Reformas Tributária e Administrativa

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Pensando em melhorar a máquina pública e, principalmente, a arrecadação tributária, o governo propôs mudanças junto ao Congresso Nacional, com um conjunto de medidas que beneficiam os que têm ganhos salariais de até cinco mil reais, tornando-os isentos, e, ao mesmo tempo, aumentando a tributação sobre dividendos e também sobre aplicações financeiras.

Trata-se de mero paliativo que atinge mais em cheio a classe média, e não a rica, como propala a fonte governamental. O ideal seria tomarmos como referência os bilionários, que possuem verdadeiras fortunas, e sobre eles exercer poder e controle para um maior pagamento de impostos. Não se trata apenas de fortunas, mas sim de aquilatar a capacidade contributiva de cada cidadão.

Entretanto, já temos um mercado de capitais minúsculo e com fuga de investimentos estrangeiros. Com o aumento da tributação, não haverá fluxo, e as poucas empresas que pagam dividendos serão impactadas, ou seja, a exemplo do aumento do IOF, a intenção governamental é encontrar fontes de receita para tapar o rombo impagável da dívida pública.

E o mesmo sucede em atenção à reforma administrativa. O coro da mídia e de muitos afirma que o problema são os supersalários e os benefícios pagos a uma casta que nada colabora para a melhoria e a distribuição social no país. Contudo, a verdadeira mudança administrativa, sem dúvida, deve partir do próprio Estado, com a redefinição política, a diminuição do número de partidos (seis, no máximo), o enxugamento de prefeituras, a redução do número de deputados e senadores, além do escandaloso valor de cinco bilhões destinados ao fundo partidário para as eleições de 2026.

Não são capazes de tocar o dedo na ferida e fazer a reforma na própria casa legislativa e, com isso, querem a opinião comum da mídia desinformada no sentido de que supersalários e férias de 60 dias são, ao lado de penduricalhos, o pior e mais amargo gosto das finanças do Estado brasileiro.

Temos um excesso de litígios provocados pela anomalia do Estado e também a fonte de precatórios, que jamais terá solução com um quase calote generalizado.

Assim, o Estado e suas autarquias são os que mais demandam e não pagam custas, e, quando condenados, ficam décadas rolando precatórios. Daí surgem oportunistas de plantão, à caça de pagamentos com deságios de precatórios, inflacionando o mercado e prejudicando milhares de credores, que somente ficam na expectativa de receber.

As verdadeiras reformas tributária e administrativa, diga-se de passagem, estão longe dos olhos do Estado brasileiro e do próprio parlamento, o qual costuma empurrar com a barriga, até que a próxima reforma previdenciária seja tratada como emergência, para que o sistema caótico não quebre de uma vez por todas.

Diante do cenário atual, com mais de 80 milhões de brasileiros na linha de crédito restrito e tantos outros vivendo de benefícios sociais governamentais, temos uma situação ilusória e deveras calamitosa, uma vez que a reforma tributária joga pesados tributos sobre a classe média e cria uma confusão generalizada com a delonga da entrada em vigor.

Doutro ângulo, a reforma administrativa é mais um cosmético criado para dar visibilidade ao governo e evitar prejuízos ao erário, porém, o andar de cima continua intocável e não se presta a colaborar com as mudanças. Quem deveria sofrer tributação pesada são os controladores das companhias, e não os acionistas minoritários. Vale destacar que os donos de verdadeiras fortunas, que possuem planejamento tributário e sucessório, ficam longe da marca de aumento do valor dos pagamentos ao fisco.

E, no viés trilhado, chamam de supersalários aqueles que pagam a maior alíquota de 27,5% de IR ao Estado e 14,44% de previdência, ou seja, 42,5% do salário é tributado na fonte. Isso sem falar no plano de saúde acima de cinco mil reais por mês e outros descontos. Portanto, a estória contada à sociedade precisa ser uma verdadeira história e nunca um conto de fadas.

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Carlos Henrique Abrão
Carlos Henrique Abrão
Desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Doutor pela USP com especialização em Paris, Professor pesquisador convidado da Universidade de Heidelberg, autor de obras e artigos.

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