Tribunais aplicam multas e alertam sobre risco criminal em casos de uso inadequado de IA pela advocacia

Data:

Inteligência Artificial advogados
Créditos: Phonlamai Photo | iStock

O uso de inteligência artificial (IA) na elaboração de petições tem gerado sanções ao setor jurídico. A citação de precedentes inexistentes ou informações imprecisas produzidas por ferramentas de IA, quando incluídas em peças assinadas por advogados, tem levado o Poder Judiciário a aplicar multas por litigância de má-fé e a avaliar a possibilidade de ocorrência de infrações criminais, como falsidade ideológica e uso de documento falso, previstas nos artigos 299 e 304 do Código Penal.

Multas e responsabilização

No Tribunal Superior Eleitoral (TSE), decisões recentes demonstram a tendência de aplicação de multas de até cinco salários mínimos (R$ 8,1 mil em 2026), com base no artigo 81, II, do Código de Processo Civil (CPC). A legislação admite penalidades ainda maiores: até dez salários mínimos ou 10% do valor da causa.

Quando há indícios de conduta irregular, os autos são encaminhados à seccional da OAB em que o advogado está inscrito e, em alguns casos, ao Ministério Público Eleitoral, abrindo espaço para análise de possível infração criminal. Embora a tipificação do delito seja atribuída ao MP, a prática costuma ser enquadrada como estelionato judicial, sem previsão expressa na legislação brasileira, e tratada, em tese, como falsidade ideológica ou uso de documento falso.

O TSE também tem consolidado jurisprudência específica. Um caso emblemático envolve a advogada Francisleidi Nigra, multada em R$ 2 mil por citar jurisprudência inexistente em processo eleitoral de sua própria candidatura. Desde 2025, o tribunal registrou ao menos nove casos semelhantes, com envio de ofícios ao MP para eventual responsabilização criminal.

Argumentos da defesa

Advogados recorreram alegando que os erros foram materiais e involuntários, decorrentes da confiança no conteúdo gerado por sistemas de IA. Em um dos casos, o profissional argumentou que a simples indicação equivocada de precedentes, sem prejuízo processual, não caracteriza má-fé. O TSE rejeitou tais recursos, reafirmando que a responsabilidade recai sobre a parte, representada pelo advogado, que age como seu procurador processual.

Decisões em outros tribunais

O cenário não se restringe ao TSE. O Tribunal Superior do Trabalho (TST) e os tribunais regionais também têm aplicado multas por litigância de má-fé motivadas por informações falsas geradas por IA. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) registrou casos nos quais advogados multados admitiram o uso de IA como suporte técnico, resultando na inclusão de jurisprudência inexistente.

O ministro Francisco Falcão, do STJ, ressaltou que a IA deve ser ferramenta complementar, não substitutiva da análise técnica do advogado. Em um dos casos, a multa aplicada foi de 10% sobre o valor atualizado da causa, e ofício foi expedido à OAB-DF.

Orientações para o uso da IA

O STJ e o TSE têm enfatizado boas práticas no uso de IA no âmbito jurídico. A Resolução CNJ 332/2020 estabelece diretrizes para utilização responsável dessas ferramentas no Judiciário, incluindo revisão e validação das informações geradas antes de inclusão em peças processuais.

O ministro Antonio Carlos Ferreira, ao tratar do caso da advogada Francisleidi Nigra, destacou que o objetivo não é reprimir o uso da IA, mas incentivar seu uso com prudência, aliado à capacitação profissional oferecida por cursos do CNJ, garantindo segurança jurídica e qualidade técnica na advocacia.

Processo 0600359-43.2024.6.16.0150 (TSE)
Processo 0600695-05.2024.6.05.0166 (TSE)
Processo 0600288-48.2024.6.02.0015 (TSE)
Processo 0600016-43.2022.6.13.0201 (TSE)
Processo 0600167-71.2023.6.21.0000 (TSE)
Processo 0600528-12.2024.6.26.0163 (TSE)
Processo 0600642-76.2024.6.11.0030 (TSE)
Processo 0600496-15.2024.6.18.0006 (TSE)
Processo 0600499-47.2024.6.09.0029 (TSE)
RMS 77.436 (STJ)
MS 30.567 (STJ)

(Com informações do ConJur por Danilo Vital)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Justiça dos EUA suspende fusão bilionária entre Warner Bros. Discovery e Paramount após ação antitruste

A Justiça dos Estados Unidos suspendeu a fusão de aproximadamente US$ 110 bilhões entre Warner Bros. Discovery e Paramount após ação movida por 12 estados, liderados pela Califórnia. Os autores sustentam que a operação viola a legislação antitruste e poderá reduzir significativamente a concorrência nos mercados de cinema, televisão e entretenimento. O caso ainda será analisado pela Justiça, enquanto a transação também aguarda aprovação de reguladores internacionais.

Eduardo Bolsonaro obtém green card nos EUA após condenação pelo STF

Eduardo Bolsonaro recebeu o green card dos Estados Unidos, documento que lhe garante residência permanente no país. A concessão ocorre após sua condenação pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão pelo crime de coação no curso do processo. O documento amplia sua estabilidade migratória nos EUA, embora não lhe confira direitos políticos, como o voto nas eleições norte-americanas.

Justiça mantém justa causa de trabalhadora que gravou vídeos no TikTok com uniforme e críticas à empresa

A Justiça do Trabalho manteve a demissão por justa causa de uma trabalhadora que gravou vídeos para o TikTok nas dependências da empresa, utilizando uniforme com identificação da empregadora e divulgando informações consideradas falsas sobre o ambiente de trabalho. A decisão concluiu que a conduta violou normas internas, comprometeu a imagem da empresa e configurou mau procedimento, indisciplina e ato lesivo à honra do empregador, nos termos da CLT.

Copa do Mundo impulsiona apostas esportivas, mas setor enfrenta pressão por regras mais rígidas sobre publicidade

A Copa do Mundo impulsionou o mercado brasileiro de apostas esportivas, registrando aumento expressivo no número de apostas e no volume de transações. Apesar do crescimento, o setor não atingiu as projeções esperadas e passou a enfrentar maior pressão por regras mais rígidas para a publicidade das bets. O governo federal reforçou normas sobre propaganda, enquanto órgãos públicos e entidades civis discutem novas medidas para ampliar a proteção dos consumidores.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo