STJ apura uso de prompt injection por escritório ligado à defesa de hacker do PJe

Data:

Homem utiliza computador
Créditos: / iStock

O escritório sul-mato-grossense Pelzl & Brandolis Advogados Associados, alvo de investigação por suposto uso de prompt injection em petições enviadas ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), também atuou na defesa de um hacker acusado de invadir o Processo Judicial Eletrônico (PJe), sistema desenvolvido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e utilizado por diversos tribunais do país.

O cliente do escritório era Selmo Machado da Silva, denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) por fraudar acessos ao sistema e alterar documentos judiciais em benefício próprio. Segundo a acusação, ele teria modificado peças processuais em ao menos oito ações que tramitavam no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), inclusive em processos nos quais figurava como réu.

De acordo com a denúncia, em seis ações criminais o acusado alterou pareceres apresentados por procuradores da República, substituindo pedidos de condenação por manifestações favoráveis à absolvição.

O MPF também apontou que Silva teria fraudado ordens expedidas por servidores da Justiça Federal para transferir precatórios nos valores de R$ 225,9 mil e R$ 648,5 mil para contas de um comparsa.

Condenação e captura

Na ação relacionada à invasão do sistema, Selmo Machado da Silva foi condenado a 7 anos e 2 meses de prisão. Em 2022, quando estava foragido, chegou a integrar a lista vermelha da Interpol e acabou capturado pela Polícia Federal em 2023.

O Agravo em Recurso Especial (AREsp) 2534472, ligado ao caso, foi mencionado pelo ministro Luis Felipe Salomão em decisão proferida na última segunda-feira (25/5). O despacho ocorreu em outro processo envolvendo o mesmo réu, desta vez relacionado à tentativa de falsificação de cheque.

Na decisão, o ministro determinou o envio à Polícia Federal de um “relatório técnico-jurídico de detecção de prompt injection” juntado aos autos, medida que integra a apuração sobre a atuação dos advogados envolvidos.

Comandos ocultos em petições

O conteúdo do comando inserido nas petições buscava induzir sistemas de inteligência artificial a reconhecerem automaticamente a regularidade dos recursos, afastando filtros relacionados a óbices processuais e validando a fundamentação apresentada.

Na semana anterior, o presidente do STJ, ministro Herman Benjamin, determinou a instauração de inquérito policial e de procedimento administrativo para investigar o uso de comandos ocultos em peças protocoladas pelo escritório Pelzl & Brandolis Advogados Associados.

Segundo o próprio escritório, uma auditoria interna identificou 41 documentos contendo os comandos considerados irregulares. As petições teriam sido encaminhadas a diferentes tribunais e, conforme a banca, foram protocoladas sem o conhecimento ou autorização dos sócios.

Defesa do escritório

Em nota, o escritório afirmou que o prompt foi inserido em junho de 2025 por um ex-funcionário e permaneceu vinculado ao modelo utilizado para elaboração de petições.

A banca declarou ainda que, após a auditoria interna, comunicou voluntariamente o fato ao Poder Judiciário e identificou todas as peças supostamente afetadas.

Os representantes do escritório sustentam que a existência de um mesmo comando padronizado em todas as petições afasta a hipótese de tentativa deliberada de manipulação de decisões judiciais, argumentando que uma fraude direcionada exigiria prompts personalizados para cada sistema e tipo de processo.

O chamado prompt injection consiste na inserção de comandos ocultos destinados a influenciar o funcionamento de ferramentas de inteligência artificial. No caso investigado pelo STJ, os comandos teriam sido direcionados ao STJ Logos, sistema de IA generativa desenvolvido pela própria Corte.

(Com informações do site JOTA por Carolina Maingué Pires)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

New Balance processa Decathlon nos EUA por suposta violação de marca em logotipo da Kiprun

A New Balance processou a Decathlon nos Estados Unidos, alegando que o logotipo utilizado pela marca esportiva Kiprun apresenta semelhança com seu tradicional símbolo em formato de “N”. A fabricante pede a retirada dos produtos do mercado, a destruição dos itens com o símbolo e indenização. A Decathlon contesta a acusação e afirma que o desenho representa a letra “K”. O processo tramita no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito de Massachusetts.

IA amplia preocupação com empregos e já afeta a entrada de jovens no mercado de trabalho

Pesquisas recentes indicam que a inteligência artificial já produz efeitos perceptíveis sobre o mercado de trabalho, especialmente nas oportunidades destinadas a profissionais jovens em ocupações mais expostas à automação. Estudos também apontam crescimento do uso de IA generativa nas empresas, inclusive sem conhecimento dos empregadores, levantando questões relacionadas à governança, segurança da informação, proteção de dados e relações trabalhistas. Os pesquisadores ressaltam, contudo, que os dados disponíveis ainda não comprovam uma substituição generalizada de trabalhadores pela tecnologia.

Nelson Wilians transferiu R$ 6,6 milhões para empresa de herdeiro da Casas Bahia, aponta Coaf

Relatório do Coaf que embasou a Operação Distrato registra 15 transferências realizadas por Nelson Wilians, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, totalizando R$ 6,6 milhões destinados à Icon Properties, empresa ligada a Michael Klein. A movimentação é mencionada no contexto de investigação do Ministério Público de São Paulo sobre supostas fraudes envolvendo créditos de ICMS. Wilians afirma que as operações são lícitas e não têm relação com os fatos investigados. Michael Klein não se manifestou, enquanto a Casas Bahia informou ter criado um comitê independente para apurar o caso.

Candidata recorre à Justiça após desclassificação de concurso por uso de medicamento hormonal

Candidata ao concurso da Polícia Penal de Minas Gerais foi considerada inapta na avaliação médica após apresentar documentação indicando histórico de câncer de mama e uso contínuo de tamoxifeno. Ela afirma que exames recentes não apontam atividade da doença e questiona judicialmente a desclassificação, invocando o entendimento do STF no Tema 1.015. Os pedidos de liminar e o recurso apresentado pela candidata foram negados, enquanto o processo principal continua em tramitação.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo