Doutoranda sofre ataques virtuais após pedir ajuda para custear visto de pesquisa na Austrália

Data:

white and pink digital device
Photo by Adem AY on Unsplash

Uma doutoranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) tornou-se alvo de ataques nas redes sociais após criar uma campanha de arrecadação para custear a emissão do visto necessário à realização de um doutorado sanduíche na Austrália. O episódio reacendeu o debate sobre o financiamento da pesquisa científica no Brasil, a proteção da imagem nas redes sociais e os desafios enfrentados por pesquisadores que dependem de bolsas acadêmicas para desenvolver seus estudos.

Talita Motta Beneli, pesquisadora da área de Ecologia, foi selecionada para realizar parte de seu doutorado em uma universidade australiana por meio do Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Entretanto, uma exigência da instituição estrangeira gerou um custo adicional de aproximadamente R$ 8 mil para emissão do visto, despesa que não é coberta pelo programa.

Vaquinha foi criada para custear processo de visto

Diante da impossibilidade de arcar com o valor, Talita recorreu a uma campanha de financiamento coletivo para viabilizar sua participação na pesquisa internacional.

Segundo a pesquisadora, embora o programa da Capes custeie mensalidades, auxílio-deslocamento, auxílio-instalação e seguro-saúde, despesas administrativas e taxas extras não estão previstas no edital. Além disso, os valores dos benefícios, segundo ela, encontram-se defasados em relação aos custos atuais de viagens e permanência no exterior.

O problema se agravou quando a universidade australiana passou a exigir que a emissão do visto fosse realizada exclusivamente por uma agência credenciada, elevando significativamente o custo do procedimento.

Publicação gerou onda de ataques nas redes sociais

Na tentativa de ampliar o alcance da campanha, Talita encaminhou o link da vaquinha a uma influenciadora digital que acompanhava nas redes sociais.

Em vez de divulgar a arrecadação, a influenciadora publicou um vídeo criticando pessoas que recorrem a campanhas virtuais para financiar objetivos pessoais. Embora a pesquisadora não tenha sido identificada nominalmente, o conteúdo desencadeou uma série de comentários ofensivos.

Talita relatou ter recebido mensagens chamando-a de “preguiçosa” e “vagabunda”, além de críticas de pessoas que desconheciam o contexto da campanha e a realidade enfrentada por pesquisadores brasileiros.

Posteriormente, a doutoranda esclareceu sua situação nos comentários da publicação, explicando que o valor seria destinado exclusivamente ao pagamento do visto necessário para uma pesquisa científica. A repercussão acabou mobilizando outros pesquisadores e usuários das redes sociais, que passaram a apoiar a iniciativa.

Meta foi alcançada

Após alguns dias de mobilização, a campanha atingiu o valor necessário para custear a emissão do visto, permitindo que Talita prosseguisse com o intercâmbio acadêmico.

Apesar do desfecho positivo, a pesquisadora afirmou que a repercussão revelou o desconhecimento de parte da sociedade sobre o funcionamento da pesquisa científica e o financiamento da pós-graduação no Brasil.

Pesquisa estuda impactos das mudanças climáticas nos recifes

O trabalho desenvolvido por Talita busca compreender o comportamento alimentar de peixes em recifes de coral e identificar a função ecológica desempenhada por diferentes espécies.

A pesquisa compara recifes localizados em diversas regiões do mundo, incluindo a Austrália, para avaliar como as mudanças climáticas podem afetar o equilíbrio desses ecossistemas.

Segundo a pesquisadora, os resultados poderão contribuir para estratégias de conservação ambiental e auxiliar na definição de políticas públicas voltadas à proteção da biodiversidade marinha.

Bolsas de pesquisa ainda enfrentam críticas

O caso também trouxe à tona o debate sobre o financiamento da ciência no país.

Pesquisadores vinculados à Capes e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) recebem bolsas destinadas à dedicação exclusiva às atividades acadêmicas. No entanto, entidades científicas afirmam que os valores são insuficientes diante do custo de vida e das exigências da carreira.

Além disso, representantes da comunidade científica defendem maior estabilidade no financiamento público, argumentando que contingenciamentos orçamentários podem comprometer pesquisas em andamento e estimular a evasão de pesquisadores para o exterior.

Recentemente, organizações como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) manifestaram preocupação com a natureza discricionária dos recursos destinados às bolsas de pesquisa, defendendo mecanismos que assegurem maior previsibilidade e segurança financeira aos cientistas.

(Com informações do G1 por Poliana Casemiro)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Pentobarbital: como age a droga usada na execução frustrada de Christa Pike

Christa Gail Pike, condenada à morte pelo assassinato de...

Família ajuíza ações contra governo dos EUA e agente do ICE por morte de cidadã

A família de Renee Good ajuizou duas ações na Justiça federal dos Estados Unidos em busca de responsabilização pela morte da mulher, baleada por um agente do ICE em Minneapolis. Uma ação é dirigida contra o governo norte-americano e envolve pedido de reparação por morte indevida e negligência. A outra questiona a atuação do agente e de autoridades federais, com alegações de uso excessivo da força e violação de direitos civis.

TJ-BA identifica tentativa de manipulação de IA com comandos ocultos em habeas corpus

O TJ-BA identificou comandos ocultos inseridos em documento apresentado em um habeas corpus, em uma tentativa de direcionar ferramentas de inteligência artificial da Corte para favorecer o pedido defensivo. O colegiado determinou o encaminhamento do caso à OAB-MS e ao Ministério Público para as providências cabíveis e manteve a prisão preventiva do investigado.

Vídeo atribuído a ministra do TSE com declaração de voto em Lula volta a circular após decisão sobre debate

Um vídeo atribuído à ministra do TSE Estela Aranha, com uma declaração de voto em Lula durante as eleições de 2022, voltou a circular nas redes sociais após decisão da magistrada que impediu a TV Globo de exibir o púlpito reservado ao candidato ausente no debate presidencial. A data e o contexto integral da gravação não foram confirmados de forma independente.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo