
Sérgio Longo
Esta semana foi de fogueira, quadrilha e forró por aqui. No Nordeste, festa junina não é folclore, é calendário. Terça e quarta caíram em feriado, os prazos ficaram suspensos, e a semana, que já nasceu curta, virou uma corrida. Era pouco tempo útil e muita coisa represada para fazer.
Eu tinha duas opções. A primeira era a de sempre: levar o notebook para o sítio e passar a festa respondendo e-mail num canto, com um pé no forró e a cabeça no escritório. A segunda era um teste que eu vinha adiando havia meses, com um pouco de medo, confesso. Deixar a IA trabalhar sozinha durante a semana e só conferir o resultado no fim.
Resolvi arriscar. Deixei o computador ligado no escritório, trabalhando para mim, e fui tocando tudo de longe, pelo celular, dando instruções e tomando decisões à distância. A máquina ficou lá, produzindo. Eu fiquei aqui, decidindo. E o combinado comigo mesmo era simples: na sexta eu apareço no escritório só para amarrar, revisar o que foi feito, protocolar as petições e enviar os pareceres.
O medo não era da ferramenta, era da fronteira
Antes de contar o que aconteceu, preciso ser honesto sobre o que me travava. Não era dúvida sobre a capacidade da IA. Era dúvida sobre onde colocar a linha. Até que ponto eu podia dar autonomia sem perder o controle do que sai com o meu nome.
A resposta que encontrei é simples. Autonomia sem método é imprudência. Autonomia com método é alavanca. A diferença não está na ferramenta, está nas regras que você define antes de soltar a mão. O que pode ser feito sozinho, o que precisa parar e esperar uma decisão sua, o que nunca sai sem revisão humana, como o sigilo é protegido em cada etapa. Com essas regras claras, dar liberdade deixa de ser um salto no escuro e vira um processo.
A pequena lista do que ela fez por mim
Foi o teste que prometi a mim mesmo. Pela primeira vez, deixei a IA assumir a parte braçal da semana inteira, de forma autônoma, enquanto eu só entrava nos pontos de decisão. No fim, fiz a conta do que tinha sido feito sem eu estar na frente da tela:
- Gerou relatórios de cada processo, que aceleram a minha compreensão do caso e facilitam a revisão, e minutou as petições a partir dos meus modelos e do contexto de cada um, deixando as minutas prontas para a minha revisão de sexta.
- Leu as intimações e publicações novas, separou o que era urgente do que podia esperar, e me mandava no fim do dia um resumo curto com o que merecia minha atenção.
- Preparou a primeira versão de dois pareceres a partir dos documentos que os clientes enviaram, já com os pontos controversos destacados para eu decidir o tom.
- Organizou a fila de trabalho em três pilhas: pronto para protocolar, dependendo de uma decisão minha, faltando documento ou informação.
- Respondeu, com a minha aprovação por mensagem, dúvidas pontuais de clientes, sem inventar nada além do que eu autorizei em cada caso.
Repare numa coisa. Em nenhum desses cinco itens a IA decidiu por mim. Ela executou decisões que eu tomava de longe, em segundos, pelo celular, entre uma comida típica e outra. O julgamento continuou sendo meu. O que mudou foi que ele parou de exigir que eu estivesse fisicamente sentado na cadeira do escritório para acontecer.
A sexta-feira de amarração
Chego no escritório nesta sexta e não encontro uma pilha de trabalho me esperando. Encontro trabalho quase pronto esperando o meu carimbo. Passo o dia no que realmente exige um advogado: reler cada peça com olho crítico, ajustar a tese onde a máquina foi pelo caminho mais óbvio em vez do mais forte, conferir cada citação, decidir o que protocolo e o que seguro mais um pouco. Assino, protocolo, envio os pareceres.
O que seria uma semana perdida vira uma semana adiantada. E o mais interessante não foi o tempo que economizei. Foi perceber que o medo de dar autonomia era maior que o risco real, desde que as regras estivessem no lugar.
A fábula que eu tiro disso
Gosto de pensar nisso como uma pequena fábula de emancipação, com um detalhe importante. A IA não ganhou liberdade para me substituir. Ela ganhou liberdade para fazer o trabalho braçal sozinha enquanto eu cuidava do que ninguém pode terceirizar, que é o julgamento. A coleira nunca saiu da minha mão. O que mudou foi o tamanho da corda.
E é assim que a autonomia se conquista, em camadas. Você não entrega o escritório de uma vez. Você dá um pouco mais de corda a cada semana, observa o resultado, ajusta as regras, e só amplia quando a confiança foi merecida. Foi exatamente o que fiz nesta semana curta de São João, e saí dela convencido de que dá para ir além.
A boa notícia é que isso não é sorte nem talento, é método. Dá para montar no escritório esse mesmo fluxo, com regras claras de sigilo, verificação e pontos de decisão, de forma que a IA assuma o braço enquanto o advogado fica com a cabeça, mesmo quando está longe. No fim, a tecnologia não substitui o profissional. Ela apenas devolve a ele o tempo que estava preso na tarefa mecânica, para que esse tempo seja investido onde o julgamento humano é insubstituível.
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