Descontrole das Finanças

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O Brasil contemporâneo vive um momento de tempestade perfeita nas finanças públicas, mas também em relação ao caixa das empresas privadas, provocando um verdadeiro colapso de credibilidade e diminuição do interesse dos investidores estrangeiros. Há uma montanha de precatórios a pagar, além das dívidas da União, dos Estados e dos Municípios, agravadas pela pandemia e pelo forte impacto das medidas internas e externas para alcançar o agronegócio.

A situação é deveras preocupante, pois o governo tenta aumentar a arrecadação para conseguir fazer caixa e manter o equilíbrio do orçamento, ao passo que há um número avassalador de empresas privadas com restrição e sem acesso ao crédito, sem falar na Selic de 15% ao ano, uma das taxas mais escorchantes do planeta.

Normalmente, em situações dessa natureza, existe um contraste e um forte engessamento da atividade econômica, com reflexos na seara empresarial. Crescem os números de pedidos de recuperação judicial convolados em falência e, mais a mais, as instituições financeiras, fundos de investimento, startups e fintechs se encontram no olho do furacão, pois há perda de confiança e, consequentemente, de credibilidade.

Medidas de impacto e de choque precisam ser tomadas urgentemente. A primeira é a reforma do Estado brasileiro, com redução do tamanho da federação e da representação política. Não faz sentido, em um tempo de guerra orçamentária, destinar cinco bilhões para as eleições de 2026 nas mãos dos fundos partidários, e menos ainda aumentar bolsas e projetos sociais em plena seca da torneira das contas públicas. O espaço recomenda que tenhamos uma visão mais aprofundada da legislação de recuperação e de sua reforma pelo diploma 14.112/20. Contudo, não há recursos financeiros que possam arregimentar a crise empresarial de forma permanente e suficiente, tanto é assim que as três maiores companhias aéreas não se socorreram da lei local, mas sim da legislação americana.

Nosso empreendedorismo tenta, a todo custo, se livrar das amarras, mas há insuficiência de caixa e de liquidez. As empresas listadas em bolsa pouco ou nada remuneram os acionistas minoritários, ainda mais quando o governo tributa dividendos e o cidadão se torna o sócio número um do Estado, que por todos os meios, e movido por sanha arrecadatória, busca desprivilegiar a classe média com o falacioso discurso do “andar de cima”, quando todos sabemos que os bilionários não pagam e jamais pagarão as contas, diante do planejamento e da alocação de recursos no exterior.

O descontrole das finanças públicas e privadas é um viés atípico que exige bastante atenção da economia, uma vez que nada sobra para investimentos ou mesmo para parcerias público-privadas (PPP), o que implica a revisão das concessões e impacta uma infraestrutura já caótica.

Temos um transporte ferroviário embrionário, enquanto na China, na última década, milhares de novos pontos ferroviários foram inaugurados. Aqui no Brasil, continuamos na bitola estreita e dependentes de rodovias com pedágios e limitações de velocidade. Fabricam-se carros para andar a 200 km/h, porém nossas rodovias apenas comportam 120 km/h, e, mesmo assim, há trechos com redução de velocidade devido à interferência de perímetros urbanos.

Qualquer que seja a solução a ser adotada, estamos às vésperas das eleições para o Legislativo e o Executivo no ano de 2026. O cardápio presidencial será a retomada do crescimento econômico e o fim das despesas públicas, bem como o desaparecimento das empresas privadas, as quais solapam sem conseguir o encerramento regular.

Diante do quadro esboçado, o primeiro passo seria afastar o Fisco do superprivilégio da recuperação judicial e colocar as instituições financeiras sempre na lista de quirografários, pois as exceções às regras, tais como alienação fiduciária e garantia hipotecária, ao lado dos recebíveis, tudo isso mina a capacidade de sair do estado de insolvência.

Uma visão de estadista é o mínimo que se espera para resolver os problemas das finanças públicas e também das empresas privadas, as quais hoje flertam com a recuperação judicial e, num futuro não muito distante, podem ser inseridas no topo da insolvência, com rombos enormes e prejuízos incontáveis para fornecedores, e todos os demais credores, independentemente das classes. Para tanto, é fundamental dissipar a fraude contábil e estancar recuperações visionárias, sem estudo da viabilidade do próprio negócio.

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Carlos Henrique Abrão
Carlos Henrique Abrão
Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Doutor pela USP com especialização em Paris, Professor pesquisador convidado da Universidade de Heidelberg, autor de obras e artigos.

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