TRT-2 aplica multa por litigância de má-fé em razão do uso indevido de inteligência artificial em recurso trabalhista

Data:

Inteligência Artificial advogados
Créditos: Phonlamai Photo | iStock

A 6ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT-2) aplicou multa por litigância de má-fé a uma reclamante que apresentou, em sede recursal, jurisprudência inexistente, supostamente produzida por meio de ferramenta de inteligência artificial (IA). A penalidade foi fixada em 5% sobre o valor da causa, com fundamento no artigo 793-B, incisos II e V, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

Jurisprudência fictícia e conduta temerária

Consta dos autos que a petição recursal trazia citações a acórdãos inexistentes, indevidamente atribuídos a ministros do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e a um suposto julgador vinculado ao TRT da 3ª Região, cuja identidade não foi confirmada. Diante da inexistência dos julgados referidos, o juízo determinou a intimação da parte autora para esclarecimentos.

Em manifestação, a reclamante reconheceu que os precedentes citados foram “produzidos de forma incorreta”, alegando que não se atentou à necessidade de revisão do conteúdo gerado.

Responsabilidade processual não é mitigada pelo uso de IA

Ao relatar o caso, o juiz convocado João Forte Júnior destacou que o conteúdo recursal buscava induzir o juízo a erro, ao apresentar como legítimos precedentes que jamais foram proferidos. O magistrado ressaltou que a utilização de ferramentas de IA não exime a parte — ou sua representação técnica — do dever de verificar a veracidade das informações trazidas aos autos.

“Não é minimamente razoável atribuir culpa à inteligência artificial quando esta depende de comandos de seres humanos. A utilização de ferramentas de IA não exime a parte de sua responsabilidade pelo conteúdo apresentado”, pontuou o relator.

Multa por litigância de má-fé

A Turma entendeu que a conduta processual da parte autora configurou deslealdade e comportamento temerário, nos termos do art. 793-B da CLT, que trata das hipóteses de litigância de má-fé na Justiça do Trabalho. Diante disso, todos os pedidos recursais foram rejeitados e fixada a multa correspondente a 5% do valor atribuído à causa.

Considerações finais

Embora o número do processo não tenha sido divulgado, o julgamento reforça a necessidade de cautela no uso de tecnologias jurídicas, especialmente aquelas baseadas em inteligência artificial generativa. O Tribunal reiterou que a responsabilidade processual permanece pessoal e intransferível, ainda que ferramentas automatizadas sejam utilizadas na elaboração de peças.

(Com informações do TRT da 2ª região)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Câmeras com IA identificam comportamentos suspeitos e reacendem debate sobre vigilância

Câmeras de monitoramento, tradicionalmente utilizadas para registrar ocorrências e...

Inteligência artificial amplia ataques cibernéticos e coloca empresas brasileiras na mira de grupos criminosos

O avanço da inteligência artificial generativa tem contribuído para o aumento e a sofisticação de ataques cibernéticos realizados por grupos criminosos. No Brasil, empresas e instituições passaram a figurar entre os alvos de operações de ransomware e roubo de dados. Além dos prejuízos financeiros, os ataques podem gerar responsabilidades relacionadas à proteção de dados pessoais e exigir comunicação à ANPD e aos titulares afetados.

Nova lei aumenta penas para crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes na internet

A Lei 15.487/2026 endureceu as penas para crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes, inclusive aqueles praticados pela internet ou com o uso de inteligência artificial. A norma elevou diversas penas, incluiu os crimes no rol dos hediondos, criou mecanismos de investigação digital, como as chamadas “rondas virtuais”, e ampliou a proteção psicológica e psicossocial às vítimas. A legislação também prevê aumento de pena quando houver uso de IA, deepfakes, redes sociais, aplicativos de mensagens ou jogos online para facilitar a prática criminosa.

Alemanha planeja reformar “minijobs” e ampliar contribuição previdenciária

A Alemanha avalia reformar o sistema de “minijobs”, modalidade de trabalho de curta jornada que atende cerca de 7 milhões de pessoas. Entre as propostas estão o fim da possibilidade de renunciar às contribuições previdenciárias e o aumento dos encargos pagos pelas empresas. Sindicatos defendem a mudança por considerarem o modelo precário, enquanto empregadores argumentam que os minijobs garantem flexibilidade ao mercado de trabalho. Estudantes e trabalhadores que dependem dessa modalidade temem redução da renda. O governo alemão ainda deverá definir os detalhes da reforma.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo