Liderança se constrói com escuta, respeito e humanidade na advocacia

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Liderança se constrói com escuta, respeito e humanidade na advocacia | Juristas

Rose Morais

Entrevista – Revista Juristas

Linha fina: Conhecida pela postura firme e ao mesmo tempo acolhedora, Rose Morais inspira pessoas dentro e fora da advocacia,

 Uma mulher cuja história é marcada pela dedicação ao Direito, à justiça e ao fortalecimento da advocacia. Ao longo de sua caminhada profissional, Rose Morais construiu uma carreira pautada pelo compromisso com a ética, pela defesa das prerrogativas da advocacia e pela atuação em prol da sociedade.

Como secretária-geral da OAB, ela ocupa um papel de grande relevância institucional, participando ativamente das decisões, projetos e ações que impactam diretamente a classe jurídica e a população. Sua trajetória inspira pela competência, liderança e pela luta constante em favor da valorização da advocacia, especialmente da participação feminina nos espaços de poder e decisão.

Conhecida pela postura firme e ao mesmo tempo acolhedora, ela inspira pessoas dentro e fora da advocacia, mostrando que liderança também se constrói com escuta, respeito e humanidade. Nesta entrevista exclusiva à REVISTA JURISTAS ela fala de sua trajetória e sobre as expectativas para o futuro da advocacia no Brasil.

REVISTA JURISTAS – Como a senhora resumiria sua trajetória profissional até chegar à Secretaria-Geral do Conselho Federal da OAB?

ROSE MORAIS – Minha trajetória foi construída simultaneamente na advocacia trabalhista e na atuação institucional. Sempre exerci a advocacia de forma muito próxima da realidade forense, acompanhando audiências, tribunais e as transformações concretas das relações de trabalho. Durante esse percurso, tive a oportunidade de atuar na OAB de Sergipe em diferentes funções, além de experiências em entidades ligadas à advocacia trabalhista, como a Associação Brasileira da Advocacia Trabalhista e a Associação Sergipana de Advogados Trabalhistas. A atuação no Sistema OAB, tanto em Sergipe quanto no Conselho Federal, ampliou ainda mais minha percepção sobre os desafios estruturais da advocacia brasileira e sobre a importância de uma Ordem presente, técnica e institucionalmente forte. Chegar à Secretaria-Geral do Conselho Federal representa a continuidade dessa caminhada. Não vejo a advocacia apenas como atividade técnica. Vejo como profissão diretamente vinculada à defesa da democracia, da Constituição e do acesso à Justiça.

REVISTA JURISTAS –  Quais experiências na advocacia sergipana foram mais determinantes para a construção da sua identidade profissional?

 ROSE MORAIS – Sergipe me deu algo muito importante: proximidade com a advocacia real. Em estados menores, o advogado vivencia de forma muito direta as consequências sociais das decisões judiciais e as dificuldades concretas enfrentadas pela profissão. Isso desenvolve uma percepção muito prática sobre o impacto do Direito na vida das pessoas.

Olho: A advocacia sergipana sempre teve forte tradição institucional, e isso influenciou diretamente minha aproximação com a OAB desde muito cedo.

A advocacia sergipana sempre teve forte tradição institucional, e isso influenciou diretamente minha aproximação com a OAB desde muito cedo. Aprendi rapidamente que a advocacia não se resume ao exercício individual da profissão. Ela também exige diálogo institucional, compromisso coletivo e participação ativa na defesa das garantias da cidadania.

REVISTA JURISTAS – A senhora é reconhecida por sua atuação na advocacia trabalhista. O que a levou a escolher o Direito do Trabalho como uma das áreas centrais da sua carreira?

 ROSE MORAIS – O Direito do Trabalho sempre me chamou atenção porque ele dialoga diretamente com dignidade humana, organização social e desenvolvimento econômico. As relações de trabalho revelam muitas das tensões estruturais da sociedade contemporânea. Discutimos proteção social, produtividade, tecnologia, desigualdade, saúde mental e reorganização econômica dentro do mesmo ambiente jurídico. Sempre tive compreensão muito firme de que o Direito do Trabalho exerce função civilizatória importante. E isso não significa resistência à modernização econômica. Pelo contrário. Relações de trabalho equilibradas produzem estabilidade institucional e segurança jurídica. Além disso, a advocacia trabalhista é extremamente dinâmica. É uma advocacia de presença cotidiana, de audiências, negociação e construção de soluções concretas. Essa dimensão prática sempre me atraiu muito.

REVISTA JURISTAS – Como a experiência no contencioso e na consultoria trabalhista contribui para sua visão institucional sobre a advocacia brasileira?

 ROSE MORAIS – Ela contribui porque permite compreender o sistema de Justiça em todas as suas dimensões. No contencioso, percebemos os efeitos concretos da morosidade, da insegurança jurídica e das dificuldades operacionais enfrentadas pela advocacia. Na consultoria, observamos como previsibilidade institucional e estabilidade regulatória são fundamentais para relações produtivas saudáveis. A advocacia trabalhista passou a lidar, nos últimos anos, com transformações extremamente sofisticadas: plataformização, inteligência artificial, novas formas de subordinação, monitoramento digital e reorganização produtiva. Isso exige da advocacia uma leitura que não seja apenas jurídica, mas também econômica, tecnológica e social. Essa vivência também influencia diretamente minha atuação no Conselho Federal da OAB, especialmente nos debates relacionados à modernização do sistema de Justiça e às transformações do mercado de trabalho.

REVISTA JURISTAS – Quais são hoje os principais desafios enfrentados pela advocacia trabalhista no Brasil?

 ROSE MORAIS – O maior desafio hoje é interpretar relações de trabalho cada vez mais complexas dentro de estruturas normativas concebidas para outra realidade econômica. Vivemos um cenário de intensa reorganização produtiva, marcado por automação, trabalho em plataformas digitais, inteligência artificial e modelos contratuais híbridos. Isso produz tensionamentos permanentes entre liberdade econômica, autonomia contratual e proteção social. A advocacia trabalhista passou a lidar diariamente com questões como subordinação algorítmica, pejotização sofisticada, proteção de dados nas relações de trabalho e impactos tecnológicos sobre vínculos laborais.

Olho:  A advocacia trabalhista passou a lidar diariamente com questões como subordinação algorítmica

Ao mesmo tempo, existe um desafio institucional importante: preservar a capacidade da Justiça do Trabalho de responder a essas transformações sem descaracterizar a centralidade constitucional dos direitos sociais. A OAB acompanha esse cenário com muita atenção, especialmente nos debates relacionados às novas formas de contratação e aos impactos tecnológicos sobre proteção social e segurança jurídica.

REVISTA JURISTAS – A Justiça do Trabalho tem passado por intensos debates nos últimos anos. Como a senhora avalia o papel constitucional da Justiça do Trabalho na proteção da cidadania e das relações produtivas?

 ROSE MORAIS – A Justiça do Trabalho exerce função estratégica dentro do modelo constitucional brasileiro. Às vezes se tenta construir uma oposição artificial entre proteção social e desenvolvimento econômico. Mas relações de trabalho equilibradas produzem estabilidade institucional, segurança jurídica e ambiente econômico saudável. A Justiça do Trabalho não atua apenas na solução de conflitos individuais. Ela participa da pacificação social e da estabilização das relações produtivas. Sempre tive defesa muito firme da Justiça do Trabalho porque ela concretiza direitos fundamentais previstos na Constituição. E isso não é incompatível com modernização econômica. Pelo contrário. A OAB tem defendido institucionalmente a preservação da competência constitucional da Justiça do Trabalho justamente por compreender sua importância para proteção da cidadania, das relações produtivas e da própria estabilidade democrática.

REVISTA JURISTAS  – A senhora integrou a lista tríplice do TST para vaga destinada à advocacia. Qual foi o significado pessoal e institucional desse momento?

 ROSE MORAIS – Foi um momento extremamente significativo. Pessoalmente, representou o reconhecimento de uma trajetória construída na advocacia trabalhista e na atuação institucional. Mas também teve dimensão coletiva muito importante. Poder representar a advocacia sergipana, nordestina e feminina em um espaço historicamente tão restrito possui forte simbolismo institucional.

Olho: Poder representar a advocacia sergipana, nordestina e feminina em um espaço historicamente tão restrito possui forte simbolismo institucional.

 Ainda temos baixa representatividade feminina nas Cortes Superiores, especialmente em posições oriundas da advocacia. Por isso, enxerguei aquele momento não apenas como conquista individual, mas como parte de um movimento mais amplo de pluralização institucional do sistema de Justiça.

REVISTA JURISTAS  –  O quinto constitucional ainda cumpre adequadamente sua função de levar a experiência da advocacia aos tribunais?

 ROSE MORAIS – Cumpre, e considero que essa função continua extremamente atual. O quinto constitucional permite que os tribunais incorporem experiências construídas fora da carreira da magistratura. A advocacia leva percepção prática do funcionamento do sistema de Justiça, compreensão muito concreta das dificuldades enfrentadas pelas partes e leitura próxima dos impactos reais das decisões judiciais.

Isso amplia pluralidade institucional e fortalece legitimidade das Cortes. Especialmente nos tribunais superiores, onde decisões possuem enorme impacto econômico e social, a presença da advocacia contribui para aproximar o Direito da realidade concreta.

REVISTA JURISTAS – O que a advocacia pode acrescentar à magistratura superior, especialmente em cortes como o Tribunal Superior do Trabalho (TST)?

 ROSE MORAIS – A advocacia leva aos tribunais a experiência concreta do conflito social e da realidade forense. Quem advoga diariamente conhece os efeitos reais das decisões judiciais, compreende as dificuldades operacionais do sistema e percebe rapidamente as transformações nas relações produtivas. No caso do TST, isso é particularmente relevante porque o mundo do trabalho vive profunda transição tecnológica e econômica. Plataformas digitais, inteligência artificial, novas formas de contratação e reorganização empresarial exigem decisões cada vez mais conectadas à realidade concreta. A experiência da advocacia contribui exatamente para isso: aproximar o sistema de Justiça das consequências práticas das decisões que produz.

REVISTA JURISTAS – A senhora é apontada como a primeira advogada nordestina a ocupar a Secretaria-Geral da OAB Nacional. Qual a importância simbólica e prática dessa representatividade?

ROSE MORAIS – A representatividade possui dimensão simbólica importante, mas ela só faz sentido quando produz transformação concreta. O Nordeste possui advocacia extremamente qualificada, forte tradição institucional e contribuição histórica muito relevante para os debates nacionais. Ampliar essa presença nos espaços de direção ajuda a tornar as instituições mais plurais e mais conectadas às diferentes realidades do país.

 Olho: É preciso contribuir para que outras mulheres consigam chegar a esses lugares com menos barreiras

Também considero importante a dimensão feminina dessa representatividade. Não basta ocupar espaços individualmente. É preciso contribuir para que outras mulheres consigam chegar a esses lugares com menos barreiras do que aquelas historicamente enfrentadas por tantas profissionais.

REVISTA JURISTAS – Como o Nordeste pode contribuir de forma ainda mais ativa para os grandes debates nacionais da advocacia?

ROSE MORAIS – O Nordeste já contribui de maneira muito consistente, especialmente em temas ligados a direitos fundamentais, Justiça Social e fortalecimento institucional da advocacia. A região possui tradição jurídica extremamente rica e advocacia muito conectada às transformações sociais brasileiras. O desafio agora é ampliar ainda mais a presença dessas vozes nos espaços nacionais de formulação institucional. Pluralidade regional melhora a qualidade do debate jurídico. O Brasil é complexo demais para produzir soluções concentradas em uma única realidade geográfica.

REVISTA JURISTAS – A presença feminina nos espaços de poder da advocacia avançou, mas ainda enfrenta obstáculos. Quais são os principais desafios atuais?

 ROSE MORAIS –  Os avanços foram importantes, mas ainda convivemos com desigualdades estruturais bastante evidentes. Hoje as mulheres já são maioria na advocacia brasileira. Entretanto, quando observamos espaços de liderança, sociedade de escritórios, tribunais e cargos decisórios, essa proporcionalidade desaparece. Existe ainda uma sobrecarga histórica atribuída às mulheres, além de barreiras culturais que muitas vezes dificultam ascensão institucional e profissional.

A paridade foi um avanço extremamente importante, mas ela não encerra o debate. Representatividade exige permanência, ocupação efetiva de espaços de poder e mudança cultural institucional.

REVISTA JURISTAS – A paridade de gênero nas instituições jurídicas deve ser vista como política permanente? Por quê?

 ROSE MORAIS – Sem dúvida. Porque a desigualdade estrutural não desaparece espontaneamente. Hoje as mulheres já são maioria na advocacia brasileira, mas isso ainda não se reflete proporcionalmente nos espaços de direção, nas sociedades de escritórios, nos tribunais e nos cargos estratégicos do sistema de Justiça.A paridade não deve ser compreendida como concessão. Ela é mecanismo institucional de correção histórica e fortalecimento democrático das instituições. A OAB teve papel pioneiro ao transformar a paridade em regra institucional obrigatória dentro do sistema de Ordem. Isso produziu mudança concreta na participação feminina e contribuiu para ampliar pluralidade nos espaços de decisão da advocacia brasileira.

REVISTA JURISTAS – Que medidas concretas a OAB pode adotar para ampliar a participação de mulheres advogadas em cargos de direção, comissões e espaços decisórios?

 ROSE MORAIS – A primeira medida é garantir permanência das políticas de paridade e fortalecimento da participação feminina nos espaços institucionais. Mas isso, sozinho, não resolve o problema. Também precisamos investir em formação de lideranças femininas, proteção contra violência institucional e combate a mecanismos sutis de exclusão profissional que ainda persistem na advocacia. Outro ponto importante é compreender que muitas mulheres deixam de disputar espaços porque enfrentam jornadas desproporcionais de cuidado e responsabilidades familiares. A participação feminina precisa deixar de ser exceção para se tornar elemento estrutural das instituições jurídicas.

REVISTA JURISTAS – Como conciliar mérito, representatividade e igualdade de oportunidades na advocacia brasileira?

 ROSE MORAIS – Esses conceitos não são incompatíveis. Pelo contrário. A verdadeira meritocracia só existe quando as pessoas partem de condições minimamente equilibradas de acesso às oportunidades. O problema histórico é que muitas mulheres, negros, profissionais do interior e advogados sem redes tradicionais de influência nunca tiveram as mesmas condições de visibilidade e ascensão.

 Olho: A verdadeira meritocracia só existe quando as pessoas partem de condições minimamente equilibradas de acesso às oportunidades.

 Representatividade não significa afastar mérito. Significa ampliar possibilidade de reconhecimento de talentos que historicamente permaneceram invisibilizados.

Instituições mais plurais tendem a produzir decisões mais legítimas, mais sofisticadas e mais conectadas à realidade social.

REVISTA JURISTAS – A senhora tem defendido a valorização da advocacia. O que significa, na prática, valorizar a advocacia em 2026?

 ROSE MORAIS – Valorizar a advocacia hoje significa compreender que a profissão atravessa transformação estrutural muito profunda. Estamos falando de impactos tecnológicos, novas formas de prestação de serviços jurídicos, concentração econômica do mercado e mudanças significativas na própria dinâmica do sistema de Justiça. Nesse cenário, defender a advocacia exige atuação institucional ampla.

Isso envolve proteção das prerrogativas, valorização dos honorários, fortalecimento da jovem advocacia, inclusão tecnológica e defesa da independência profissional. A OAB tem buscado atuar exatamente nessas frentes, tanto no campo legislativo quanto institucional. E existe um ponto central: não há acesso efetivo à Justiça sem advocacia valorizada.

REVISTA JURISTAS – Quais prerrogativas profissionais da advocacia estão hoje mais ameaçadas ou mais frequentemente violadas?

 ROSE MORAIS – Persistem violações históricas, mas surgiram também novos desafios relacionados à transformação digital do sistema de Justiça. Ainda enfrentamos problemas relacionados à sustentação oral, ao sigilo profissional, ao acesso pleno aos autos e à adequada fixação de honorários. Mas hoje também existem restrições operacionais produzidas por ambientes tecnológicos excessivamente complexos ou pouco acessíveis.

 Olho: Prerrogativa não é benefício do advogado. É garantia de defesa do cidadão.

 Em muitos casos, dificuldades sistêmicas acabam impactando diretamente o exercício da defesa. A OAB tem fortalecido o sistema nacional de defesa das prerrogativas justamente para garantir resposta institucional mais rápida e estruturada diante dessas violações. Prerrogativa não é benefício do advogado. É garantia de defesa do cidadão.

REVISTA JURISTAS – Como a OAB deve atuar diante de violações de prerrogativas praticadas por autoridades públicas, plataformas digitais ou grandes instituições privadas?

ROSE MORAIS – A defesa das prerrogativas hoje exige atuação muito mais sofisticada do que há alguns anos. As estruturas de poder mudaram. Hoje plataformas digitais, sistemas automatizados e grandes ambientes tecnológicos também produzem impactos diretos sobre o exercício profissional da advocacia. Por isso, a atuação da OAB precisa ocorrer simultaneamente no campo judicial, legislativo, regulatório e institucional. Não basta reagir a violações pontuais. É necessário participar da construção das regras que disciplinarão essas novas relações. A defesa das prerrogativas passou a envolver temas como governança digital, proteção de dados, transparência algorítmica e preservação do devido processo legal em ambientes tecnológicos.

REVISTA JURISTAS – A digitalização da Justiça trouxe ganhos, mas também problemas. Como a senhora avalia o estágio atual do processo judicial eletrônico no Brasil?

ROSE MORAIS – O processo eletrônico trouxe avanços relevantes de produtividade e acesso remoto, mas ainda convivemos com sistema excessivamente fragmentado.

A multiplicidade de plataformas, ausência de padronização efetiva e dificuldades de interoperabilidade entre tribunais acabam transferindo custo operacional e insegurança para a advocacia.

 Olho: A OAB tem atuado continuamente nesse debate justamente para evitar que a tecnologia produza novas barreiras ao exercício profissional.

 Participei de discussões relacionadas ao processo judicial eletrônico ainda em fases importantes de implementação e sempre sustentei que digitalização não pode ser confundida com mera virtualização do processo físico. A OAB tem atuado continuamente nesse debate justamente para evitar que a tecnologia produza novas barreiras ao exercício profissional.

REVISTA JURISTAS –  Quais são os principais gargalos tecnológicos que ainda dificultam o exercício profissional da advocacia?

 ROSE MORAIS – O principal gargalo continua sendo a falta de integração e padronização dos sistemas. Hoje a advocacia brasileira convive com múltiplas plataformas, exigências operacionais distintas, instabilidades e níveis variados de suporte técnico. Isso gera enorme desgaste profissional e compromete produtividade. Também existe desigualdade tecnológica importante dentro da própria advocacia brasileira. Nem todos os profissionais possuem a mesma estrutura digital para atuar em ambiente altamente informatizado. Por isso, a OAB tem defendido não apenas modernização tecnológica, mas também inclusão digital e simplificação operacional.

REVISTA JURISTAS –  A inteligência artificial já impacta a advocacia, o Judiciário e a produção de provas. Como a OAB deve se posicionar diante dessa transformação?

 ROSE MORAIS  – A inteligência artificial altera profundamente a dinâmica de produção da atividade jurídica. Hoje já convivemos com sistemas capazes de produzir peças processuais, organizar jurisprudência, sugerir estratégias e influenciar diretamente gestão de litígios. Isso traz ganhos importantes de eficiência, mas também inaugura questões extremamente sensíveis do ponto de vista ético, probatório e institucional. Uma das grandes preocupações envolve opacidade algorítmica, proteção de dados, produção de provas digitais e preservação do sigilo profissional. Por isso, a OAB decidiu ocupar esse debate de maneira protagonista. O Conselho Federal criou o Observatório Nacional de Cibersegurança, Inteligência Artificial e Proteção de Dados e aprovou a Recomendação 001/2024, que estabelece parâmetros éticos para utilização da IA na advocacia. A tecnologia precisa servir ao sistema de Justiça, e não substituir seus fundamentos constitucionais.

REVISTA JURISTAS – A senhora presidiu comissão relacionada a criptomoedas e blockchain no Conselho Federal da OAB. Que desafios jurídicos esses temas apresentam para a advocacia?

 ROSE MORAIS  – São temas que desafiam categorias jurídicas tradicionais. Blockchain, tokenização e ativos digitais produzem impactos simultaneamente regulatórios, tributários, consumeristas, contratuais e criminais. Além disso, operam muitas vezes em estruturas transnacionais que dificultam aplicação dos modelos clássicos de jurisdição e responsabilização. A advocacia precisa compreender que tecnologia não é mais tema periférico. Ela passou a integrar diretamente relações econômicas, patrimoniais e institucionais. Por isso, sempre defendi que a advocacia brasileira precisava se antecipar tecnicamente a esses debates, em vez de apenas reagir às transformações depois que elas já estivessem consolidadas.

REVISTA JURISTAS – A tecnologia pode ampliar o acesso à Justiça ou corre o risco de criar novas formas de exclusão?

 ROSE MORAIS  – As duas coisas podem acontecer simultaneamente. A tecnologia ampliou acesso à informação, reduziu barreiras geográficas e criou ferramentas importantes de inclusão. Mas ela também pode aprofundar desigualdades quando implementação ocorre sem preocupação com acessibilidade e inclusão digital. Existe risco real de criação de sistema de Justiça excessivamente sofisticado tecnologicamente e pouco acessível para parte da população e da própria advocacia. Por isso, modernização precisa estar vinculada à ideia de democratização tecnológica.

REVISTA JURISTAS – Como preparar a jovem advocacia para um mercado jurídico cada vez mais digital, competitivo e especializado?

 ROSE MORAIS  – A jovem advocacia precisará desenvolver formação cada vez mais interdisciplinar. Hoje não basta domínio técnico tradicional. O advogado precisa compreender tecnologia, gestão, proteção de dados, comunicação e impactos econômicos das transformações regulatórias. Também me preocupa a precarização crescente das relações profissionais dentro do próprio mercado jurídico. Precisamos garantir que inovação não signifique erosão da independência técnica da advocacia. A OAB tem buscado atuar nesse processo por meio de capacitação, inclusão tecnológica e fortalecimento das Escolas Superiores da Advocacia.

REVISTA JURISTAS – A OAB Nacional criou comissão voltada à mobilização pela reforma do Poder Judiciário. Quais pontos desse debate a senhora considera mais urgentes?

 ROSE MORAIS – O principal desafio é fortalecer previsibilidade institucional e segurança jurídica sem comprometer independência judicial. A OAB tem participado desse debate justamente porque compreende que aperfeiçoamento institucional do Judiciário interessa diretamente à cidadania, à advocacia e ao ambiente democrático. Precisamos discutir colegialidade, estabilidade jurisprudencial, racionalização processual, duração razoável do processo e transparência decisória. Reformar não significa enfraquecer instituições. Significa aprimorar sua capacidade de resposta constitucional.

REVISTA JURISTAS –  Como equilibrar independência judicial, segurança jurídica e responsabilidade institucional no funcionamento dos tribunais superiores?

 ROSE MORAIS – Esse equilíbrio depende fundamentalmente de estabilidade institucional e previsibilidade decisória. A independência judicial é elemento indispensável da democracia. Mas ela convive com necessidade de coerência jurisprudencial, responsabilidade institucional e respeito aos limites constitucionais.

 Olho: Tribunais superiores não produzem apenas decisões individuais. Produzem orientação institucional para toda a sociedade e para toda a atividade econômica do país

Tribunais superiores não produzem apenas decisões individuais. Produzem orientação institucional para toda a sociedade e para toda a atividade econômica do país. Por isso, a OAB tem defendido fortalecimento da colegialidade, estabilidade jurisprudencial e aperfeiçoamento dos mecanismos institucionais que ampliem confiança no sistema de Justiça.

REVISTA JURISTAS – O tema das decisões monocráticas tem sido muito discutido. Qual deve ser o papel da OAB nesse debate?

 ROSE MORAIS  – A OAB deve contribuir para esse debate de maneira técnica e institucionalmente responsável. Não se trata de eliminar instrumentos processuais importantes, mas de discutir racionalidade institucional, critérios objetivos e impactos de decisões individuais em matérias de grande repercussão. Quanto maior o impacto institucional da controvérsia, maior tende a ser a necessidade de fortalecimento da colegialidade. Esse é um debate que envolve previsibilidade, segurança jurídica e confiança institucional no funcionamento das Cortes.

REVISTA JURISTAS –  A advocacia brasileira enfrenta desafios econômicos, tecnológicos e institucionais. Qual deve ser a prioridade da OAB Nacional neste triênio?

 ROSE MORAIS  – A prioridade deve ser preparar a advocacia para cenário de transformação estrutural sem permitir enfraquecimento das garantias institucionais da profissão. Estamos diante de mudanças profundas no mercado jurídico, no sistema de Justiça e na própria organização das relações profissionais. A OAB precisa atuar simultaneamente na defesa das prerrogativas, na valorização da advocacia, na inclusão tecnológica e na proteção da independência profissional.

 Olho: Sem advocacia independente e valorizada, não existe sistema de Justiça verdadeiramente democrático.

 Também considero essencial fortalecer presença institucional da OAB em todo o país, especialmente junto à jovem advocacia, às mulheres advogadas e aos profissionais do interior. Sem advocacia independente e valorizada, não existe sistema de Justiça verdadeiramente democrático.

REVISTA JURISTAS –  Que legado a senhora gostaria de deixar como secretária-geral do Conselho Federal da OAB?

ROSE MORAIS  – Gostaria de contribuir para uma OAB cada vez mais plural, tecnicamente forte e conectada à advocacia real. Uma instituição capaz de dialogar com transformações tecnológicas, econômicas e sociais sem perder seus compromissos históricos com democracia, prerrogativas, valorização profissional e defesa da Constituição. Também espero contribuir para ampliar presença feminina e nordestina nos espaços nacionais de decisão, não como gesto simbólico isolado, mas como parte de processo permanente de fortalecimento institucional e pluralização da advocacia brasileira.

REVISTA JURISTAS – Para as jovens advogadas que acompanham sua trajetória, que mensagem a senhora deixaria sobre coragem, liderança e participação institucional?

 ROSE MORAIS  – Eu diria para que não esperem autorização para ocupar espaços. As mulheres muitas vezes foram ensinadas historicamente a duvidar da própria capacidade antes mesmo de tentar. E isso precisa ser rompido. Participação institucional exige coragem, preparo e persistência. Mas também exige compreensão de que ocupar espaços não é apenas conquista individual. Cada mulher que chega a um lugar historicamente negado ajuda a abrir caminho para outras. A advocacia precisa de mulheres nas tribunas, nos tribunais, nas instituições e nos espaços de formulação das grandes decisões nacionais.

 

 

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