Diplomacia em Frangalhos

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Diplomacia em Frangalhos | JuristasCarlos Henrique Abrão

O cenário mundial demonstra que a diplomacia está em frangalhos e o Direito Internacional Público reduzido a cinzas. Explico: não há mais multilateralismo, e os órgãos internacionais de representação nada mais fazem senão promover reuniões desprovidas de qualquer importância ou impacto no ecossistema das crises e das guerras. A recente declaração do presidente argentino em solo brasileiro demonstra essa realidade, e o maior símbolo dessa inversão de valores é, sem sombra de dúvida, o presidente norteamericano, que resolveu reduzir os investimentos em entidades internacionais e gastar bilhões na guerra para dominar o planeta.

Entretanto, os próprios fenômenos da natureza começam a revelar a inviabilidade da guerra. A Europa enfrenta incêndios de grandes proporções, enquanto diversas regiões convivem com chuvas intensas e milhares de desabrigados. Naturalmente, a diplomacia não tem conseguido cumprir a finalidade a que se propõe, e quem sofre os percalços dessa realidade é a população indefesa e a sociedade, que persiste na busca da paz e de melhores condições de vida. Todavia, já não há mais o propósito de equilibrar forças, ao passo que os conflitos surgem em todas as regiões, e aquele do Oriente Médio apenas se intensifica, sem trégua ou acordo de cessar-fogo.

A polarização entre esquerda e direita, que, no fundo, representa a banalização da política, constitui o maior entrave à superação dos problemas e à solução dos impasses. Muitos governos apostam na demonstração de força para romper tradições, mas não conseguem cumprir seus programas de campanha e acabam transferindo o peso da responsabilidade para as nações mais desenvolvidas.

As reuniões de cúpula das grandes nações também desatendem à finalidade para a qual foram criadas, e poucas decisões concretas delas resultam. O que marca o momento é a inteligência artificial e os bilhões, quando não trilhões, investidos em empresas de tecnologia, com o propósito de conferir maior eficiência aos serviços, reduzir paulatinamente a mão de obra e diminuir o custo do produto final.

Consequentemente, não há, no cenário atual, qualquer elemento capaz de iluminar um caminho para a paz universal, porquanto a política parece ser exercida apenas às vésperas das eleições, e os grandes líderes já pertencem ao passado. Hoje, tudo se resume a discursos, enquanto o Direito Internacional Público se transforma em uma página virada da história. Já não existe o propósito de buscar entendimento pelo diálogo, mas sim pela força e pelo domínio bélico de poucas nações que movimentam bilhões com armamentos e treinamentos especializados.

Nesse contexto, tudo isso representa um declínio da sociedade e um retrocesso nas propostas voltadas à garantia de condições dignas de vida. O que prevalece, entretanto, não é o direito, mas a força de quem pretende impor sua vontade e ditar ordens em todas as direções; caso contrário, a resposta é a guerra.

Chama atenção, sobretudo, a falta de integração entre as nações desenvolvidas para a construção de um arranjo verdadeiramente plural, no qual as circunstâncias sejam debatidas e os problemas efetivamente solucionados. Não se percebe, contudo, vontade concreta de reduzir os conflitos ou eliminar suas causas mais profundas.

O ditado de que “quanto pior, melhor” parece beneficiar apenas poucos, enquanto a grande maioria, desprovida de meios, suporta a pesada conta da inabilidade política e da ausência de diálogo na solução dos graves conflitos sociais.

O respeito à agenda internacional praticamente desapareceu. O direito, como instrumento de pacificação dos conflitos, perdeu espaço para a lógica da força e da busca pelo domínio global, com investimentos que poderiam ser destinados à redução da assimetria social e da miséria em diversas partes do mundo.

E, para completar esse quadro, as eleições em diferentes partes do planeta parecem, muitas vezes, assumir caráter meramente simbólico, sem o condão de refletir melhorias concretas ou contribuir para a redução das desigualdades sociais. O Brasil, em particular, vive uma silenciosa crise institucional, uma grave deterioração das finanças públicas e um endividamento sem precedentes das famílias. Somente com pautas voltadas à redução dessas anomalias será possível construir melhores condições para alcançar os verdadeiros esforços idealizados a partir da Constituição Federal.

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Carlos Henrique Abrão
Carlos Henrique Abrão
Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Doutor pela USP com especialização em Paris, Professor pesquisador convidado da Universidade de Heidelberg, autor de obras e artigos.

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