O advogado solo que virou um escritório de cinco

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O advogado solo que virou um escritório de cinco | Juristas

Sérgio Longo 

Um advogado que trabalha sozinho me procurou há alguns meses com uma cena que eu não consigo esquecer. Ele tinha passado o fim de semana usando inteligência artificial e terminou o domingo com dez petições prontas para revisar. Uma semana inteira depois, ainda não tinha conseguido conferir todas. As peças estavam ali, esperando, e ele seguia atendendo cliente, ouvindo pedido de andamento processual, respondendo mensagem de quem viu o anúncio e nem caso tinha. A produção do escritório dele tinha ficado rápida. A vida dele, não.

Foi ali que ficou claro o que de fato havia acontecido. Ele não tinha um problema de produção. Ele tinha resolvido a produção e criado, sem perceber, um problema novo. Tudo que a máquina produzia desembocava na atenção dele, que é o único recurso do escritório que não escala. O gargalo não desapareceu. Ele saiu da redação e foi para a validação.

O gargalo mudou de lugar e quase ninguém percebeu

Essa é a parte que o discurso animado sobre produtividade não conta. Quando você acelera a geração de peças sem mexer em mais nada, você não ganha tempo, você acumula fila. Dez petições geradas em dois dias por uma ferramenta que não dorme viram dez peças que uma pessoa só precisa ler com atenção jurídica de verdade, conferindo precedente citado, valores, qualificação das partes e adequação da tese ao contrato juntado. Isso leva de vinte a quarenta minutos por peça quando é feito honestamente. Num escritório que produz oitenta peças por mês, são cerca de quarenta horas mensais só nesse item, e é justamente o item que ninguém contabiliza quando comemora a velocidade.

Some a isso o atendimento que chega sem filtro, o lead que nunca ia contratar e o cliente que liga pela terceira vez para saber do andamento, e você chega perto de cem horas por mês consumidas em tarefas que não exigem um advogado. Não é falta de organização. É desenho. Quem trabalha sozinho é, ao mesmo tempo, o estrategista, o redator, o revisor, o atendimento e o financeiro, e o dia tem o mesmo tamanho para todo mundo.

O menor é quem tem mais a ganhar, e isso é um recado para o grande também

Quando a inteligência artificial chega numa banca grande, ela acelera uma estrutura que já existe. Quando chega no advogado que trabalha sozinho, ela cria uma estrutura que nunca existiu. É uma diferença enorme. Pela primeira vez, o solo tem alguém que faz o primeiro rascunho, alguém que resume o processo de duzentas páginas, alguém que organiza a pesquisa. Não é equipe de carne e osso, e não precisa ser. É capacidade de produção que antes só quem tinha folha de pagamento conseguia ter.

O efeito disso no mercado é o que mais me interessa. O escritório pequeno bem estruturado passou a disputar trabalho que antes era inacessível para ele, e passou a disputar com agilidade que a estrutura grande raramente tem. Isso não diminui a banca grande, mas encerra a ideia de que o tamanho, sozinho, protege. Quem é grande e não incorporar método vai continuar sendo grande e vai começar a perder para quem é pequeno e organizado. Quem é pequeno tem, agora, uma janela que não vai ficar aberta para sempre.

Revisar a redação final não protege mais ninguém

Aqui está a parte que mais preocupa quem advoga sozinho, e com razão. Quase todo mundo que usa inteligência artificial me diz a mesma frase: “eu confiro a peça antes de protocolar”. Quando pergunto o que exatamente é conferido, quase sempre é a redação. E conferir a redação não alcança o que os tribunais passaram a punir neste ano.

Em março de 2026, a Sexta Turma do Tribunal Superior do Trabalho aplicou multa de um por cento sobre o valor da causa a um advogado e determinou o envio de ofícios à Ordem dos Advogados do Brasil e ao Ministério Público Federal por citações de jurisprudência inexistentes em contrarrazões. Em abril, a 13ª Vara do Trabalho de São Paulo condenou parte e advogada ao pagamento de doze mil reais, dez por cento do valor da causa, por doutrina e jurisprudência fictícias na inicial. A 2ª Vara Federal de Londrina chegou a duas multas de dez salários mínimos, uma por litigância de má-fé e outra por ato atentatório à dignidade da Justiça, com ofício à Seccional. O fundamento se repete em todas: usar ferramenta generativa sem revisão humana efetiva não afasta a responsabilidade do advogado, agrava.

Repare no detalhe que costuma passar batido. A pior parte do custo não é a multa. É o ofício à Seccional. Uma multa se paga. Uma representação disciplinar acompanha o nome por anos.

Há ainda uma obrigação que quase ninguém está cumprindo. A Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB, no item 4.4, orienta o advogado a comunicar previamente ao cliente a intenção de usar inteligência artificial na prestação do serviço. Pergunte-se, com honestidade, se esse aviso existe hoje no seu fluxo de contratação. Na esmagadora maioria dos escritórios que eu diagnostico, não existe.

O medo de cair na conta da litigância predatória

Existe um segundo receio, e ele é legítimo. Quem trabalha com volume no polo ativo olha para a Recomendação 159/2024 do Conselho Nacional de Justiça e para o Tema 1198 do Superior Tribunal de Justiça, que firmou que o juiz pode exigir emenda fundamentada da inicial diante de indício de litigância predatória, e conclui que produzir muito virou sinônimo de risco. Não é bem assim, mas o receio aponta para o lugar certo.

O que os núcleos de monitoramento procuram não é volume. É ação de massa com inicial parecida e sem prova documentada de que o cliente contratou, sabe da demanda e tem lastro. Volume com lastro registrado é operação. Volume sem lastro é exposição. A diferença entre as duas coisas não está na ferramenta que escreve a peça, está no processo que antecede a peça.

O que resolve não é velocidade, são portões

Foi exatamente isso que desenhamos no caso dele. Nada de automatizar tudo. O fluxo passou a ter pontos de controle definidos, e em três deles a palavra final continua sendo humana: o lead duvidoso, a decisão de contratar e a assinatura antes do protocolo. A verificação de identidade, de lastro e de duplicidade roda automática e sobe para decisão humana só quando algo destoa. A validação técnica da peça funciona igual: o que está em ordem é aprovado e lido em dois ou três minutos, e o que tem problema sobe sinalizado, com o ponto exato marcado. Ele deixou de reler tudo e passou a decidir sobre exceções.

Uma escolha desse desenho merece destaque porque contraria o instinto de automatizar. O protocolo continua manual, de propósito. Robô acessando sistema de tribunal com o seu certificado digital transfere para você um risco desproporcional ao tempo que economiza. Audiência, sustentação e decisão estratégica ficam fora de qualquer automação, por definição. Método bom não é o que automatiza mais. É o que sabe onde parar.

A conta de horas muda de patamar quando isso entra em pé. A validação que consumia cerca de quarenta horas por mês cai para algo perto de dez. O atendimento qualificado automaticamente e o aviso de andamento enviado sem intervenção eliminam a maior parte do volume que hoje interrompe o dia. Sobra de sessenta a setenta horas por mês, o equivalente a mais de um dia inteiro por semana devolvido à agenda.

O que ele fez com o tempo que recuperou

A parte mais interessante não é a economia de horas. É o que ela permitiu. Com lastro documentado em cada caso, portões funcionando e registro de que o cliente contratou e sabe da demanda, ele pôde absorver uma frente de volume que antes seria imprudente aceitar, não porque a máquina escrevia rápido, mas porque a operação passou a suportar escrutínio. Faturamento imprevisível, feito de casos avulsos, começou a virar receita recorrente. Ele não contratou ninguém para isso.

É esse o ponto que eu queria deixar com você. O objetivo de usar inteligência artificial trabalhando sozinho não é produzir mais peça por hora. É recomprar as horas que hoje somem no operacional e devolvê-las para as duas coisas que só você pode fazer, pensar a estratégia de cada caso e estar presente para o cliente. São essas duas que o cliente paga de verdade, e são justamente as que ficam espremidas quando a fila de validação toma conta da semana.

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Sérgio Longo
Sérgio Longo
Advogado, Superintendente de Articulação na Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado, DPO e consultor jurídico com especialização na área de direito contratual, direito público e direito digital, focado principalmente em privacidade e proteção de dados pessoais e em regulação e responsabilidade civil da inteligência artificial. Tem diversos trabalhos falando sobre o futuro das novas tecnologias e seus impactos nas relações sociais e jurídicas. Atualmente, preside a comissão de direito digital do Instituto de Advogados de Pernambuco – IAP e de Direito Digital do Instituto Juristas, também integra a comissão de Startups da OAB-PE

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