Tempestade Perfeita 

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Tempestade Perfeita  | JuristasCarlos Henrique Abrão

Bolsa em queda constante, empresas do varejo no atacado das recuperações judiciais, alta do dólar, recessão batendo à porta e dada a largada para a campanha eleitoral em outubro do ano em curso. Entretanto, a fortuna gasta com o pleito poderia ser drenada para a economia e a melhoria do ambiente dos negócios, já que quem for eleito, independentemente de sua ideologia ou convencimento, nada fará sem antes arrumar a casa e consertar o problema agudo da dívida pública.

Mas não é só. Muitos perguntam como chegamos a este estado de coisas em um ambiente desfavorável, com empregos sendo cortados, crédito ausente e a bolha explodindo. O que mais se vê são prédios subindo por todos os cantos do País, mas ninguém pensa na comercialização, ainda mais pelos preços nas nuvens que as incorporadoras e construtoras pedem.

Contudo, a situação é ainda mais delicada se olharmos o problema do varejo e a cadeia de lojas e magazines quebrando, com pedido tardio de recuperação judicial ou renovação em pouco intervalo de tempo, ainda que legalmente possível.

Diante da realidade, temos a ponderar que a concorrência bateu pesado, os preços ainda mais, a tributação canhestra nos flagela e o sistema de logística mais ainda, já que o futuro ganha corpo mediante plataformas e os chineses muito bem dominam o equipamento com inteligência artificial.

Montada a tempestade perfeita, a pergunta que não quer calar: será possível o seu desmonte? Obviamente, mudanças profundas e radicais deverão ser feitas, inclusive novo plano econômico-fiscal e o teto como arcabouço prometido, mas jamais cumprido.

A gastança é um sinal de descontrole e, quanto maior o endividamento do Estado, menos os juros abaixam, pois o refinanciamento é feito pelo sistema financeiro, o qual aumenta sobremodo o lucro de bilhões em suas demonstrações financeiras.

Nada pior do que a conjuntura hospedada na tempestade perfeita, na qual os empresários urbanos e rurais estão aparvalhados e com volumes impagáveis de dívidas. Por outro ângulo, é a conjuntura da maioria das empresas nacionais, as quais perdem competitividade e não sabem aproveitar a boa onda e se perdem em erros, além de fraudes contábeis.

A recessão é iminente, segundo economistas, e o que se pode prever é uma quebradeira coletiva. Aliás, legislações mais avançadas, em caso semelhante, têm disciplina para recuperação setorial, o que seria um procedimento coletivo para amenizar e dar um alívio, mantendo, assim, a chama da esperança.

Nenhuma legislação moderna será capaz de implementar um bom plano ou salvaguardar as empresas. O que assistimos são pedidos de empresas praticamente insolventes, sem pagar água, luz, internet e telefonia, o que evidencia uma quadra de desgoverno empresarial e compliance negativo.

O sofrimento da população é mais visível quando vemos a inflação e os preços subindo, enquanto os salários, de forma perversa, não são reajustados pelos índices oficiais, mas sim escamoteados, para que aposentados e pensionistas continuem na fila infinita dos empréstimos consignados e de toda sorte de oxigênio na UTI financeira.

Não precisaríamos passar pelo enfrentamento desta situação de choque, que acontece mais uma vez pela irracionalidade e intencionalidade de querer aumentar a massa de dependentes do Estado e lhe franquear migalhas sociais, as quais não representam jamais saber pescar, mas uma rede furada.

Almejemos, ao longo dos próximos meses, um pressentimento pouco melhor, para que no final de ano não despenquem ainda mais as vendas, incremente-se a contratação de temporários e os negócios voltem a animar os estrangeiros na capacidade de enxergarmos não disputas com nações desenvolvidas, mas caminhos naturais de crescimento após uma década literalmente perdida.

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Carlos Henrique Abrão
Carlos Henrique Abrão
Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Doutor pela USP com especialização em Paris, Professor pesquisador convidado da Universidade de Heidelberg, autor de obras e artigos.

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