O Jurídico como impulsionador da tecnologia: O papel do advogado na era da inovação digital

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O Jurídico como impulsionador da tecnologia: O papel do advogado na era da inovação digital | Juristas

Calza Neto

Ao passo em que tecnologias emergentes como inteligência artificial, big data, blockchain e Internet das Coisas (IoT) remodelam relações sociais, econômicas e institucionais, torna-se imperativo redimensionar o papel do Direito. Longe de ser um obstáculo à inovação, o setor jurídico deve atuar como alicerce ético e regulatório que impulsiona o desenvolvimento tecnológico de forma segura, responsável e inclusiva. Este artigo defende que o advogado moderno deve abandonar o paradigma reativo para adotar uma postura proativa, colaborativa e multidisciplinar, convertendo-se em um agente catalisador da inovação sustentável.

Historicamente, o Direito exerceu função predominantemente limitadora, com foco em responsabilização posterior aos fatos. No contexto digital, porém, essa abordagem revela-se insuficiente. Tecnologias se desenvolvem em ciclos cada vez mais curtos, e a regulação ex post se mostra lenta e ineficaz. Assim, surge o imperativo de um Direito participativo e orientado por princípios, capaz de acompanhar o ritmo da inovação sem engessá-la.

A atuação jurídica deve migrar do modelo vertical de proibição para um modelo horizontal de cooperação, em que juristas, engenheiros, designers e empreendedores dialogam desde a concepção de novas tecnologias (modelo “privacy by design”, por exemplo).

O profissional jurídico atual deve atuar como arquiteto normativo, estruturando ambientes regulatórios flexíveis e alinhados à realidade digital. Compete-lhe identificar riscos jurídicos e éticos, traduzir normas para equipes técnicas, atuar em compliance e governança de dados, além de contribuir na formulação de legislações. Esse papel é crucial em áreas como a inteligência artificial, cuja ausência de regulação pode ameaçar direitos fundamentais. O PL nº 2.338/2023, que cria o Marco Legal da IA no Brasil, ilustra como juristas podem promover uma regulação proporcional e tecnicamente adequada.3. A formação jurídica e o desafio da transdisciplinaridade

A transformação do papel do advogado exige mudanças também na formação acadêmica e profissional. A tradição positivista e conteudista dos cursos de Direito precisa dar lugar a uma abordagem transdisciplinar, que integre saberes da tecnologia, da ética aplicada, da ciência de dados e da gestão estratégica.

Para isso, são fundamentais disciplinas que abordem LGPD, inteligência artificial, governança de dados, open justice, blockchain e smart contracts; parcerias entre faculdades de Direito e cursos de Engenharia, Computação e Design; e o desenvolvimento de competências em negociação, mediação e design thinking jurídico. O advogado do futuro é aquele que compreende a linguagem técnica, traduz normas em soluções criativas e colabora para produtos mais seguros, éticos e eficientes.

Mas a missão não é simples. Diante do poder transformador da tecnologia, o Direito tem papel essencial na preservação da autonomia individual, da diversidade e da inclusão social. Isso não significa barrar a inovação, mas sim orientá-la por princípios éticos e democráticos. Regulações como o Regulamento Europeu de Inteligência Artificial (AI Act), o American Privacy Rights Act (APRA) e o PL brasileiro 2.338/2023 representam tentativas de conciliar segurança jurídica, direitos fundamentais e fomento à pesquisa e ao desenvolvimento.

O jurista que participa ativamente desses debates torna-se protagonista da construção de um futuro digital mais justo.

Conclusão

Para atuar com relevância no cenário tecnológico, o advogado precisa adotar uma postura colaborativa e estratégica, deixando de ser visto como o “guardião dos obstáculos” para tornar-se um parceiro viabilizador da inovação. Isso exige uma visão ampliada, capaz de enxergar além dos riscos para identificar caminhos seguros e juridicamente sólidos. Em vez de impor barreiras, o profissional jurídico deve facilitar o diálogo entre o legal e o técnico, promovendo soluções que respeitem os direitos sem travar o progresso. O verdadeiro diferencial está na habilidade de construir pontes, e não muros, entre a norma, o desenvolvimento e o negócio.

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Calza Neto
Calza Neto
Advogado, professor e perito judicial, com atuação especializada em Direito Digital, Proteção de Dados, Propriedade Intelectual e governança de tecnologias emergentes. É fundador do CNK Advogados e Data Protection Officer (DPO) de organizações de grande porte nos setores financeiro, esportivo, educacional e público. Atua na estruturação de programas de conformidade à LGPD, governança de IA e proteção de ativos intangíveis, com foco na construção da confiança digital. É membro do Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) e pesquisador dos impactos jurídicos da inteligência artificial, biometria e neurotecnologia sobre os direitos fundamentais

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