Policiais são denunciados por suposto esquema de desvio e adulteração de drogas na Paraíba

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Policiais são denunciados por suposto esquema de desvio e adulteração de drogas na Paraíba | JuristasO Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público da Paraíba (MP-PB), denunciou três policiais civis e quatro integrantes de uma facção criminosa por suposta participação em um esquema de desvio de drogas de grupos rivais, adulteração de entorpecentes e posterior comercialização no mercado ilegal. A denúncia foi apresentada à 3ª Vara Criminal da Capital na última segunda-feira.

Segundo o Ministério Público, os policiais teriam utilizado o aparato estatal para localizar depósitos de drogas pertencentes a facções rivais e se apropriar dos entorpecentes. O material desviado seria posteriormente entregue a integrantes da organização criminosa, que realizariam a adulteração das substâncias para aumentar seu volume e, consequentemente, os lucros obtidos com a venda.

Entre os denunciados estão o delegado Braz Morroni e os investigadores Everton Aires, conhecido como “Bomba”, e Eduardo Jorge do Egito, chamado de “Mão Branca”. Os três foram presos em 2 de junho e já haviam sido denunciados anteriormente pelo Gaeco, em outro processo que apura o suposto desvio de aproximadamente 100 quilos de maconha de um traficante.

Além dos policiais, quatro homens foram denunciados. Conforme o Gaeco, eles seriam integrantes da Nova Okaida, apontada como uma das principais facções criminosas da Paraíba. No novo processo, os sete denunciados respondem por crimes relacionados ao tráfico de drogas e à associação para o tráfico.

Como funcionaria o esquema

De acordo com a denúncia, integrantes da Nova Okaida repassavam aos policiais informações sobre a localização de depósitos de drogas pertencentes a grupos rivais.

Com essas informações, os agentes utilizariam viaturas, armas e outros recursos oficiais para realizar incursões nos locais indicados. A utilização do aparato policial conferiria aparência de legalidade às ações, fazendo com que eventuais testemunhas acreditassem tratar-se de operações legítimas.

Os três policiais trabalhavam na Delegacia de Crimes Contra o Patrimônio, unidade que tinha Braz Morroni como titular. Segundo o Ministério Público, embora a delegacia não tivesse atribuição específica para investigações relacionadas ao tráfico de drogas, a atuação dos agentes no local teria contribuído para dificultar a identificação das irregularidades.

Após as ações, parte dos entorpecentes apreendidos não seria apresentada oficialmente às autoridades. A investigação teria começado após integrantes de uma facção perceberem que estavam sendo vítimas de roubos praticados pelos próprios policiais e levarem as informações às autoridades.

Um dos episódios mencionados pelo Gaeco teria ocorrido em setembro de 2025. Na ocasião, uma equipe teria apreendido aproximadamente 60 quilos de drogas, mas apenas 3 quilos teriam sido formalmente apresentados à Justiça. Conforme a denúncia, a quantidade desviada estaria avaliada em cerca de R$ 2,1 milhões.

O restante dos entorpecentes, segundo o Ministério Público, seria encaminhado ao núcleo civil da organização criminosa para ser novamente colocado em circulação.

Para reduzir o risco de identificação pelas autoridades, a droga seria comercializada em pequenas quantidades. As investigações identificaram ainda códigos utilizados nas conversas entre os integrantes, como “bola”, referente ao fracionamento da droga em porções entre 500 gramas e 1 quilo, e “na valsa”, expressão usada para indicar que a comercialização deveria ocorrer de maneira gradual.

Entorpecentes seriam adulterados para aumentar o volume

A denúncia aponta que outra etapa do esquema consistia na adulteração das drogas para aumentar artificialmente a quantidade disponível para venda.

Segundo o Gaeco, integrantes do grupo misturavam entorpecentes de maior qualidade com substâncias de baixa qualidade e outros compostos, com o objetivo de ampliar o volume da droga e aumentar a margem de lucro.

Mensagens interceptadas durante a investigação indicariam que entre os materiais utilizados nas misturas estavam bicarbonato de sódio e fragmentos de vidro. Dentro do grupo, a prática era chamada de “batizar” a droga.

Em uma das conversas citadas pelo Ministério Público, o investigador Everton Aires teria solicitado que drogas de melhor qualidade fossem misturadas a substâncias de composição inferior para aumentar o rendimento do material.

A adulteração teria provocado reclamações entre consumidores e integrantes da própria organização criminosa. De acordo com o Gaeco, mensagens analisadas na investigação revelaram que Everton recebeu queixas sobre a qualidade das drogas comercializadas.

Em determinado momento, diante das reclamações, o policial teria determinado o recolhimento de uma remessa de 85 pacotes. A investigação aponta que a medida teria sido adotada após consumidores identificarem que o material havia sido adulterado.

Facção teria decretado a morte de integrantes

Ainda segundo a denúncia, a relação entre os policiais e integrantes da Nova Okaida teria terminado após a deflagração da Operação Perfidus, em junho.

O Ministério Público afirma que o chamado “conselho deliberativo” da facção teria instaurado um “tribunal do crime” e determinado a morte de dois integrantes suspeitos de colaborar com os policiais envolvidos no esquema.

A organização criminosa teria concluído que a colaboração havia permitido o acesso dos agentes a informações sobre rotas e lideranças da facção. Os dois homens, contudo, teriam escapado da execução porque foram presos durante as investigações.

Defesas contestam acusações

A defesa de Eduardo Jorge do Egito informou que ainda não poderia se manifestar detalhadamente sobre os fatos porque somente recentemente teria obtido acesso integral ao processo.

Os advogados alegaram que, apesar de terem solicitado a habilitação e o acesso aos autos, permaneceram durante parte da investigação sem acesso à totalidade das provas, incluindo elementos provenientes de interceptações telefônicas e dos afastamentos dos sigilos telemático e bancário.

A defesa de Everton Aires afirmou que ainda analisa a denúncia. O advogado Iarley Maia, entretanto, declarou que existem supostas irregularidades processuais e questionou a necessidade das prisões. Também sustentou que parte dos fatos narrados já teria sido objeto de outras denúncias.

A defesa afirma que o policial é inocente e pretende contestar as acusações judicialmente.

A defesa do delegado Braz Morroni foi procurada, mas não havia se manifestado até a publicação das informações. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento.

(Com informações do UOL por Carlos Madeiro)

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