Os fenômenos invisíveis da cibercultura (Trivinho, 2007), frequentemente relegados ao plano do implícito, refletem dinâmicas de poder e exploração inscritas na lógica algorítmica e interativa das plataformas digitais. Embora operem sob o discurso da neutralidade tecnológica, tais dinâmicas organizam-se a partir de relações estruturalmente assimétricas, que naturalizam práticas de violência simbólica (Trivinho, 2010).
Nesse horizonte histórico, o submundo da cibercultura corresponde a um regime neoliberal da sexualidade no qual processos infotécnicos avançados submetem experiências íntimas a racionalidades permanentes de administração, circulação e exploração econômica em ambientes hipermediáticos (sites de pornografia, webcamming e comercialização de conteúdos eróticos).
A engrenagem operacional articula plataformas digitais, sistemas algorítmicos de vigilância, mecanismos de monetização da interação e estratégias disseminadas de administração subjetiva voltadas à transformação do corpo, do afeto e da sexualidade em ativos permanentemente rentáveis no capitalismo tardio (Zuboff, 2021; Trivinho, 2010).
As operações sistêmicas do mercado da economia erótica reproduzem, em escala e finalidade específicas, mecanismos estruturais semelhantes aos que caracterizam o oligopólio das Big Techs (Morozov, 2016; Zuboff, 2021). Em ambos os casos, a vigilância algorítmica voltada à coleta massiva de dados constitui eixo estratégico de funcionamento das plataformas. A administração algorítmica da interação converte permanência, comportamento e engajamento em variáveis centrais de rentabilidade no capitalismo de vigilância (Zuboff, 2021).
A adesão compulsória aos termos de uso e às políticas de privacidade impõe regimes opacos de monitoramento contínuo, viabilizando a administração do afeto, do desejo e da identidade como condição estrutural de acesso e permanência nas plataformas (Morozov, 2016). Em ambos os polos da cibercultura contemporânea opera um mesmo princípio: a previsibilidade do comportamento assegura o controle, e o controle garante a expansão econômica dos oligopólios ciberculturais (Zuboff, 2021).
A integração progressiva do erotismo digital aos regimes contemporâneos de vigilância, extração de dados e monetização algorítmica da intimidade evidencia a consolidação de arquiteturas infotécnicas voltadas à modulação contínua da subjetividade em ambientes hipermediáticos (Zuboff, 2021).
O simulacro instaura, assim, a era da simulação mediática (Baudrillard, 1991, p.75) na qual o hiper-real passa a reorganizar progressivamente percepções sociais, sensibilidades coletivas e experiências cotidianas. Assim como a superfície da cibercultura reconfigura práticas sociais segundo os interesses econômicos das Big Techs, o submundo reorganiza afetos, sexualidade e imaginário social conforme métricas algorítmicas, interesses mercadológicos e estratégias operacionais de seus mandantes ocultos (Magossi, 2026).
A problemática adquire relevância histórica singular na medida em que estruturas assentadas na exploração contínua da vulnerabilidade humana deixam progressivamente de operar sob condição marginal e passam a disputar legitimidade institucional, reconhecimento normativo e visibilidade empresarial na superfície da cibercultura. O fenômeno ultrapassa, portanto, a dimensão circunscrita do entretenimento adulto digital, uma vez que produz confusões no tecido social ao revestir práticas predatórias de simulacros empresariais associados à profissionalização, à inovação tecnológica, à liberdade individual e ao empreendedorismo feminino. (Harvey, 2008; Han, 2015)
A pedagogia neoliberal do submundo da cibercultura (Magossi, 2026)
A pedagogia neoliberal do submundo da cibercultura configura-se como dispositivo sofisticado e estratégico de captura simbólica e de administração da violência contra a mulher pelo sistema de capatazia do setor.
Nessa sistemática, reportagens, cursos, mentorias e conteúdos motivacionais convertem sofrimento psíquico, captura da intimidade e precarização extrema em desafios administráveis sob gramáticas neoliberais de autogerenciamento emocional, otimização permanente da performance, adaptação contínua às exigências algorítmicas e maximização da rentabilidade individual.
O mecanismo ultrapassa a dimensão estritamente mercadológica e passa a operar pedagogicamente sobre o imaginário social (Castoriadis, 1986), produzindo confusões deliberadas entre hiperexploração, reconhecimento social, liberdade sexual e ascensão econômica.
Para tanto, publicidade, sistema de capatazia, aparato contratual e blindagem normativa operam como engrenagem única do submundo da cibercultura. Trata-se de uma pedagogia da exploração adaptada às dinâmicas do processo civilizatório em curso, organizada a partir de dispositivos complementares de recrutamento, administração subjetiva, formalização jurídica e blindagem operacional da violência contra a mulher
A lógica operacional do sistema depende dos seguintes dispositivos complementares:
(i) Publicidade empresarial: a narrativa de empoderamento, autonomia financeira e liberdade sexual viabiliza a adesão das trabalhadoras às plataformas;
(ii) Sistema de capatazia subjetiva: influenciadoras, coaches e veículos parceiros administram pedagogicamente as subjetividades femininas mediante relatos motivacionais, promessas de ascensão econômica e estímulos contínuos à permanência nas plataformas;
(iii) Sistema de capatazia contratual: contratos de prestação de serviços formalizam juridicamente a cessão irrestrita da intimidade, da imagem e da circulação dos conteúdos produzidos;
(iv) Blindagem normativa e operacional: o aparato jurídico-empresarial fragmenta responsabilidades, dificulta a responsabilização das plataformas e assegura a continuidade operacional do setor mesmo diante dos danos produzidos sobre as trabalhadoras.
Em síntese, organiza-se, de maneira encadeada, articulando sedução simbólica, administração subjetiva, captura contratual da intimidade e neutralização jurídica da responsabilização empresarial. A violência estrutural deixa, assim, de circular sob aparência explícita de coerção e passa a operar mediante racionalidades empresariais de captura subjetiva como experiências aparentemente legítimas de escolha individual, liberdade da mulher, empoderamento feminino e oportunidade econômica (Han, 2015; 2018).

Figura 1: Esquema operacional da economia política do submundo da cibercultura
Fonte: Profa. Dra. Priscila Magossi com auxílio de inteligência artificial generativa (2026)
Referências
BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Lisboa: Relógio D’Água, 1991.
CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
HARVEY, David. O neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Loyola, 2008.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.
MAGOSSI, Priscila Gonçalves. A dialética do visível e do oculto na cibercultura. Estudos Avançados da USP, 2026. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/JDkJP7K3FGnL6QFtB3cfh3j/?lang=pt. Acesso em: 26/05/2026.
MOROZOV, Evgeny. Tech titans are busy privatising our data. The Guardian, 24 abr. 2016. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/apr/24/the-new-feudalism-silicon-valley-overlords-advertising-necessary-evil. Acesso em: 26/05/2026.
TRIVINHO, Eugênio. A dromocracia cibercultural: lógica da vida humana na civilização mediática avançada. São Paulo: Paulus, 2007.
TRIVINHO, Eugênio. Visibilidade mediática, melancolia do único e violência invisível na cibercultura: significação social-histórica de um substrato cultural regressivo da sociabilidade em tempo real na civilização mediática avançada. XIX Encontro Nacional da COMPÓS, 2010. Disponível em: http://www.compos.org.br/data/biblioteca_287.pdf. Acesso em: 26/05/2026.
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira de poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
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