Golpes virtuais superam roubos tradicionais e redefinem o cenário da criminalidade patrimonial no Brasil

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Golpes virtuais superam roubos tradicionais e redefinem o cenário da criminalidade patrimonial no Brasil | JuristasO avanço dos golpes e fraudes eletrônicas tem alterado o perfil da criminalidade patrimonial no Brasil. Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam redução nos índices de roubos tradicionais, ao mesmo tempo em que os registros de estelionato praticado por meios digitais apresentam crescimento expressivo, evidenciando a migração das organizações criminosas para modalidades de menor risco e maior rentabilidade.

Em entrevista ao podcast A Hora, do Canal UOL, a diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Samira Bueno, afirmou que os criminosos têm substituído delitos patrimoniais praticados com violência ou grave ameaça por golpes aplicados por telefone, aplicativos e internet, em razão do elevado potencial de lucro e da reduzida probabilidade de responsabilização penal.

Segundo o levantamento, houve queda de aproximadamente 20% nos roubos de veículos, residências e cargas, além de redução de 23% nos roubos a transeuntes e de 18,6% nos roubos de telefones celulares. Em contrapartida, os furtos de celulares permaneceram praticamente estáveis, registrando leve aumento de 0,9%, consolidando-se como uma das modalidades patrimoniais mais recorrentes.

O anuário contabiliza cerca de 483 mil furtos e 308 mil roubos de aparelhos celulares no período analisado. A pesquisadora explica que, embora o furto normalmente ocorra sem violência ou ameaça direta, o acesso a aparelhos desbloqueados permite aos criminosos obter dados pessoais, credenciais bancárias e outras informações sensíveis, potencializando os prejuízos financeiros das vítimas.

O crescimento mais significativo, contudo, foi registrado no crime de estelionato, especialmente na modalidade eletrônica. De acordo com o Fórum, mais de 2,2 milhões de ocorrências foram registradas em 2025, o equivalente a aproximadamente 258 golpes por hora, representando aumento de cerca de 430% em relação aos índices observados em 2018.

Além da expansão quantitativa, especialistas apontam um processo de profissionalização dessas organizações. Segundo Samira Bueno, grupos criminosos passaram a operar estruturas semelhantes a empresas, com divisão de funções, metas de produtividade, utilização de centrais de atendimento e equipes dedicadas exclusivamente à aplicação de fraudes eletrônicas.

A pesquisadora também chama atenção para a elevada subnotificação desses delitos. Embora milhões de pessoas sejam potencialmente vítimas de golpes digitais, apenas parte dos casos é formalmente comunicada às autoridades. Conforme os dados apresentados, dos mais de 2,2 milhões de registros de estelionato, apenas cerca de 63 mil evoluíram para ações penais, enquanto menos de cinco mil pessoas encontravam-se presas por esse delito ao final de 2025.

Na avaliação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a reduzida taxa de responsabilização penal contribui para tornar o estelionato digital uma atividade altamente atrativa para organizações criminosas, especialmente diante da facilidade de execução, do baixo risco operacional e da possibilidade de atuação remota.

A especialista defende a implementação de políticas públicas integradas voltadas ao enfrentamento da criminalidade cibernética, envolvendo forças policiais, instituições financeiras, empresas de tecnologia e provedores de serviços digitais. Como referência internacional, cita o modelo adotado por Singapura, que reúne polícia, bancos e grandes empresas de tecnologia em centros permanentes de monitoramento para identificar transações suspeitas e bloquear rapidamente movimentações fraudulentas.

Enquanto medidas estruturadas não são amplamente implementadas no Brasil, especialistas recomendam que usuários adotem práticas de segurança digital, como autenticação em múltiplos fatores, proteção de dados pessoais e atenção redobrada diante de contatos telefônicos, mensagens e solicitações de confirmação de informações bancárias.

(Com informações do UOL por José Roberto de Toledo e Thais Bilenky)

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