Justiça torna réus quatro acusados de promover campanha de ódio contra Maria da Penha

Data:

Justiça torna réus quatro acusados de promover campanha de ódio contra Maria da Penha | Juristas
Créditos: BrunoWeltmann / Shutterstock.com

A Justiça do Ceará aceitou denúncia do Ministério Público estadual (MP-CE) e tornou réus, nesta segunda-feira (9), quatro investigados por participação em uma campanha de ataques contra a farmacêutica e ativista Maria da Penha, referência na luta contra a violência doméstica no Brasil.

Entre os denunciados está o ex-marido da ativista, Marco Antônio Heredia Viveiros. Também passam a responder ao processo o influenciador digital Alexandre Gonçalves de Paiva, o produtor Marcus Vinícius Mantovanelli e o editor e apresentador Henrique Barros Lesina Zingano, envolvidos na produção do documentário A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha.

Segundo o Ministério Público, os acusados teriam atuado de forma coordenada para atacar a reputação da ativista e questionar a legitimidade da legislação que leva seu nome. As investigações apontam o uso de perseguições virtuais, disseminação de notícias falsas e a utilização de um laudo de exame de corpo de delito adulterado para sustentar a versão de inocência de Heredia, que já foi condenado por tentativa de homicídio contra Maria da Penha.

De acordo com a apuração, o grupo teria promovido perseguição, cyberbullying, divulgação de conteúdos misóginos e distorção de informações em sites e redes sociais. O MP também destaca que as ações ultrapassaram o ambiente digital: Alexandre Paiva chegou a ir até a antiga residência da ativista, em Fortaleza, onde gravou vídeos que foram posteriormente divulgados nas redes.

Crimes apontados

Marco Heredia foi denunciado por falsificação de documento público, enquanto Alexandre Paiva responderá por stalking e cyberstalking. Já Mantovanelli e Zingano são acusados de uso de documento falso, por terem utilizado um laudo adulterado no documentário produzido pela empresa Brasil Paralelo S/A.

Segundo o Ministério Público, o material audiovisual difundiu a tese de que teria havido fraude no processo que condenou Heredia e apresentou um laudo supostamente alterado de exame de corpo de delito. No documento falsificado, foram incluídas informações sobre lesões no pescoço e no braço de Heredia que não constavam no laudo original.

A análise pericial identificou indícios de montagem, como diferenças nas assinaturas dos peritos e inconsistências em carimbos, numerações e rubricas. O laudo adulterado foi amplamente divulgado para sustentar a narrativa de que Heredia teria sido vítima, e não autor da tentativa de assassinato da esposa.

As investigações também apontam que os envolvidos utilizavam grupos de WhatsApp para planejar estratégias de divulgação da campanha nas redes sociais e para organizar a produção do documentário.

Lucro com desinformação

De acordo com o MP, o grupo também teria obtido ganhos financeiros com a divulgação do conteúdo. Extratos bancários de Alexandre Paiva, obtidos com autorização judicial, indicaram depósitos de empresas como Google LLC e Meta Platforms Ireland Limited, além de receitas provenientes de publicidade.

O processo tramita na 9ª Vara Criminal de Fortaleza e ainda não há prazo para julgamento. A Agência Brasil informou que não conseguiu contato com a defesa de Marco Antônio Heredia até o momento.

Operação

A investigação começou em 2024, conduzida pelo Núcleo de Investigação Criminal (Nuinc) do Ministério Público do Ceará, e resultou na operação Echo Chamber, realizada em duas fases.

Na primeira etapa, em dezembro de 2024, foram cumpridos mandados de busca no Espírito Santo e no Rio de Janeiro. Na ocasião, o perfil de Alexandre Paiva foi suspenso e ele ficou proibido de se aproximar ou manter contato com Maria da Penha e suas filhas.

Já na segunda fase, em julho de 2025, buscas realizadas em Natal resultaram na apreensão de documentos e equipamentos eletrônicos, incluindo um pen drive que continha o laudo adulterado. A Justiça também determinou a suspensão da divulgação do documentário.

Diante da gravidade dos ataques, Maria da Penha foi incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, por meio do Núcleo de Acolhimento às Vítimas de Violência (Nuavv) do MP do Ceará.

O caso

Maria da Penha foi vítima de duas tentativas de homicídio em 1983, cometidas por seu então marido, Marco Heredia. Na primeira, ele atirou contra a esposa enquanto ela dormia, atingindo suas costas e causando lesões na coluna e na medula que a deixaram paraplégica.

Na época, Heredia alegou à polícia que o caso teria sido resultado de uma tentativa de assalto, versão posteriormente descartada pela perícia. Meses depois, após retornar para casa depois de cirurgias e tratamentos, Maria da Penha foi mantida em cárcere privado por cerca de 15 dias e sofreu uma nova tentativa de assassinato, quando o marido tentou eletrocutá-la durante o banho.

(Com informações da  Agência Brasil por Luciano Nascimento)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Advogado ajuíza ação de R$ 12 bilhões no STF com alegações de organização criminosa internacional e controle mental

Um advogado ajuizou no STF ação indenizatória de R$ 12 bilhões alegando ser vítima de uma suposta organização criminosa internacional responsável por clonagem de DNA, manipulação genética e controle mental. A ação reúne dezenas de autoridades, empresários, artistas e instituições como rés, além de formular pedidos de investigações, medidas cautelares e indenizações. O processo ainda aguarda análise do Supremo Tribunal Federal.

Câmara aprova projeto que suspende prescrição da pena de condenados foragidos

A Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que suspende a contagem da prescrição da execução penal de condenados que fugirem da prisão ou descumprirem as condições da liberdade condicional. Pela proposta, o prazo prescricional permanecerá interrompido até a captura ou reapresentação do condenado, evitando que a fuga resulte na extinção da punibilidade pelo decurso do tempo. O texto segue agora para análise do Senado Federal.

Influenciador viraliza ao defender que pais têm obrigação de sustentá-lo por toda a vida

O influenciador Hassan Azteca viralizou ao afirmar que não pretende trabalhar porque considera que seus pais têm obrigação de sustentá-lo, já que não consentiu em nascer. A declaração gerou intenso debate nas redes sociais e trouxe à discussão questões relacionadas ao dever de sustento familiar, à autonomia dos filhos adultos e às dificuldades enfrentadas pelos jovens no mercado de trabalho. Sob a ótica jurídica, a obrigação alimentar dos pais em relação a filhos maiores não é automática nem permanente, dependendo da análise das circunstâncias previstas em lei.

CNJ estabelece novas diretrizes para acelerar julgamento de execuções fiscais antigas

O CNJ editou a Resolução nº 689/2026 para disciplinar o tratamento de aproximadamente 1,6 milhão de execuções fiscais pendentes há mais de 15 anos. A norma determina a intimação das Fazendas Públicas para manifestação sobre os processos antigos, prevê a análise da prescrição intercorrente quando não houver impulso processual efetivo, proíbe novas cobranças após a extinção do crédito tributário e estabelece a adoção de ferramentas de automação e gestão por dados para aumentar a eficiência do Judiciário.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo