
William Douglas
Circulou recentemente nas redes sociais um comentário inusitado — e, confesso, até cômico — feito por uma cliente insatisfeita com um restaurante. Aproveito esse episódio não para discutir gastronomia ou atendimento, mas para fazer algumas observações culturais e morais que ele revela com surpreendente clareza.
A cliente publicou a seguinte crítica:
“Cheguei 10 minutos antes do fechamento e a garçonete me olhou com raiva. Querida, se você quer fechar mais cedo, então mude o horário.
O cardápio tinha opções demais, e isso me deixou estressada. Eles serviram chips e salsa antes da refeição e, quando meu prato chegou, eu já nem estava mais com fome.
A garçonete dizia coisas como ‘sem problema’ em vez de ‘de nada’. Isso é o básico da educação.
Eles devem usar copos quentes, porque o gelo da minha bebida derreteu rápido demais e aguou tudo.
As porções eram grandes demais, então pedi uma embalagem para viagem. Deixei a sacola no banco de trás do carro por acidente e agora meu carro está com cheiro de comida.
Provavelmente não voltarei, a menos que consertem a atitude e o cardápio.”
A resposta do dono do estabelecimento foi a seguinte:
“Deixa eu ver se entendi direito, você está com raiva porque…
- Você chegou bem na hora de fechar e ficou chateada porque nossa equipe parecia estar fechando.
- Você comeu tanta comida grátis que não estava mais com fome.
- Gelo derrete.
- Nós lhe servimos comida demais.
- Nós não fomos pessoalmente tirar a marmita do banco de trás do seu carro.
Lamentamos que as leis do tempo, da temperatura e da responsabilidade pessoal não tenham jogado a seu favor naquela noite.
Nossos horários, o gelo, as maneiras e o cardápio permanecerão inalterados.”
O episódio é pequeno, quase doméstico, mas podemos dele extrair lições e significado. Ele condensa, em poucas linhas, uma mudança cultural profunda: a progressiva substituição da responsabilidade individual por uma lógica de queixas, culpas externas e expectativas irreais em relação aos outros. Há também uma redução da empatia com o próximo: a cliente não se preocupou, por exemplo, com os funcionários terem direito ao descanso.
Nada, na narrativa da cliente, é exatamente responsabilidade dela. Não o horário em que chegou. Não o fato de ter comido antes do prato principal. Não o gelo que derrete — fenômeno físico conhecido desde, pelo menos, a Antiguidade. Não o tamanho da porção. Não a sacola esquecida no carro. Em todos os pontos, a falha é sempre externa: da garçonete, do cardápio, do restaurante, do copo, do gelo, do mundo. A única hipótese descartada é a mais simples: escolhas pessoais geram consequências pessoais.
Esse padrão não é apenas psicológico; é ideológico. Um dos erros recorrentes em certas vertentes do progressismo contemporâneo tem sido a diluição da responsabilidade individual em estruturas abstratas. Não é preocupação minha se o leitor é progressista ou conservador, mas sim se está atento ao lugar da responsabilidade pessoal. Essa crítica não se dirige à preocupação com justiça social, que é legítima e meritória, mas ao risco de substituí-la por uma cultura de desculpabilização permanente.
Pessoas são ensinadas, por determinadas ideologias, por algumas correntes pedagógicas e por abordagens específicas da psicologia, a se perceberem menos como agentes de sua própria história — e da história da sociedade que integram — e mais como produtos de sistemas. Quando algo dá errado, a pergunta não é “o que eu fiz?”, mas “quem falhou comigo?”. O erro deixa de ser um convite à correção e passa a ser um argumento acusatório.
O mesmo raciocínio aparece em escala maior quando se afirma que indivíduos são culpados não por seus atos, mas por características imutáveis ou por processos históricos nos quais jamais tiveram participação direta. Culpa-se o presente pelo passado; absolve-se o presente de si mesmo. O resultado é um curioso desequilíbrio moral: há culpas herdadas demais e responsabilidades assumidas de menos.
O conservadorismo — e aqui falo mais como atitude moral — parte de um princípio menos confortável, porém mais produtivo e pragmático: cada indivíduo é responsável pela própria vida. Isso não significa negar injustiças reais, desigualdades concretas ou deveres de solidariedade. Significa reconhecer que nenhuma ajuda genuína aos outros é possível sem responsabilidade pessoal prévia. Só quem governa a si mesmo pode estender a mão a alguém.
Resolver os próprios problemas não é egoísmo; é maturidade. É precisamente essa maturidade que permite o verdadeiro altruísmo. Quem não assume seus próprios descuidos acaba sempre exigindo que alguém — o Estado, a empresa, a sociedade, o passado, a “estrutura” — os assuma por ele. E isso não gera justiça; gera dependência, ressentimento e infantilização.
Obviamente, seja pela elogiável preocupação do progressismo com as minorias, seja pela ideia de um capitalismo mais humano — entre eles o de stakeholders, o inclusivo e o consciente —, ou até por razões filosóficas ou religiosas, espera-se que aqueles que obtêm sucesso profissional e financeiro tenham preocupação com os mais fracos, pobres e necessitados.
Feita essa anotação, voltemos ao episódio mencionado: a cliente do restaurante não é um caso isolado; é um sintoma. Sintoma de uma cultura que transformou desconforto em agressão, frustração em injustiça e consequência em ofensa. Uma cultura em que esperar autocontrole soa opressivo e exigir responsabilidade parece falta de empatia.
Parece pertinente lembrar uma frase: “As únicas pessoas que têm direitos sem responsabilidades são os bebês.” Ela aparece em textos e palestras de Thomas Sowell, sempre dentro da crítica à expansão contemporânea do discurso de direitos desconectado de deveres, maturidade e custo social. Sowell usa essa ideia para sustentar três pontos centrais: direitos implicam custos, pagos por alguém; adultos que exigem direitos sem deveres estão, na prática, transferindo responsabilidades a terceiros; e a única situação em que isso é moralmente aceitável é a infância — por incapacidade objetiva, não por escolha.
Conservadorismo sem responsabilidade social é cruel, e progressismo sem responsabilidade individual é propaganda enganosa. Progresso não é a eliminação da responsabilidade individual em nome de culpas difusas. Progresso é formar pessoas capazes de responder por si mesmas, dependendo menos do Estado. Se tudo correr bem, conservadores e progressistas terão a capacidade de amar, ajudar e sustentar os mais necessitados utilizando suas próprias capacidades.
O dono do restaurante poderia ter sido um pouco mais gentil — ou não —, mas sua resposta simples e incisiva acabou lembrando algo essencial: o tempo passa, o gelo derrete — e a vida exige que as pessoas respeitem horários, saibam administrar o próprio apetite e carreguem aquilo que é seu. A responsabilidade pessoal não é falta de empatia, mas condição mínima para que a vida funcione e, se houver empatia, para que ela seja eficaz. Afinal, anêmicos não doam sangue. Cada um precisa, antes de tudo, carregar aquilo que é seu.
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