
O avanço da inteligência artificial (IA) tem provocado preocupação crescente sobre seus efeitos no mercado de trabalho. Pesquisas recentes realizadas em diferentes países indicam que parte significativa da população espera que a tecnologia reduza o número de empregos nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, estudos sobre o mercado norte-americano apontam que os efeitos ainda não se traduzem em uma substituição generalizada de trabalhadores, mas podem estar alterando principalmente as oportunidades destinadas a profissionais em início de carreira.
Levantamento do Pew Research Center, realizado com 42.151 pessoas em 36 países entre fevereiro e maio de 2026, mostra que, em 34 dos 37 países analisados, os entrevistados consideram mais provável que a inteligência artificial provoque redução do número de empregos do que criação de novas vagas nos próximos 20 anos. A pesquisa incluiu o Brasil e avaliou percepções da população adulta sobre diferentes aspectos relacionados à tecnologia.
Entre os países de alta renda, a preocupação é mais acentuada. A mediana de 55% dos entrevistados nesses países considera que a IA deverá resultar em menos empregos nas próximas duas décadas, enquanto a mediana entre países de renda média é de 36%. O estudo também identificou preocupação com a possibilidade de a tecnologia ampliar a desigualdade econômica.
Apesar das apreensões, os resultados não indicam uma percepção exclusivamente negativa sobre a inteligência artificial. O levantamento mostra que muitas pessoas ainda avaliam seus possíveis benefícios e riscos de forma simultânea, enquanto uma parcela relevante afirma não saber exatamente quais serão seus efeitos sobre o mercado de trabalho.
Impacto maior entre trabalhadores jovens
Nos Estados Unidos, uma análise atualizada do Stanford Digital Economy Lab, baseada em dados de folha de pagamento da ADP, identificou uma diferença significativa na trajetória profissional de trabalhadores jovens em ocupações com maior exposição à inteligência artificial.
Segundo o estudo, atualizado em agosto de 2026, o emprego entre trabalhadores de 22 a 25 anos em ocupações altamente expostas à IA estava aproximadamente 19% abaixo do nível que teria atingido caso acompanhasse a evolução do emprego de jovens em ocupações menos expostas à tecnologia. A comparação considera dados até junho de 2026.
Os pesquisadores, contudo, ressaltam que o resultado não significa que 19% desses trabalhadores tenham perdido seus empregos em razão da inteligência artificial. Trata-se de uma medida relativa de diferença entre grupos. Além disso, o estudo não estabelece relação causal entre a utilização da IA e a redução observada no emprego.
Os dados indicam ainda que o fenômeno parece estar relacionado principalmente à redução das contratações de profissionais jovens, e não a um aumento generalizado das demissões. O próprio Stanford Digital Economy Lab afirma não ter identificado, até o momento, evidências de uma substituição de trabalhadores provocada pela IA em escala ampla na economia norte-americana.
A pesquisa também encontrou diferenças conforme a forma de utilização da inteligência artificial. Nas ocupações em que a tecnologia apresenta maior potencial de automação de tarefas, os resultados para trabalhadores jovens foram mais negativos. Já em atividades nas quais a IA atua de maneira complementar ao trabalho humano, o emprego permaneceu estável ou apresentou crescimento em determinados grupos.
IA pode alterar a distribuição das tarefas
Outro estudo conduzido pelo Stanford SALT Lab analisou a utilização de agentes de inteligência artificial em diferentes atividades profissionais. A pesquisa ouviu 1.500 trabalhadores de 104 ocupações e avaliou como a tecnologia pode modificar tarefas desempenhadas por cerca de 70 milhões de trabalhadores nos Estados Unidos.
Os resultados apontam que a discussão sobre inteligência artificial no trabalho não se limita à substituição integral de profissões. Em diversas atividades, os trabalhadores demonstram preferência pela colaboração entre pessoas e sistemas de IA, preservando a participação humana em determinadas etapas do processo.
O estudo também indica uma possível mudança na importância relativa de diferentes competências. Atividades relacionadas ao processamento de informações podem ser mais suscetíveis à automação, enquanto habilidades ligadas à coordenação, interação e organização tendem a permanecer relevantes no ambiente de trabalho.
Uso de IA sem conhecimento das empresas
A expansão da inteligência artificial também trouxe desafios relacionados à governança corporativa, segurança da informação e proteção de dados no ambiente profissional.
Pesquisa da Deloitte UK, realizada com 25 mil trabalhadores entre maio e junho de 2026, identificou que 63% dos entrevistados afirmaram utilizar inteligência artificial generativa no trabalho. Entre os usuários, 31% disseram utilizar ferramentas sem o conhecimento do empregador, prática conhecida como “shadow AI”.
O levantamento também apontou que cerca de metade dos usuários não recebeu treinamento formal sobre como utilizar a tecnologia de maneira segura e eficaz. O uso de ferramentas externas sem autorização pode criar riscos relacionados ao tratamento de informações corporativas, à segurança dos dados e ao cumprimento das políticas internas das empresas.
Entre os usos mais frequentes estão a busca por informações, elaboração de e-mails e produção de resumos. Os dados mostram que a adoção da tecnologia já faz parte da rotina de parcela significativa dos trabalhadores, enquanto mecanismos de treinamento e governança ainda acompanham esse processo de forma desigual.
Transformações no mercado de trabalho
Os estudos analisados apontam para um cenário em transformação, no qual os efeitos da inteligência artificial podem aparecer não apenas por meio de demissões, mas também pela alteração das funções, redução de determinadas contratações e redistribuição de tarefas entre trabalhadores e sistemas automatizados.
No caso dos profissionais mais jovens, os dados do Stanford Digital Economy Lab indicam uma diferença de emprego em ocupações mais expostas à IA, embora os próprios pesquisadores ressaltem que os resultados são descritivos e não permitem atribuir diretamente à tecnologia toda a diferença observada.
O avanço da IA também amplia questões jurídicas relacionadas às relações de trabalho, à proteção de dados, à responsabilidade das empresas, à qualificação profissional e aos limites para utilização de ferramentas automatizadas no ambiente corporativo.
(Com informações do Tilt UOL por Gabriel Francisco Ribeiro)
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