Beto Simonetti
Nascido Alberto Ribeiro Simonetti Cabral em Manaus (AM), o advogado é comumente chamado de Simonetti por uns e Beto por outros, mas foi em 2022 que ganhou projeção nacional ao assumir a presidência do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Taurino e oriundo de uma família fortemente ligada ao meio jurídico no Amazonas, Simonetti é filho de Alberto Simonetti Cabral Filho, que foi quatro vezes presidente da OAB do Amazonas. É graduado em Direito pela Universidade Nilton Lins e pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Antes de chegar à presidência nacional, construiu uma longa carreira dentro da OAB como Conselheiro Federal pelo Amazonas (vários mandatos), Diretor-geral da Escola Superior da Advocacia (ESA), Corregedor-geral adjunto, Ouvidor-geral e Secretário-geral do Conselho Federal.
Reeleito em 2025, Simonetti assumiu com a proposta de fortalecer a advocacia e suas prerrogativas até o fim do mandato, em dezembro de 2027. Nesta entrevista exclusiva à Revista Juristas, ele fala sobre a realidade e o futuro da advocacia no país com desafios como o uso de Inteligência Artificial no Direito e a criminalização do golpe do falso advogado.
JURISTAS – Presidente, sua trajetória dentro do Sistema OAB é longa. Como essa experiência moldou sua visão sobre o papel institucional da Ordem no Brasil?
BETO SIMONETTI – A minha trajetória me permitiu compreender a OAB em sua dimensão nacional, com realidades muito distintas entre capitais e interior. Isso reforçou uma convicção: a Ordem precisa atuar com independência, firmeza na defesa das prerrogativas e compromisso permanente com a Constituição. A OAB não existe para si mesma. Ela existe para garantir o funcionamento da Justiça e proteger o cidadão.
Olho: A OAB não existe para si mesma
JURISTAS – O senhor vem de uma família com forte tradição na advocacia. Isso influenciou sua decisão de seguir carreira jurídica?
BETO SIMONETTI – Influenciou diretamente. Cresci em um ambiente em que a advocacia fazia parte do dia a dia. Meu pai teve uma atuação marcante na OAB, e minha família sempre esteve ligada à profissão. Desde cedo, entendi que a advocacia é mais do que uma carreira, é um compromisso com a sociedade, com a Constituição e com a defesa de direitos.
JURISTAS – Quais foram os maiores desafios ao assumir a presidência da OAB nacional pela primeira vez em 2022?
BETO SIMONETTI – O principal desafio foi responder às demandas concretas da advocacia em um momento de muitas transformações na profissão. Havia uma necessidade clara de fortalecer prerrogativas, valorizar honorários e modernizar a atuação institucional. A gestão foi orientada por isso: enfrentar problemas reais e entregar resultados para a advocacia.
JURISTAS – Como o senhor enxerga a advocacia brasileira nos próximos 10 anos?
BETO SIMONETTI – A advocacia já está em transformação, e isso tende a se intensificar. Teremos uma atuação cada vez mais digital, com uso crescente de inteligência artificial, automação e plataformas jurídicas. Mas há um ponto central: a tecnologia não substitui o papel do advogado. O futuro passa por três eixos. Capacitação contínua, porque o conhecimento técnico precisa acompanhar as mudanças. Inclusão, para que a transformação tecnológica não exclua profissionais, especialmente no interior. E valorização das prerrogativas, porque sem garantias não há exercício pleno da profissão. A advocacia muda na forma, mas não na essência: continuará sendo indispensável para a defesa de direitos.
JURISTAS – A profissão está passando por profundas transformações tecnológicas. A advocacia está preparada para isso?
BETO SIMONETTI – Está em processo de adaptação, mas esse processo não é uniforme. Há realidades muito distintas no país. O papel da OAB é reduzir essa desigualdade, investindo em capacitação e ampliando o acesso às ferramentas tecnológicas. A inovação precisa caminhar junto com a inclusão. O que não podemos admitir é que a tecnologia seja utilizada para limitar direitos ou reduzir o espaço da defesa. Ela deve servir à advocacia e à cidadania.
Olho: O que não podemos admitir é que a tecnologia seja utilizada para limitar direitos ou reduzir o espaço da defesa
JURISTAS – O crescimento do número de advogados no Brasil é positivo ou gera um risco de saturação do mercado?
BETO SIMONETTI – O crescimento amplia o acesso à Justiça, e isso é positivo. Mas também impõe desafios. O principal é garantir qualidade na formação e condições dignas de exercício profissional. Não se trata de restringir o acesso, mas de assegurar que a profissão seja exercida com qualificação e sustentabilidade. Por isso, a OAB atua na defesa do Exame de Ordem e no enfrentamento de problemas estruturais do ensino jurídico, além de políticas de valorização da advocacia.
JURISTAS – Qual deve ser o papel da OAB diante do avanço da inteligência artificial na advocacia?
BETO SIMONETTI – A OAB deve atuar em duas frentes ao mesmo tempo: proteger a advocacia dos riscos e preparar a classe para usar bem essa tecnologia. A inteligência artificial já integra a rotina profissional e tende a ganhar ainda mais espaço nos próximos anos. O papel da Ordem é garantir que esse avanço ocorra com responsabilidade, sem violação de prerrogativas, sem comprometimento do sigilo profissional e sem substituição indevida da atuação humana, que continua sendo indispensável no exercício da advocacia. Por isso, a OAB tem tratado o tema não apenas como pauta de inovação, mas como tema de ética profissional, proteção de dados, capacitação e defesa da cidadania.
JURISTAS – O uso de IA na elaboração de petições e análises jurídicas exige regulação ética específica?
BETO SIMONETTI – Exige, e essa necessidade já se impôs na prática. O uso de IA em atividades jurídicas traz riscos concretos: produção de conteúdo impreciso, referências inexistentes, vieses, exposição de dados sensíveis e uso inadequado de informações protegidas por sigilo. Nenhuma dessas ferramentas afasta a responsabilidade do advogado sobre o que é produzido e levado ao processo. Na advocacia, a tecnologia pode apoiar, mas não pode substituir o julgamento profissional, a análise técnica nem o dever de veracidade. O ponto central é esse: toda utilização de IA precisa permanecer subordinada aos deveres éticos da profissão.
JURISTAS – A OAB pretende criar diretrizes ou códigos de boas práticas para o uso de IA pelos advogados?
BETO SIMONETTI – A OAB já avançou concretamente nessa direção. Em 2024, o Conselho Federal aprovou a Recomendação 001/2024, elaborada com participação do Observatório Nacional de Cibersegurança, Inteligência Artificial e Proteção de Dados, para orientar o uso de inteligência artificial generativa na prática jurídica. Esse documento já estabelece parâmetros objetivos para a advocacia. A recomendação deixa claro, por exemplo, que o uso de IA deve observar o Estatuto da Advocacia, o Código de Ética, a LGPD e o dever de preservação do sigilo profissional. Também orienta que o advogado revise integralmente o conteúdo produzido, não delegue à máquina atividades privativas da advocacia, adote cautelas na escolha das plataformas e seja transparente com o cliente quanto ao uso da tecnologia, inclusive com consentimento informado quando for o caso. Portanto, não estamos mais no campo da intenção. A OAB já deu um passo institucional importante e deve continuar atualizando essas diretrizes à medida que a tecnologia evolui.
Olho: As violações mais recorrentes envolvem limitações indevidas ao exercício da defesa.
JURISTAS – Quais são hoje as maiores violações enfrentadas pelos advogados no Brasil?
BETO SIMONETTI – As violações mais recorrentes envolvem limitações indevidas ao exercício da defesa. Entre elas, destacam-se as restrições à sustentação oral, situações que comprometem o sigilo profissional, interpretações que reduzem a adequada fixação de honorários e dificuldades no acesso pleno aos autos em determinados contextos. São problemas que surgem, muitas vezes, da aplicação inadequada de regras já existentes ou de interpretações que acabam por restringir direitos assegurados em lei. O ponto central é que essas situações não afetam apenas a advocacia. Elas impactam diretamente o direito de defesa e a qualidade da prestação jurisdicional. Por isso, a OAB atua de forma permanente para corrigir essas distorções e assegurar o pleno exercício da profissão.
JURISTAS – O senhor acredita que o sistema de Justiça respeita adequadamente o papel constitucional da advocacia?
BETO SIMONETTI – O reconhecimento formal existe, mas a prática ainda apresenta distorções relevantes. A Constituição estabelece que o advogado é indispensável à administração da Justiça. Isso não é uma declaração simbólica. É uma garantia concreta de que o cidadão terá defesa técnica efetiva. Sempre que há restrição ao exercício da advocacia, seja na sustentação oral, no acesso aos autos ou na preservação do sigilo, o que se está comprometendo é o próprio funcionamento do sistema de Justiça. O que a OAB defende é o cumprimento integral desse papel constitucional, sem relativizações.
Olho: Prerrogativa não é privilégio. É condição para o pleno exercício do direito de defesa.
JURISTAS – Que medidas institucionais podem fortalecer a proteção das prerrogativas profissionais?
BETO SIMONETTI – A proteção das prerrogativas exige atuação permanente e estruturada. A OAB tem fortalecido o sistema nacional de defesa das prerrogativas, com presença efetiva nas seccionais, subseções e tribunais, garantindo resposta rápida e acompanhamento direto de violações em todo o país. Também atua no Congresso Nacional para aprimorar a legislação, como ocorreu com a Lei 14.365/2022, que reforçou prerrogativas da advocacia ao tipificar como crime a sua violação, ampliar garantias relacionadas à sustentação oral, fortalecer a proteção ao sigilo profissional e reafirmar a natureza alimentar dos honorários. Além disso, a atuação institucional envolve diálogo constante com o Judiciário e a adoção de medidas concretas sempre que há restrição indevida ao exercício da profissão. Outro ponto central é a interiorização. Não basta ter atuação forte nos tribunais superiores. É preciso garantir que o advogado tenha respaldo institucional em qualquer região do país. Prerrogativa não é privilégio. É condição para o pleno exercício do direito de defesa.
JURISTAS – Qual deve ser o limite da atuação política da instituição?
BETO SIMONETTI – A OAB não atua com base em alinhamentos políticos. Atua com base na Constituição. Isso significa independência, diálogo com todos os Poderes e compromisso com garantias fundamentais. Não se trata de neutralidade passiva, mas de atuação institucional responsável.
JURISTAS – Como a OAB pode contribuir para o fortalecimento do Estado de Direito?
BETO SIMONETTI – Atuando como ponto de equilíbrio institucional. A OAB fiscaliza, propõe e participa do debate público com base técnica. Nosso compromisso é com regras claras, respeito ao devido processo legal e preservação das garantias fundamentais.
JURISTAS – O senhor acredita que a OAB deve atuar mais intensamente no debate público sobre reformas institucionais?
BETO SIMONETTI – Sempre que essas reformas impactarem direitos e garantias, sim. A advocacia tem legitimidade para contribuir com propostas responsáveis, técnicas e constitucionalmente adequadas.
JURISTAS – O sistema judicial brasileiro é frequentemente criticado pela morosidade. Quais reformas o senhor considera prioritárias?
BETO SIMONETTI – Esse debate precisa ser feito com serenidade. Não se trata de confronto institucional, mas de aperfeiçoamento do sistema de Justiça. A OAB tem defendido medidas concretas, como maior colegialidade nas decisões, limites mais claros para decisões monocráticas em temas relevantes e regras objetivas para situações de conflito de interesses. O objetivo é aumentar a previsibilidade, a transparência e a confiança no sistema. Um Judiciário mais previsível é um Judiciário mais forte.
JURISTAS – O modelo atual do Exame de Ordem ainda é o mais adequado para garantir a qualidade da advocacia?
BETO SIMONETTI – O Exame de Ordem continua sendo um instrumento necessário e atual. Ele não é um mecanismo de restrição ao acesso à profissão, mas de proteção da sociedade. O advogado lida diretamente com direitos fundamentais, patrimônio, liberdade e segurança jurídica das pessoas. Isso exige um nível mínimo de qualificação técnica. Os resultados do Exame, inclusive, revelam um problema que precisa ser enfrentado: a qualidade do ensino jurídico no país ainda é desigual. A OAB tem atuado de forma firme para evitar a ampliação de cursos sem estrutura adequada e, especialmente, para impedir a oferta de cursos de Direito totalmente a distância. Portanto, o Exame cumpre um papel essencial. Ele não resolve todos os problemas da formação jurídica, mas é uma garantia mínima de que o exercício da advocacia será feito com responsabilidade técnica.
JURISTAS – Existe espaço para modernização ou mudanças estruturais no exame da OAB?
BETO SIMONETTI – Sempre há espaço para aprimoramento. O exame deve acompanhar a evolução da profissão, mantendo rigor técnico e segurança jurídica.
JURISTAS – Muitos jovens advogados enfrentam dificuldades financeiras no início da carreira. Como a OAB pode apoiar melhor essa geração?
BETO SIMONETTI – O início da carreira é o momento mais sensível da advocacia, e a resposta precisa ser prática. A OAB tem investido em estrutura, com coworkings e acesso à tecnologia, além de capacitação contínua. Também atuamos na defesa de condições econômicas mais equilibradas para a profissão. O objetivo é permitir que o jovem advogado se estabeleça com dignidade, sem precarização.
JURISTAS – A advocacia associada e as plataformas digitais estão mudando a forma de trabalhar. Como a OAB deve lidar com esse novo modelo?
BETO SIMONETTI – A OAB deve acompanhar essas mudanças e garantir que respeitem a ética e as prerrogativas. A inovação é necessária, mas não pode comprometer a independência profissional nem as condições de trabalho.
JURISTAS – O aumento de golpes digitais envolvendo “falsos advogados” tem preocupado a categoria. Quais ações a OAB tem adotado para combater esse problema?
BETO SIMONETTI Esse é um problema grave, que atinge diretamente a confiança da sociedade na advocacia. A OAB tem atuado em três frentes. Primeiro, com campanhas nacionais de orientação, alertando a população sobre como identificar advogados regularmente inscritos. Segundo, com articulação junto às autoridades policiais e órgãos de investigação, para coibir essas práticas e responsabilizar os envolvidos. E terceiro, com o desenvolvimento de ferramentas de verificação profissional, que permitem ao cidadão confirmar a regularidade do advogado. Não se trata apenas de proteger a advocacia. Trata-se de proteger o cidadão contra fraudes que exploram um momento de vulnerabilidade.
Olho: Golpes do falso advogado é um problema grave. Trata-se de proteger o cidadão contra fraudes que exploram um momento de vulnerabilidade
JURISTAS – Como o senhor avalia a relação institucional entre a OAB e os tribunais superiores?
BETO SIMONETTI – É uma relação de diálogo permanente, baseada no respeito institucional. A OAB mantém interlocução constante com os tribunais superiores, contribuindo tecnicamente em temas relevantes e participando dos debates que impactam o sistema de Justiça. Mas esse diálogo não afasta a nossa responsabilidade de atuar com firmeza quando há violação de prerrogativas. A relação institucional não é de concordância automática. É de respeito com independência. E é isso que garante à OAB credibilidade para dialogar e, quando necessário, divergir.
JURISTAS – Qual legado o senhor espera deixar ao final do seu mandato na presidência da OAB?
BETO SIMONETTI – O legado que buscamos construir é o de uma OAB que entrega resultados concretos para a advocacia. Avançamos na defesa das prerrogativas, na proteção dos honorários, na interiorização da estrutura e na criação de instrumentos voltados à nova realidade da profissão, como iniciativas na área de tecnologia e segurança digital. Também fortalecemos a atuação institucional da Ordem nos grandes debates nacionais, sempre com independência. Mais do que um legado pessoal, o objetivo é deixar uma OAB mais estruturada, mais próxima da advocacia e mais respeitada pelo sistema de Justiça, porque isso se reflete diretamente na proteção dos direitos do cidadão.
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