A reprogramação cibercultural do imaginário social (Magossi, 2023; 2026) constitui marcador histórico de atualização de problemas centrais da teoria social, inscrita na cibercultura enquanto categoria de época e atravessada pela lógica da dromocracia cibercultural (Trivinho, 2007).
O fenômeno consiste na reconfiguração das significações imaginárias sociais (Castoriadis, 1986) — a saber, matriz instituinte da qual originam as normas, os valores e os sentidos pelos quais uma sociedade se reconhece e se reproduz no tempo histórico — promovida por oligopólios ciberculturais — isto é, grandes estruturas de poder fincadas nas tecnologias do virtual, de elevado faturamento e participação decisiva na indústria tecnológica global (Morozov, 2016) — neste primeiro quarto de século XXI.
Sob o princípio ordenador do lucro, sistemas infotécnicos automatizados — algoritmos, dados, redes, interfaces, mecanismos de recomendação e formas de circulação de imagens, vídeos, textos e demais conteúdos digitais (tais como gifs, memes e emojis) — organizam o campo do visível na rede, ao passo que, no plano invisível, racionalidades ideológicas bem delineadas estruturam essas mesmas operações a serviço das corporações que as controlam.
O curto-circuito na capacidade imaginativa do tecido social ocorre pela reiteração automatizada desses padrões algorítmicos de circulação enquanto a engrenagem econômica, técnica e simbólica que sustenta a arquitetura do fenômeno, em ambas as configurações (visível e invisível), permanece deliberadamente obliterada da esfera pública.
Consciente da complexidade do tema, torna-se urgente fixar os quatro níveis ontológicos da arquitetura do fenômeno em questão:
(1) Cibercultura/ Dromocracia Cibercultural (categoria de época): No primeiro nível, situa-se a época, a saber, a cibercultura, categoria que recobre a fase mais avançada do capitalismo contemporâneo (Trivinho, 2007). A dromocracia cibercultural (Trivinho, 2007), por sua vez, nomeia o princípio de aceleração contínua que a sustenta, termo que deriva, em sua raiz etimológica, do grego dromos, corrida, e kratos, poder. Nessa sistemática, cibercultura e dromocracia cibercultural designam, portanto, o mesmo primeiro nível ontológico, sob duas ênfases complementares, uma voltada à configuração geral do horizonte histórico, outra ao princípio de aceleração que o funda.
(2) Reprogramação cibercultural ou Reprogramação do imaginário social (fenômeno da época): No segundo nível, situa-se o fenômeno marcador de ineditismo histórico, a reprogramação cibercultural, ou reprogramação do imaginário social, subordinado à lógica da dromocracia cibercultural e da cibercultura enquanto categoria de época (Trivinho, 2007), inextricável dos avanços tecnológicos da sociedade mediática avançada (Trivinho, 2007). Trata-se de um processo psicossocial e tecnomediático, online e off-line, em tempo real ou não, individual e coletivo, de alteração dramática da identidade, da mentalidade, do comportamento, do afeto e do valor social, fabricados por oligopólios ciberculturais de acordo com seus interesses mercantis (Magossi, 2023).
(3) Reprogramação algorítmica e reprogramação ideológica (estrutura interna do fenômeno da época): No terceiro nível, situa-se a arquitetura interna do fenômeno investigado, suas duas vertentes macroestruturais (articuladas embora conceitualmente distintas), a saber, (i) a reprogramação algorítmica, que reorganiza, mediante sistemas automatizados de captura (Zuboff, 2021) e recomendação (Morozov, 2016), as condições técnicas segundo as quais se constitui o macrocorredor comunicacional (Trivinho, 2010), e (ii) a reprogramação ideológica, que reorganiza os critérios simbólicos de legitimidade, valor e desejo (Castoriadis, 1986) segundo os quais esse mesmo macrocorredor é interpretado, hierarquizado e valorado.
(4) Servidão algorítimica e performatividade espectral (efeitos do fenômeno da época): No quarto nível, situam-se os efeitos subjetivos que essas duas vertentes macroestruturais produzem sobre o sujeito, seus correlatos microestruturais (articulados embora conceitualmente distintos), a saber, (i) a servidão algorítmica, que impõe, mediante arquiteturas de recompensa intermitente (Brignull, 2010), a submissão voluntária da conduta e da escolha do sujeito a parâmetros técnicos previamente calculados pelo sistema, parâmetros que o indivíduo desconhece em grau desigual, segundo a pirâmide social de domínio cibercultural (Trivinho, 2007, p. 199), conforme a posição que nela ocupa, e (ii) a performatividade espectral, que impõe, mediante a substituição do sujeito vivido por seu espectro mediático (Trivinho, 2007, p. 9), a modulação simbólica da identidade e do reconhecimento que o próprio sujeito performa como se fosse a si mesmo.
Os quatro níveis descrevem, portanto, um único movimento que desliza da época ao fenômeno, do fenômeno à sua estrutura macro, e da estrutura macro aos seus efeitos micro sobre o sujeito, cada vertente macroestrutural correspondendo, ponto a ponto, ao seu efeito microestrutural correlato.

Figura 1: Arquitetura ontológica do fenômeno investigado
Fonte: Profa. Dra. Priscila Magossi com auxílio de inteligência artificial generativa (2026)
Referências:
BRIGNULL, Harry. Dark Patterns: User Interfaces Designed to Trick People. 2010. Disponível em: https://www.darkpatterns.org/types. Acesso em: 27 ago. 2026.
CASTORIADIS, Castoriadis. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
MAGOSSI, Priscila Gonçalves. Submundo da cibercultura: violência contra a mulher e reprogramação do imaginário social. Relatório de Pesquisa de Pós-Doutorado em Comunicação e Cultura Midiática — PPGCOM/Universidade Paulista, sob supervisão de Malena Segura Contrera. São Paulo, 2023. Disponível em: https://www.academia.edu/115746356/Submundo_da_cibercultura_viol%C3%AAncia_contra_a_mulher_e_reprograma%C3%A7%C3%A3o_do_imagin%C3%A1rio_social. Acesso em: 27 ago. 2026.
MOROZOV, Evgeny. Tech titans are busy privatising our data. The Guardian, 2016. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/apr/24/the-new-feudalism-silicon-valley-overlords-advertising-necessary-evil. Acesso em: 27 ago. 2026.
TRIVINHO, Eugênio. A dromocracia cibercultural: lógica da vida humana na civilização mediática avançada. São Paulo: Paulus, 2007.
TRIVINHO, Eugênio. Espaço público, visibilidade mediática e cibercultura: obliteração estrutural da esfera pública no cyberspace. Revista FAMECOS, Porto Alegre, v. 17, n. 3, p. 266-277, set./dez. 2010. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/revistafamecos/article/view/8194. Acesso em: 27 ago. 2026.
ZUBOFF, Shoshana. A Era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira de poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.
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