
A Polícia Civil de São Paulo indiciou dois executivos do Goldman Sachs por suspeita de participação em um esquema de manipulação de informações societárias envolvendo um fundo de investimentos ligado à Oncoclínicas. A investigação apura se a estrutura societária do fundo Josephina teria sido apresentada de forma irregular à companhia, à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e à B3.
Foram indiciados Felipe Guerra Acosta, superintendente executivo do Goldman Sachs no Brasil, e Natan Lima Reinig, ex-integrante do conselho de administração da Oncoclínicas indicado pelo banco. O despacho foi assinado na sexta-feira (7) pelo delegado José Eduardo Jorge, da 15ª Delegacia de Polícia da capital paulista, e protocolado na segunda-feira (10).
Segundo o documento policial, os dois executivos são investigados pelos crimes de estelionato e de fraude e abuso na administração de sociedade por ações.
A apuração busca esclarecer se o Goldman Sachs teria omitido, em documentos apresentados ao mercado, que parte da participação atribuída ao banco na Oncoclínicas pertenceria, na realidade, à gestora norte-americana Centaurus Capital.
A suspeita está relacionada à possibilidade de que a suposta omissão tenha evitado a necessidade de realização de uma oferta pública de aquisição de ações (OPA). O mecanismo pode ser exigido quando determinado investidor ultrapassa um percentual de participação previsto no estatuto de uma companhia.
A regra, conhecida em determinados contextos como poison pill, busca proteger acionistas minoritários diante de mudanças relevantes na estrutura de controle ou concentração acionária.
Origem da investigação
Um dos pontos centrais da investigação é uma correspondência de 4 de novembro de 2024, assinada por Acosta e Reinig e encaminhada à Oncoclínicas. No documento, os executivos sustentaram que a criação do fundo Josephina III teria reorganizado a participação do Goldman Sachs e da Centaurus e separado interesses de investidores indiretos que já seriam vinculados à gestora.
Com base nessa interpretação, os executivos teriam defendido que não havia necessidade de acionar a cláusula de poison pill nem realizar uma OPA.
A Polícia Civil, entretanto, questiona essa versão. De acordo com o despacho, ela entraria em contradição com informações apresentadas pelo próprio Goldman Sachs no processo de abertura de capital da Oncoclínicas, em 2021.
No prospecto do IPO, o banco, que atuou como coordenador líder da oferta, aparecia como titular indireto de 100% das cotas dos fundos Josephina I e II. Segundo a investigação, não havia referência à Centaurus como titular indireta relevante.
O ex-CEO da Oncoclínicas Bruno Ferrari também prestou depoimento. Conforme o despacho, ele afirmou que as informações recebidas pela companhia indicavam que os fundos Josephina I e II estavam vinculados exclusivamente ao Goldman Sachs. Ferrari declarou ainda que não havia recebido, até novembro de 2024, comunicação de que a Centaurus tivesse participação indireta relevante na empresa.
Operação envolvendo participação acionária
Em março de 2025, o fundo Josephina III adquiriu do Josephina I uma participação adicional de 15,79% das ações da Oncoclínicas, elevando sua participação direta na companhia para 31,8%.
Na mesma operação, por meio de um contrato de swap, o Goldman Sachs passou a ter o resultado econômico relacionado à participação adicional. Nesse tipo de operação, uma das partes pode receber os resultados financeiros associados a determinado ativo, enquanto a titularidade formal permanece com outra parte.
Para a Polícia Civil, a interpretação apresentada sobre a estrutura societária teria sido utilizada para sustentar, perante a Oncoclínicas, a CVM, a B3 e os acionistas, que não havia obrigação de realizar uma oferta pública.
O indiciamento ocorre após a Superintendência de Registro de Valores Mobiliários da CVM ter concluído, em parecer técnico de junho, que a Centaurus não estaria obrigada a realizar a OPA. A área técnica considerou que a gestora já possuía participação indireta na Oncoclínicas desde 2018, dentro da estrutura controlada pelo Goldman Sachs, e que as reorganizações posteriores teriam apenas redistribuído uma participação já existente.
A interpretação da CVM, portanto, diverge da hipótese levantada pela Polícia Civil, que investiga justamente se a apresentação dessa estrutura societária teria envolvido fraude.
O Goldman Sachs negou irregularidades e afirmou que as alegações são infundadas, sustentando que agiu de maneira adequada. A Centaurus não se manifestou.
Situação financeira da Oncoclínicas
A investigação ocorre em um momento de dificuldades financeiras para a Oncoclínicas. Em julho de 2026, a companhia apresentou pedido de recuperação extrajudicial para negociar aproximadamente R$ 5,1 bilhões em dívidas.
A empresa, fundada em 2010, tornou-se uma das maiores redes privadas de oncologia do Brasil. Após a abertura de capital em 2021, passou por um processo de expansão, mas acumulou prejuízo de aproximadamente R$ 3,67 bilhões somente em 2025.
O indiciamento dos executivos representa uma etapa da investigação policial e não significa, por si só, condenação ou comprovação definitiva dos crimes investigados.
(Com informações da Folha de São Paulo por Diego Felix)
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