CNJ recomenda medidas para proteger sistemas judiciais contra manipulação de inteligência artificial

Data:

CNJ recomenda medidas para proteger sistemas judiciais contra manipulação de inteligência artificial | Juristas
Créditos: stevanovicigor / iStock

O Comitê Nacional de Inteligência Artificial do Judiciário (CNIAJ), vinculado ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ), aprovou em 27 de maio a Manifestação Técnica CNIAJ nº 1/2026, documento que estabelece diretrizes para prevenir ataques conhecidos como prompt injection nos sistemas de inteligência artificial utilizados pelo Poder Judiciário.

A prática consiste na inserção de comandos ocultos em documentos processuais com o objetivo de influenciar ou manipular as respostas produzidas por ferramentas de IA. A preocupação do CNJ é reduzir a vulnerabilidade dos sistemas e preservar a confiabilidade das tecnologias que vêm sendo incorporadas à atividade jurisdicional.

Entre as recomendações está a adoção de filtros de higienização capazes de identificar textos invisíveis, escritos fora da área perceptível do documento, sobrepostos a outros elementos, com fontes extremamente reduzidas ou com baixo contraste. A medida busca impedir que instruções ocultas sejam interpretadas pelos modelos de inteligência artificial.

O documento também orienta que os tribunais implementem mecanismos de rastreabilidade antes que documentos produzidos pelas partes sejam submetidos a sistemas de IA destinados à elaboração de minutas de decisões. Nesse processo, devem ser registrados dados como identificação do usuário, vínculo com certificado digital e autenticidade dos arquivos por meio de códigos de verificação.

Outra prática recomendada é a utilização dos chamados “contratos de resposta”, metodologia que limita a liberdade de resposta da inteligência artificial por meio de comandos previamente estruturados. Segundo o CNJ, a formulação dos prompts em etapas facilita a identificação de interferências indevidas e reduz o risco de que instruções ocultas influenciem o resultado produzido pela ferramenta.

Além das medidas tecnológicas, a manifestação reforça a necessidade de supervisão humana efetiva. Os documentos considerados não confiáveis devem ser tratados de forma isolada antes de serem analisados pelos sistemas, e os tribunais são incentivados a realizar avaliações periódicas para detectar vulnerabilidades, prevenir o envenenamento de bases de dados e evitar a utilização de conteúdos não validados. O CNJ, contudo, não estabeleceu prazo para a implementação das recomendações.

Caso haja suspeita de prompt injection, a orientação é que o fato seja registrado nos autos de forma clara e objetiva, preservando a rastreabilidade das informações. Eventuais sanções civis ficarão a cargo do magistrado responsável pelo caso, podendo incluir multa por ato atentatório à dignidade da justiça ou litigância de má-fé, nos termos dos artigos 77 e 80 do Código de Processo Civil. A conduta também poderá ser comunicada às autoridades competentes para apuração de eventual responsabilidade criminal.

Como funciona o prompt injection

O prompt injection representa uma das principais ameaças à utilização da inteligência artificial no ambiente judicial. O ataque ocorre quando comandos ocultos são inseridos em petições, recursos ou outros documentos processuais para alterar o comportamento da ferramenta.

Um exemplo seria a inclusão de uma instrução invisível em uma petição, escrita com a mesma cor do fundo e em tamanho mínimo, orientando a IA a ignorar determinados argumentos ou sugerir uma conclusão favorável a uma das partes. Embora imperceptível aos olhos humanos, a mensagem pode ser interpretada pelo sistema automatizado.

Essas manipulações podem ocorrer de forma direta, alterando instruções previamente existentes, ou de forma indireta, por meio da exploração de documentos e conteúdos externos. Em ambos os casos, o resultado pode comprometer a imparcialidade e a confiabilidade das respostas geradas pela tecnologia.

Crescimento do uso da IA no Judiciário

Levantamento recente do CNJ aponta que 45,8% dos tribunais brasileiros já utilizam ferramentas de inteligência artificial para auxiliar magistrados em atividades como elaboração de minutas, correção ortográfica, aprimoramento de textos e produção de resumos processuais.

Entre os tribunais que ainda não adotaram a tecnologia, mais de 80% informaram ter intenção de implementá-la nos próximos anos, indicando uma tendência de expansão do uso dessas ferramentas no sistema de justiça.

Paralelamente, a advocacia também vem discutindo parâmetros para a utilização responsável da tecnologia. Em 2024, a Ordem dos Advogados do Brasil editou a Recomendação nº 001/2024, com orientações voltadas ao uso ético da inteligência artificial na atividade jurídica.

Nos últimos meses, casos de suposta manipulação de sistemas por meio de comandos ocultos passaram a chamar a atenção. Advogados e procuradores já foram alvo de investigações e sanções por suspeitas de utilização indevida dessas técnicas em processos judiciais.

Integridade do processo judicial

Especialistas alertam que o prompt injection pode configurar não apenas litigância de má-fé e ato atentatório à dignidade da justiça, mas também, em determinadas circunstâncias, o crime de fraude processual previsto no artigo 347 do Código Penal.

Para o CNJ, o avanço da inteligência artificial no Judiciário exige a adoção de mecanismos robustos de segurança capazes de assegurar que a tecnologia seja utilizada para ampliar a eficiência da prestação jurisdicional, sem comprometer garantias fundamentais do processo.

O desafio, segundo a manifestação técnica, vai além da esfera tecnológica. Trata-se de preservar princípios como a boa-fé processual, a transparência e o devido processo legal em um cenário cada vez mais marcado pela presença da inteligência artificial.

(Com informações do JOTA por Mariana Timóteo de O. Pontual Marletti)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Defesa de Daniel Vorcaro aponta alterações em arquivos de celular apreendido pela Polícia Federal

A defesa de Daniel Vorcaro apresentou ao STF um laudo particular que identificou alterações em 657 arquivos e a criação de outros 436 no celular do empresário enquanto o aparelho estava sob custódia da Polícia Federal. O documento questiona procedimentos de preservação e extração de provas digitais e fundamenta o pedido de acesso aos dados originais do dispositivo.

Justiça nega pedido de Willer Tomaz para obrigar Richarlison a apagar publicações sobre ilha

A Justiça de Brasília negou pedido de Willer Tomaz e da empresa WT Administração de Imóveis e Bens para obrigar Richarlison a apagar publicações sobre a disputa por uma ilha em Angra dos Reis. O processo continua em andamento.

Maior corretora de criptomoedas do mundo sofre invasão e perde bilhões

A Binance sofreu um ataque hacker que resultou no desvio estimado de US$ 6,3 bilhões em criptomoedas. A corretora suspendeu temporariamente os saques, afirmou que os recursos dos clientes estão protegidos e prometeu cobrir os prejuízos. Empresas do setor conseguiram bloquear parte dos ativos, enquanto as investigações sobre a autoria do ataque continuam.

Presidente do TRF-1 decide em processo envolvendo empresa representada pela própria filha

A presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região...

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo