TJPB reconhece a inconstitucionalidade de invocação religiosa em sessões da Assembleia Legislativa

Data:

Pastores evangélicos
Créditos: Dekdoyjaidee | iStock

O Órgão Especial do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), em sessão realizada na quarta-feira (4), declarou a inconstitucionalidade da expressão “sob a proteção de Deus”, utilizada na abertura das sessões da Assembleia Legislativa do Estado da Paraíba, bem como da manutenção da Bíblia sobre a mesa diretora durante os trabalhos legislativos.

A decisão foi proferida no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 0814184-94.2024.8.15.0000, ajuizada pelo Ministério Público do Estado da Paraíba (MPPB), que questionou dispositivos do Regimento Interno da Assembleia Legislativa por suposta afronta a princípios constitucionais. A relatoria coube à desembargadora Fátima Maranhão, que acompanhou o entendimento firmado no voto-vista apresentado pelo desembargador Ricardo Vital de Almeida. A sessão foi presidida pelo desembargador Fred Coutinho.

Na inicial, o MPPB sustentou que os dispositivos regimentais impugnados violam os princípios da laicidade do Estado, da liberdade religiosa, da igualdade, da impessoalidade e da neutralidade estatal em matéria religiosa, previstos nos artigos 5º e 30 da Constituição do Estado da Paraíba, em consonância com os artigos 19, inciso I, e 37 da Constituição Federal. Argumentou, ainda, que a imposição de práticas de cunho religioso em ambiente institucional compromete os princípios da legalidade, da isonomia e do interesse público.

Em contestação, a Assembleia Legislativa defendeu que tanto a invocação da proteção divina quanto a presença da Bíblia teriam natureza meramente simbólica e protocolar, não configurando imposição de crença ou violação à liberdade religiosa, além de se tratarem de práticas tradicionais observadas em diversas casas legislativas do país.

Ao apresentar o voto-vista, o desembargador Ricardo Vital de Almeida ressaltou que o princípio da laicidade do Estado exige postura de absoluta neutralidade do poder público em relação às religiões, não se limitando à inexistência de uma religião oficial. Segundo o magistrado, a adoção de símbolos, textos ou expressões vinculadas a determinada fé revela indevida preferência institucional.

Conforme consignado no voto, a exigência de permanência de um livro sagrado específico sobre a mesa diretora e a obrigatoriedade de invocação religiosa para a abertura das sessões extrapolam a competência secular do Estado, caracterizando ingerência na esfera do sagrado e afrontando o dever constitucional de neutralidade.

(Com informações do TJPB por Lenilson Guedes)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Câmeras com IA identificam comportamentos suspeitos e reacendem debate sobre vigilância

Câmeras de monitoramento, tradicionalmente utilizadas para registrar ocorrências e...

Inteligência artificial amplia ataques cibernéticos e coloca empresas brasileiras na mira de grupos criminosos

O avanço da inteligência artificial generativa tem contribuído para o aumento e a sofisticação de ataques cibernéticos realizados por grupos criminosos. No Brasil, empresas e instituições passaram a figurar entre os alvos de operações de ransomware e roubo de dados. Além dos prejuízos financeiros, os ataques podem gerar responsabilidades relacionadas à proteção de dados pessoais e exigir comunicação à ANPD e aos titulares afetados.

Nova lei aumenta penas para crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes na internet

A Lei 15.487/2026 endureceu as penas para crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes, inclusive aqueles praticados pela internet ou com o uso de inteligência artificial. A norma elevou diversas penas, incluiu os crimes no rol dos hediondos, criou mecanismos de investigação digital, como as chamadas “rondas virtuais”, e ampliou a proteção psicológica e psicossocial às vítimas. A legislação também prevê aumento de pena quando houver uso de IA, deepfakes, redes sociais, aplicativos de mensagens ou jogos online para facilitar a prática criminosa.

Alemanha planeja reformar “minijobs” e ampliar contribuição previdenciária

A Alemanha avalia reformar o sistema de “minijobs”, modalidade de trabalho de curta jornada que atende cerca de 7 milhões de pessoas. Entre as propostas estão o fim da possibilidade de renunciar às contribuições previdenciárias e o aumento dos encargos pagos pelas empresas. Sindicatos defendem a mudança por considerarem o modelo precário, enquanto empregadores argumentam que os minijobs garantem flexibilidade ao mercado de trabalho. Estudantes e trabalhadores que dependem dessa modalidade temem redução da renda. O governo alemão ainda deverá definir os detalhes da reforma.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo