
A execução do plano de reestruturação da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) enfrenta obstáculos desde o início. Com prejuízo de R$ 6,1 bilhões nos três primeiros trimestres de 2025 — ainda sem dados consolidados do ano — e cerca de 80 mil funcionários, a estatal tem obtido resultados tímidos no Programa de Demissão Voluntária (PDV), apontado como essencial para reduzir seus custos fixos. A meta era de 10 mil adesões, mas faltando poucos dias para o encerramento do prazo, apenas 3 mil funcionários aderiram.
O PDV é um dos principais instrumentos de corte de despesas do governo. A expectativa era atingir 15 mil adesões até 2027, o que geraria uma economia anual estimada em R$ 2,1 bilhões. Mesmo assim, seria insuficiente para restaurar a saúde financeira da ECT — apenas no primeiro semestre do ano passado, a estatal registrou perdas de R$ 4,4 bilhões. Por enquanto, a empresa sobrevive graças a um empréstimo de R$ 12 bilhões liberado em dezembro por um consórcio de bancos estatais e privados, com aval do Tesouro. O recurso deu um fôlego temporário, mas a conta, sem privatização, provavelmente recairá sobre o contribuinte.
Os problemas da ECT, persistentes há pelo menos 15 anos, não foram resolvidos com o necessário enxugamento de custos. Durante o governo de Jair Bolsonaro, os Correios chegaram a figurar entre as estatais a privatizar, mas foram retirados da lista com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao Planalto.
As perspectivas para o plano de ajuste permanecem desanimadoras. Além do PDV, a direção da empresa tenta reduzir despesas de outras formas. Foram fechadas mais de 120 agências, ainda longe da meta de mil. Leilões de imóveis arrecadaram apenas R$ 9 milhões, cerca de 20% do valor ofertado, apesar de terrenos valiosos em cidades como Salvador e Brasília. Esses recursos apenas aliviam parcialmente os efeitos da crise estrutural da ECT.
No cenário internacional, empresas públicas de correios se adaptaram às mudanças do mercado de cartas e entregas. O Royal Mail, no Reino Unido, foi privatizado; o Deutsche Post, na Alemanha, virou empresa de economia mista; e a francesa La Poste, ainda estatal, tornou-se sociedade anônima com gestão empresarial e metas de eficiência. No Brasil, os Correios permanecem praticamente no mesmo modelo antigo. Para sobreviver sem recursos do Tesouro, precisariam competir no mercado de entregas do comércio eletrônico, dominado por startups ágeis que atuam principalmente na fase final das entregas.
Com dificuldades até para entregar correspondências simples em bairros de alto padrão no Rio de Janeiro, é difícil imaginar a ECT conseguindo competir nesse ambiente. Sem privatização, a estatal seguirá sendo um peso para o Tesouro, já pressionado por uma crise fiscal crônica.
(Com informações do site O Globo)
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