Tribunais intensificam julgamento de processos sobre temática racial no Mês da Consciência Negra

Data:

racismo / injúria racial
Créditos: Ocus Focus | iStock

Durante o mês da Consciência Negra, o Poder Judiciário brasileiro concentra esforços para reduzir em 20% o estoque de 13.618 processos relacionados à temática racial e a comunidades quilombolas que ainda aguardam julgamento. A mobilização foi proposta pelo presidente do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, como parte do Mutirão de Julgamento e Impulsionamento de Processos com Ênfase na Temática Racial — iniciativa inédita no âmbito do CNJ.

A partir dos dados do Painel de Monitoramento Justiça Racial, cada tribunal recebeu a lista de ações identificadas como prioritárias para movimentação. Em vários estados, as cortes já iniciaram ações estruturadas para cumprir a meta.

Avanços nos tribunais estaduais

No Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), onde tramitam cerca de 4 mil processos sobre o tema, 743 já estavam conclusos para decisão — número que supera o percentual sugerido pelo CNJ. Segundo o desembargador Lidivaldo Reaiche Raimundo Britto, presidente da Comissão de Igualdade, Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos Humanos do tribunal, cada magistrado recebeu ofício individualizado com a indicação das ações sob sua responsabilidade. Ele afirma que o engajamento tem sido positivo e que o mutirão avança de forma consistente no estado. Em Salvador, o esforço também integra uma campanha institucional que será lançada pelo tribunal.

No Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO), 622 processos foram inicialmente mapeados. Contudo, nem todos envolvem diretamente discriminação racial, já que muitos não possuem marcadores específicos que permitam identificação automática do tema. O juiz Hugo de Souza Silva, coordenador-adjunto de Igualdade Racial da corte, explica que, ainda assim, todos os processos listados estão sendo impulsionados, com ofícios enviados às varas competentes. Para ele, a ausência de marcação adequada evidencia o quanto o Judiciário ainda precisa evoluir na identificação e no tratamento dessas questões.

Falta de marcadores e invisibilidade

A juíza auxiliar da Presidência do CNJ, Adriana Melonio, também reconhece as dificuldades na classificação adequada dos processos. Segundo ela, embora exista marcador de “discriminação”, ainda não há um marcador específico para “racismo”, o que contribui para a invisibilização de demandas importantes. Para Melonio, o mutirão cumpre dupla função: acelerar julgamentos e aprimorar a qualidade dos dados do Judiciário, garantindo que os processos sejam classificados corretamente e permitindo maior integração entre os tribunais no enfrentamento ao racismo estrutural.

Iniciativa continuará em 2026

Embora o foco inicial esteja no mês de novembro, o CNJ prevê a continuidade das ações ao longo de 2026. O modelo do mutirão se inspira em prática já realizada pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN), reconhecida com Menção Honrosa no Prêmio Equidade Racial 2024. O projeto, criado em 2023 pelas comissões de prevenção ao assédio e à discriminação da corte potiguar, teve apoio da Corregedoria e da Presidência do tribunal.

Para a juíza Adriana Melonio, o esforço nacional não apenas prioriza processos sensíveis, mas também ajuda a mapear lacunas estruturais que precisam ser enfrentadas. Os resultados e as boas práticas adotadas pelos tribunais serão apresentados no Encontro Nacional de Juízes Negros, que ocorrerá em Brasília nos dias 9 e 10 de dezembro, ocasião em que serão reconhecidas as cortes que mais se destacaram no mutirão.

(Com informações do CNJ)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Justiça do Rio nega prisão domiciliar humanitária ao ator José Dumont

A Justiça do Rio de Janeiro negou o pedido de prisão domiciliar humanitária formulado pela defesa do ator José Dumont, de 76 anos. Condenado a dez anos e quatro meses de reclusão pelos crimes de estupro de vulnerável e posse de pornografia infantil, ele permanece cumprindo pena em regime fechado.

STJ admite desvinculação de resultados desabonadores associados ao nome de pessoa

O STJ manteve decisão que determinou a desindexação de resultados considerados desabonadores associados exclusivamente ao nome de uma mulher. Para a Terceira Turma, a medida não representa aplicação do direito ao esquecimento, mas proteção à intimidade e aos dados pessoais. Os conteúdos permanecem disponíveis nos sites de origem e podem ser localizados por outras palavras-chave.

Clubes de futebol se posicionam contra possível proibição das bets

Clubes e federações de futebol se manifestam contra possível proibição dos cassinos on-line e defendem a manutenção do mercado regulado de apostas, com maior fiscalização e combate às plataformas ilegais.

Banco Central altera regras do Pix e amplia mecanismos de segurança

Banco Central aprova novas regras para o Pix, amplia o uso do Pix Automático, regulamenta a cobrança híbrida e reforça as obrigações das instituições financeiras na prevenção e no combate a fraudes.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo