Congresso e as pautas simbólicas para as mulheres

Data:

Congresso e as pautas simbólicas para as mulheres | Juristas

Antônio Baptista Gonçalves

No mês da mulher sempre temos comemorações e reivindicações.

Ultimamente, pouco a celebrar com recordes históricos de feminicídios no país (cinco por dia), violência contra a mulher em alta e um estupro a cada seis minutos. A solução nunca é isolada e perpassa por um conjunto de fatores tais como: enfrentamento do machismo e patriarcado estruturais, necessidade de julgamento sob perspectiva de gênero, maior endurecimento penal e engajamento dos governos estaduais.

Se cada um dos três poderes modificasse seu protocolo interno, a fim de proteger a vítima, o cenário já seria diferente. Duvida? O Judiciário concede 70 medidas protetivas por hora, porém demora, em média, 697 dias para julgar um crime de feminicídio e, para os crimes de violência contra a mulher, o trâmite é de 598 dias.

Quando finalmente há a análise do processo não é incomum o agressor sair incólume, inocentado porque a instrução processual contava “apenas” com a palavra da vítima. Não há a implementação, em uniformidade, ao julgamento sob perspectiva de gênero em desrespeito, ao que determina o protocolo de 2021 do Conselho Nacional de Justiça. A mudança será um caminho decisivo para reduzir a presença do machismo e o patriarcado no Brasil.

O Executivo falha ao não monitorar as medidas protetivas e, também, não dispor de equipamento suficiente para garantir a segurança da vítima de violência.

Resultado: a cada cinco feminicídios, uma das vítimas morreu com uma medida protetiva em mãos. O apoio às mulheres perpassa por protegê-las, mas o Estado prefere terceirizar sua função e, inclusive, ao implementar o uso de spray de pimenta e teaser pelas próprias mulheres e às expor a riscos adicionais.

Por fim, o Legislativo não caminha em melhor direção, afinal, o que se nota atualmente é um conjunto de pautas simbólicas que aparentemente endurecem o arcabouço normativo de proteção às mulheres, mas, na prática não confere tal efeito.

Na esteira do que vários estados fizeram, a Câmara dos Deputados resolveu legislar acerca do uso do spray de pimenta pelas mulheres e autorizou seu porte em todo o território nacional para maiores de 18 anos. Adolescentes a partir de 16 anos podem portar o equipamento, desde que com autorização. Novamente, a terceirização da segurança para à vítima, sem treinamento ou capacitação a colocando em risco.

Também foi aprovado recentemente, na mesma casa legislativa, o PL 2942/2024, que permite à Justiça determinar o uso imediato de tornozeleira eletrônica pelo agressor de mulheres em situação de violência doméstica e familiar, se for verificado o alto risco à vida delas.

Qual será a efetividade? Uma vez que os Estados não possuem o equipamento para suportar o volume de concessão de medidas protetivas e o pior: não fiscaliza seu uso.

Por fim, dois projetos: a Câmara aprovou a criação do dia das Mulheres na Construção Civil, em homenagem ao crescimento da participação feminina nesse segmento. E também aprovou a criação da Mobilização Nacional dos 21 dias de ativismo pelo Fim da Violência e do Racismo contra as Mulheres.

Já o Senado Federal aprovou a criação da comenda Laço Branco, um prêmio anual para três homens ou instituições que atuam pelo fim da violência contra a mulher.

Os projetos em tramitação citados são irrelevantes? Longe disso, todos têm sua importância e contribuem para a valorização das mulheres, porém, para a redução da gravidade dos números de violência contra a mulher, em especial, os feminicídios, não possuem a efetividade necessária.

Como demonstrado, a violência contra as mulheres brasileiras não se resolve de maneira isolada e há problemas no Judiciário, Executivo e Legislativo que podem e precisam ser saneados.

As mulheres não querem comemorar seu dia ou seu mês com o Brasil com recordes negativos de violência de gênero, garanto que elas preferem celebrar a redução da violência de gênero. Para tanto, mudanças estruturais são necessárias e não podem tardar a ocorrer.

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google
Antonio Baptista Gonçalves
Antonio Baptista Gonçalves
Advogado, Pós-Doutor em Desafios en la postmodernidad para los Derechos Humanos y los Derechos Fundamentales pela Universidade de Santiago de Compostela, Pós-Doutor em Ciência da Religião pela PUC/SP, Pós-Doutor em Ciências Jurídicas pela Universidade de La Matanza. Doutor e Mestre em Filosofia do Direito pela PUC/SP, MBA em Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas; Especialista em Direitos Fundamentais pela Universidade de Coimbra, Especialista em Direito Penal Econômico Europeu pela Universidade de Coimbra, Pós Graduado em Teoria dos Delitos – Universidade de Salamanca, Pós-Graduado em Direito Penal Econômico e em Direito Tributário pela Fundação Getúlio Vargas – FGV, Bacharel em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e em Filosofia pela PUC/SP.

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Mais decisões e mais humanas: o paradoxo que os gabinetes já estão vivendo

Sérgio Longo Um assessor de desembargador me disse, numa conversa...

O que é dano moral e quando ele gera direito à indenização

Uma mulher tenta financiar uma geladeira e descobre, no balcão da loja, que seu nome está no cadastro de inadimplentes por uma dívida que nunca contraiu. Um pai perde o casamento da filha porque o voo foi cancelado sem aviso e a companhia não ofereceu alternativa. Um pequeno comerciante encontra sua foto, sem autorização, no anúncio de uma loja concorrente. Em todas essas histórias, mais cedo ou mais tarde, alguém diz a mesma frase: "isso dá dano moral".

O que é habeas corpus e como ele protege a liberdade de ir e vir

Quase sempre começa com um telefonema fora de hora. Um filho que não voltou para casa, um irmão levado à delegacia sem que ninguém saiba explicar o motivo, uma prisão decretada num processo de que a pessoa sequer tinha notícia. No meio da confusão, alguém pronuncia duas palavras em latim que parecem saídas de um livro antigo: habeas corpus.

Balanço Eleitoral

Ao fim e ao cabo de mais um processo eleitoral, cujo principal objetivo é a escolha de um candidato à Presidência da República, afora outros cargos do Poder Legislativo já definidos em primeiro turno, o que se espera é, ao menos, um balanço de tudo o que ouvimos e assistimos: menos propaganda eleitoral e mais ataques desenfreados de todos os lados, em um nível tão baixo como jamais se imaginou na história deste País, cansado de promessas de um futuro sem igual e de que alcançará sua democracia pelas urnas.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo