Especialistas alertam para impactos ambientais e econômicos da expansão de data centers de IA no Brasil

Data:

Especialistas alertam para impactos ambientais e econômicos da expansão de data centers de IA no Brasil | JuristasA expansão dos data centers voltados à inteligência artificial no Brasil foi alvo de críticas durante audiência pública realizada na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado Federal. Especialistas ouvidos na terça-feira (4) alertaram que o crescimento desse tipo de infraestrutura pode provocar impactos ambientais, elevar o consumo de água e energia elétrica e aumentar os custos para os consumidores, sem garantir benefícios proporcionais ao país.

O debate integra a análise do Projeto de Lei nº 3.018/2024, que estabelece diretrizes para a instalação e o funcionamento de centros de processamento de dados destinados à inteligência artificial. A audiência foi requerida pelos senadores Teresa Leitão (PT-PE) e Rogério Carvalho (PT-SE) com o objetivo de ampliar a participação de especialistas, representantes da sociedade civil, consumidores, ambientalistas e comunidades indígenas na discussão da proposta.

Na abertura dos trabalhos, a senadora Teresa Leitão ressaltou que a diversidade de contribuições é fundamental para aperfeiçoar o texto legislativo e construir um marco regulatório que concilie inovação tecnológica, desenvolvimento econômico, segurança jurídica, sustentabilidade e proteção de direitos.

Entre as principais preocupações apresentadas está o elevado consumo de energia elétrica dos data centers de inteligência artificial. O diretor-executivo do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Igor Britto, afirmou que essas estruturas operam continuamente, inclusive nos horários de maior demanda do sistema elétrico, exigindo investimentos em geração e distribuição de energia que acabam sendo repassados às tarifas pagas por toda a população.

Como alternativa, o Idec defendeu a criação de um encargo específico para grandes consumidores de energia, calculado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), de forma a compensar os custos adicionais provocados por esse tipo de empreendimento.

O consumo intensivo de água também foi apontado como fator de preocupação. A diretora do Instituto Latinoamericano de Terraformación, Paz Peña, observou que muitos data centers são instalados em regiões sujeitas ao estresse hídrico, competindo com o abastecimento humano e pressionando os recursos naturais. Segundo a especialista, a legislação poderia prever mecanismos que priorizem o fornecimento de água à população em situações de escassez, além da possibilidade de suspender temporariamente novos empreendimentos quando houver risco ambiental relevante.

Outro aspecto destacado foi o fato de que tecnologias utilizadas para reduzir o consumo de água podem aumentar significativamente a demanda por energia elétrica. De acordo com André Lucas Fernandes, diretor do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), sistemas de refrigeração em circuito fechado dependem de equipamentos de grande porte operando continuamente, elevando o gasto energético.

Os especialistas também defenderam que a legislação diferencie pequenos data centers, destinados ao atendimento de serviços públicos e atividades locais, das grandes estruturas voltadas ao processamento de dados de empresas multinacionais. Segundo Felipe Rocha da Silva, codiretor do Laboratório de Políticas Públicas e Internet (Lapin), um único data center de inteligência artificial pode consumir energia equivalente a cinco vezes a capacidade somada dos cerca de 200 centros de dados atualmente em funcionamento no país.

Durante a audiência, também foram levantadas preocupações sobre os impactos econômicos desses empreendimentos. Representantes da sociedade civil afirmaram que a maior parte dos empregos gerados ocorre apenas durante a fase de construção, enquanto os benefícios econômicos permanentes tendem a ser limitados. Em contrapartida, os custos ambientais e de infraestrutura permaneceriam sob responsabilidade do Brasil, embora os serviços sejam destinados, em grande medida, a empresas estrangeiras.

Questões ambientais adicionais, como poluição sonora, emissão de calor, excesso de iluminação artificial e possíveis alterações na fauna e na flora das regiões onde os empreendimentos são instalados, também foram debatidas. Representantes de comunidades indígenas relataram a ausência de consulta prévia em projetos de instalação de data centers, defendendo maior participação das populações potencialmente afetadas nos processos de licenciamento.

As contribuições apresentadas durante a audiência deverão subsidiar a análise do Projeto de Lei nº 3.018/2024, de autoria do senador Styvenson Valentim (Podemos-RN), relatado pelo senador Vanderlan Cardoso (PSD-GO), que permanece em tramitação na Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado.

(Com informações da Agência Senado)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Projeto de Lei propõe criminalizar ‘injeção de prompt’ para manipular processos judiciais com IA

O Projeto de Lei 2543/26 propõe transformar em crime a utilização de técnicas de “injeção de prompt” para manipular sistemas de inteligência artificial empregados em processos judiciais e administrativos com o objetivo de obter vantagem indevida, causar danos ou influenciar resultados automatizados. A proposta prevê pena de um a quatro anos de reclusão e multa, com possibilidade de aumento em situações específicas. O texto também estabelece auditorias de processos e medidas de segurança para prevenir manipulações de sistemas de IA.

Brasil inicia processo para aplicar Lei da Reciprocidade contra tarifas dos EUA

O governo brasileiro iniciou o processo de aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica em resposta às tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais. A Camex avaliará se as medidas norte-americanas se enquadram na legislação, enquanto o Itamaraty iniciou consultas diplomáticas com Washington. Apesar da possibilidade de adoção de contramedidas comerciais, o governo afirma que pretende priorizar a negociação para tentar solucionar a disputa.

Uso excessivo de IA pode gerar “workslop” e comprometer produtividade, aponta estudo

O uso acelerado da inteligência artificial nas empresas deu origem ao fenômeno conhecido como workslop, que descreve conteúdos gerados por IA com aparência profissional, mas que apresentam informações genéricas, erros ou falta de contexto. Segundo levantamento da BetterUp Labs, 40% dos trabalhadores afirmam já ter recebido esse tipo de material. O problema pode gerar retrabalho, perda de produtividade, desgaste entre equipes e riscos relacionados à segurança da informação. Especialistas defendem o uso da IA como ferramenta de apoio, acompanhado de pensamento crítico, revisão humana, treinamento e políticas de governança.

Falha em turbina destrói janela e deixa passageiro parcialmente para fora de avião

Um passageiro ficou parcialmente para fora de um avião durante um voo entre a Grécia e a Alemanha após uma pá da turbina do motor direito se romper e fragmentos atingirem uma janela da cabine. O homem, de 61 anos, teve a cabeça e o ombro sugados para fora da aeronave e foi segurado pelas pernas pela esposa e por outros passageiros. A tripulação declarou emergência e conseguiu pousar em segurança. O NTSB participa da investigação, que ainda busca determinar a causa da falha no motor.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo