As 10 horas por semana que a IA devolve ao advogado (e o método de 4 passos para capturá-las)

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As 10 horas por semana que a IA devolve ao advogado (e o método de 4 passos para capturá-las) | Juristas

Sérgio Longo

Recentemente, escrevi sobre os cinco erros que vejo advogados cometerem com inteligência artificial. A repercussão deixou clara uma dúvida que aparece em quase toda conversa: “Tudo bem, entendi os erros. Mas, na prática, por onde eu começo a ganhar tempo de verdade?”

É uma pergunta justa. Falar que a IA “economiza horas” virou clichê. O que quase ninguém mostra é onde essas horas estão escondidas, e qual é o método para capturá-las sem abrir mão da segurança e do rigor que a advocacia exige.

Vou ao concreto. Trabalho com um princípio simples: a IA não devolve tempo quando você a usa de vez em quando para “escrever melhor”. Ela devolve tempo quando você instala um método nas tarefas que mais consomem a sua semana. São quatro passos.

Passo 1: Mapeie onde o seu tempo realmente vai

Antes de automatizar qualquer coisa, faça um diagnóstico honesto de uma semana de trabalho. Não a semana idealizada, a real. A maioria dos advogados se surpreende ao descobrir que o grosso das horas não está na argumentação jurídica, a parte que de fato exige o seu juízo. Está na leitura de processos volumosos, na comparação de versões de contrato, na elaboração de relatórios para clientes, na primeira versão de peças repetitivas e na triagem de documentos.

Essas tarefas têm uma característica em comum: envolvem ler, resumir, comparar ou redigir a partir de material que já existe. E é exatamente aí que a IA bem conduzida brilha. Some o tempo gasto com elas numa semana típica. Para a maioria dos profissionais com quem converso, o número fica entre 10 e 15 horas. É esse o seu território de ganho.

Passo 2: Comece pela tarefa de maior volume e menor risco

O erro de quem começa é querer automatizar logo a peça mais nobre e sensível. Faça o oposto. Escolha a tarefa que consome muitas horas mas tem baixo risco se algo sair imperfeito na primeira versão, porque você vai revisar de qualquer forma.

O resumo de processos é o ponto de partida quase perfeito. Um processo de 800 páginas que tomaria a sua tarde inteira vira um dossiê estruturado em minutos: partes, pedidos, decisões, prazos, linha do tempo. Você não está terceirizando o julgamento; está terceirizando a leitura mecânica para chegar mais rápido à parte que exige você. O mesmo vale para comparar duas versões de um contrato e receber, destacada, cada cláusula alterada. É uma tarefa em que o olho humano cansado falha, e a máquina não.

Passo 3: Padronize com contexto, não com sorte

Aqui está a diferença entre quem ganha 30 minutos e quem ganha 10 horas. Quem improvisa um prompt diferente a cada vez recebe qualidade instável e perde tempo corrigindo. Quem padroniza, ganha escala.

Para cada tarefa recorrente, construa uma instrução-base reutilizável: o papel que a IA deve assumir, o contexto do tipo de caso, o formato exato de saída que você quer e os pontos de atenção que ela não pode ignorar. Você escreve essa estrutura uma vez e a reaproveita toda semana, trocando apenas o material do caso. É a diferença entre delegar a um estagiário que você treinou e dar uma ordem solta para um desconhecido a cada tarefa.

E padronizar inclui a segurança. Sua instrução-base deve embutir a anonimização: nomes viram “Autor” e “Réu”, dados sensíveis saem antes de qualquer envio. Sigilo e LGPD não são etapa opcional do método, são parte dele.

Passo 4: Institua a regra de ouro: a IA redige, você valida

O ganho de tempo está na produção da primeira versão, nunca na dispensa da revisão. A responsabilidade pela peça é, foi e sempre será do advogado. Todo julgado citado se confere na fonte. Toda tese passa pelo seu filtro técnico.

Parece que isso anula o ganho, mas é o contrário. Revisar e ajustar um material já estruturado é muito mais rápido do que produzir do zero diante de uma página em branco. Você troca o trabalho braçal de partida pelo trabalho qualificado de refino, e é nesse refino que está o seu valor como profissional.

O fio condutor

Repare no que esses quatro passos têm em comum: nenhum deles é sobre dominar tecnologia. São sobre método. Diagnosticar, priorizar por risco, padronizar com contexto e validar. É um sistema que cabe em qualquer escritório, do advogado solo à banca com dezenas de profissionais.

As 10 horas por semana não estão num truque novo de ferramenta. Estão na decisão de parar de usar a IA por impulso e passar a usá-la por método. O advogado que faz essa transição não só trabalha menos horas, trabalha as horas certas, naquilo que só ele pode fazer.

No fim, a inteligência artificial não substitui o advogado. Ela devolve a ele o tempo que estava preso na tarefa mecânica, para que esse tempo possa ser investido onde o julgamento humano é insubstituível. Talvez seja esse o uso mais maduro da tecnologia na advocacia: não fazer mais coisas, e sim fazer as coisas certas, com mais cuidado e menos pressa.

 

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Sérgio Longo
Sérgio Longo
Advogado, Superintendente de Articulação na Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado, DPO e consultor jurídico com especialização na área de direito contratual, direito público e direito digital, focado principalmente em privacidade e proteção de dados pessoais e em regulação e responsabilidade civil da inteligência artificial. Tem diversos trabalhos falando sobre o futuro das novas tecnologias e seus impactos nas relações sociais e jurídicas. Atualmente, preside a comissão de direito digital do Instituto de Advogados de Pernambuco – IAP e de Direito Digital do Instituto Juristas, também integra a comissão de Startups da OAB-PE

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