Justiça rejeita recurso elaborado com auxílio de IA devido a erros graves, e advogado poderá responder por infração disciplinar

Data:

Inteligência Artificial advogados
Créditos: Phonlamai Photo | iStock

A Justiça rejeitou um recurso após identificar que a peça processual apresentava erros substanciais gerados por uma ferramenta de inteligência artificial (IA). O documento, assinado por um advogado, continha argumentos desconexos, jurisprudências inexistentes e citações imprecisas — elementos que, segundo o magistrado, evidenciam ausência de revisão técnica e diligência profissional.

O juiz responsável pelo caso observou, na decisão, que a utilização de sistemas automatizados não é proibida, mas exige rigorosa conferência pelo advogado, que permanece integralmente responsável pelo conteúdo produzido. No entendimento do magistrado, o recurso trazia contradições internas e trechos incompatíveis com o contexto fático do processo, o que inviabilizava sua apreciação. Diante disso, a peça não foi conhecida.

Erros gerados pela IA e falta de conferência humana

Segundo a decisão, a ferramenta de IA utilizada teria criado referências jurídicas que não existem, além de apresentar descrições equivocadas sobre o andamento processual. O juiz destacou que a incorreção não se tratou de mero equívoco formal, mas de falhas substanciais que comprometiam a compreensão dos argumentos e a própria lógica da peça.

O magistrado também apontou que o advogado, ao delegar a redação da peça à IA sem realizar a devida validação, violou o dever de cuidado profissional. Entre os problemas identificados estavam:

  • citações de precedentes inexistentes;
  • menções a dispositivos legais que não tinham relação com o caso;
  • trechos sem conexão com os fatos narrados nos autos;
  • erros de contextualização e análise jurídica.

Para a Justiça, esses elementos indicam que o profissional não revisou adequadamente o material gerado pela IA, apresentando ao Judiciário um recurso tecnicamente inviável.

Responsabilidade profissional pelo uso de IA

Na decisão, o magistrado aproveitou para reforçar entendimento que tem ganhado espaço no Judiciário: embora a inteligência artificial seja uma ferramenta legítima de apoio, sua utilização não reduz ou transfere a responsabilidade do advogado pela qualidade da argumentação apresentada.

O juiz recordou que o Estatuto da Advocacia estabelece a obrigação de zelar pela exatidão das informações e pela correção técnica dos atos processuais assinados. Assim, mesmo quando recorrer a sistemas automatizados, cabe ao profissional conferir minuciosamente cada informação antes de protocolar a peça.

O magistrado também observou que o aumento do uso de IAs generativas tem exigido maior atenção do Judiciário e da advocacia, sobretudo diante da possibilidade de geração de textos aparentemente coerentes, mas com conteúdo falso ou enganoso.

Possível punição disciplinar

Diante das falhas verificadas, o juiz determinou o envio de cópia da decisão à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para que avalie a conduta do profissional e eventual abertura de processo ético-disciplinar. A conduta pode ser enquadrada como apresentação de peça temerária, negligência ou desrespeito aos deveres previstos no Código de Ética e Disciplina da OAB.

Caso a OAB entenda que houve infração, o advogado pode ser advertido, censurado ou, em situações graves, até suspenso do exercício da profissão.

Marco jurídico e tendência no Judiciário

O caso reforça uma tendência já observada em diferentes tribunais: a crescente preocupação com o uso indiscriminado de ferramentas de IA na prática forense. Diversas cortes têm alertado que a adoção dessas tecnologias — embora possa agilizar tarefas e melhorar a produtividade — não dispensa o rigor técnico e a supervisão humana.

Para o magistrado, a decisão busca não apenas punir uma conduta isolada, mas também orientar a advocacia sobre os limites éticos e processuais no uso de inteligência artificial, especialmente em um cenário em que a tecnologia está se tornando cada vez mais presente no exercício profissional.

Andamento do processo

Com o recurso rejeitado, o processo segue sua tramitação normal. Dependendo das circunstâncias, a parte pode ser prejudicada pela falta de análise do recurso, e o advogado poderá responder tanto pelos efeitos processuais quanto por eventual responsabilização ética.

(Com informações do Direito News)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Ministro do STJ suspende julgamento de desapropriação após crítica de advogada a caso considerado “absurdo”

O ministro Afrânio Vilela, do STJ, pediu vista de processo sobre indenização por desapropriação após uma advogada classificar o caso como “absurdo”. A controvérsia envolve a ampliação da área considerada para o cálculo indenizatório, e o julgamento foi suspenso para que o magistrado reexamine os fundamentos de sua posição.

EUA anunciam transmissão ao vivo da execução de militar condenado por ataque em base do Texas

O Pentágono anunciou que a execução de Nidal Malik Hasan, condenado pelo assassinato de 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas, está prevista para 3 de dezembro de 2026 e poderá ser transmitida ao vivo. O procedimento deverá ocorrer por fuzilamento, mas as autoridades ainda não divulgaram detalhes sobre a transmissão. O anúncio reacendeu o debate sobre a pena de morte e a publicidade das execuções nos Estados Unidos

TJDFT mantém condenação de concessionária de cemitério por furto de motocicleta

O TJDFT manteve a condenação de uma concessionária de cemitérios pelo furto de uma motocicleta em uma de suas unidades. A 7ª Turma Cível identificou falhas no dever de vigilância, apesar da previsão contratual de segurança armada 24 horas por dia. O tribunal entendeu que a terceirização do serviço não afasta a responsabilidade da concessionária. A indenização de R$ 16.174,00 por danos materiais foi mantida, com correção monetária e juros. A decisão foi unânime.

Justiça concede liminar e permite funcionamento temporário de casa de aposta

Justiça Federal em São Paulo concede liminar que permite à Stake Brazil continuar operando até 25 de outubro de 2026. A decisão considera a necessidade de observar um prazo de transição antes da suspensão das atividades.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo