões

As instâncias ordinárias rejeitaram o pedido de indenização. O juízo de primeiro grau entendeu que a breve aparição do autor não o associa ao assassinato da atriz nem aumenta o valor comercial da obra, configurando atuação dentro dos limites da liberdade de expressão. Já o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) destacou que o documentário tem caráter informativo e que não houve ofensa à honra do autor, que teria concordado tacitamente com a reexibição da imagem.

Ausência de interesse econômico: apenas uso depreciativo é indenizável

No STJ, o autor sustentou que a exibição não autorizada configuraria ato ilícito, devendo gerar indenização, citando a Súmula 403 do STJ, que dispensa a demonstração de prejuízo efetivo em casos de exploração comercial da imagem.

A relatora, ministra Nancy Andrighi, ressaltou que a aplicação da súmula não é automática, devendo ser afastada quando a aparição do indivíduo é acidental e sem repercussão econômica. Segundo a ministra, “inexistindo viés econômico ou comercial, apenas o uso degradante da imagem gera o dever de indenizar”.

No caso, verificou-se que o autor não teve sua honra violada, sendo contraditória a alegação de associação de sua imagem ao assassinato. Nancy Andrighi destacou que o recorrente autorizou previamente a circulação da mesma imagem em veículos de maior alcance, o que reforça a ausência de ilicitude.

Exercício legítimo da liberdade de expressão

A ministra também considerou que a HBO exerceu legitimamente o direito à liberdade de expressão, respeitando os deveres de veracidade, pertinência e cuidado. Ela enfatizou que documentários com finalidade informativa, especialmente sobre crimes de grande repercussão, estão protegidos pelo interesse público.

“O exercício do direito à liberdade de imprensa será considerado legítimo se o conteúdo transmitido for verdadeiro, de interesse público e não violar direitos da personalidade do indivíduo noticiado”, concluiu a relatora ao negar provimento ao recurso especial.

Referência: REsp 2.214.287.

Leia aqui o acórdão.

(Com informações do STJ)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Justiça dos EUA suspende fusão bilionária entre Warner Bros. Discovery e Paramount após ação antitruste

A Justiça dos Estados Unidos suspendeu a fusão de aproximadamente US$ 110 bilhões entre Warner Bros. Discovery e Paramount após ação movida por 12 estados, liderados pela Califórnia. Os autores sustentam que a operação viola a legislação antitruste e poderá reduzir significativamente a concorrência nos mercados de cinema, televisão e entretenimento. O caso ainda será analisado pela Justiça, enquanto a transação também aguarda aprovação de reguladores internacionais.

Eduardo Bolsonaro obtém green card nos EUA após condenação pelo STF

Eduardo Bolsonaro recebeu o green card dos Estados Unidos, documento que lhe garante residência permanente no país. A concessão ocorre após sua condenação pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo. O documento amplia sua estabilidade migratória nos EUA, embora não lhe confira direitos políticos, como o voto nas eleições norte-americanas.

Justiça mantém justa causa de trabalhadora que gravou vídeos no TikTok com uniforme e críticas à empresa

A Justiça do Trabalho manteve a demissão por justa causa de uma trabalhadora que gravou vídeos para o TikTok nas dependências da empresa, utilizando uniforme com identificação da empregadora e divulgando informações consideradas falsas sobre o ambiente de trabalho. A decisão concluiu que a conduta violou normas internas, comprometeu a imagem da empresa e configurou mau procedimento, indisciplina e ato lesivo à honra do empregador, nos termos da CLT.

Copa do Mundo impulsiona apostas esportivas, mas setor enfrenta pressão por regras mais rígidas sobre publicidade

A Copa do Mundo impulsionou o mercado brasileiro de apostas esportivas, registrando aumento expressivo no número de apostas e no volume de transações. Apesar do crescimento, o setor não atingiu as projeções esperadas e passou a enfrentar maior pressão por regras mais rígidas para a publicidade das bets. O governo federal reforçou normas sobre propaganda, enquanto órgãos públicos e entidades civis discutem novas medidas para ampliar a proteção dos consumidores.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo