Debatedores criticam regras contratuais previstas no novo Código Civil

Data:

Modelo de Procuração - Novo Código de Processo Civil NCPC
Créditos: djedzura / iStock

Professores e juristas ouvidos pela Comissão Temporária para Atualização do Código Civil manifestaram preocupação com possíveis retrocessos nas normas de obrigações e contratos previstas no Projeto de Lei (PL) 4/2025. Presidida pelo senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), a comissão analisa mudanças que atualizam mais de 900 artigos e acrescentam outros 300 ao Código Civil, em vigor desde 2002. A audiência desta quinta-feira (13) marcou a sétima rodada de debates e trouxe novas críticas ao texto elaborado pela comissão especial de juristas.

O foco do encontro voltou a ser a modernização das regras contratuais, tema já discutido na semana anterior. Ao lado do relator, senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), Pacheco destacou que todas as contribuições serão tratadas “com seriedade e a devida relevância”. Para ele, o Senado deve agir com cautela diante das inovações tecnológicas previstas no projeto, dada a constante evolução do tema.

O presidente da comissão também alertou para o risco de conflito entre o PL 4/2025 e normas recém-aprovadas pelo Congresso, como a Lei de Seguros e o Marco Legal das Garantias, defendendo que o novo Código deve harmonizar-se com esses diplomas.

Arbitragem em debate

O vice-presidente do Comitê Brasileiro de Arbitragem, Guilherme Carneiro Monteiro Nitschke, avaliou como prejudiciais as mudanças relacionadas à arbitragem, especialmente nos artigos 851 a 853, que tratam dos “contratos de compromisso”. Para ele, o texto pode gerar maior judicialização desnecessária. Nitschke criticou ainda a previsão de obrigatoriedade de fixação de preços em contratos de compra e venda, considerada um retrocesso, e afirmou que o comitê enviará sugestões de aprimoramento aos senadores.

A advogada Judith Martins-Costa, representante da Confederação Nacional da Indústria (CNI), também apresentou críticas ao projeto, apontando riscos de impacto negativo no PIB e em investimentos, sobretudo em infraestrutura. Ela argumentou que muitos temas já contam com previsão legal consolidada e questionou a inclusão excessiva de conceitos do Direito do Consumidor no Código Civil.

O advogado Rinaldo Mouzalas alertou para lacunas que podem gerar dúvidas interpretativas, citando como exemplo a ausência de critérios claros em situações envolvendo ações simultâneas ajuizadas por fiador e credor. Para ele, pontos como esse precisam ser esclarecidos no texto.

Já o advogado Rodrigo Cavalcante Moreira criticou dispositivos que, em sua avaliação, dificultam ou restringem contratos empresariais por adesão, provocando “forte intervenção” na autonomia privada e incentivando litígios.

“Função social” e outros conceitos

O advogado Cristiano de Souza Zanetti defendeu o arquivamento do PL 4/2025, afirmando que o texto compromete a autonomia privada, amplia a judicialização e utiliza conceitos vagos, como “ordem pública”, “função social”, “paridade” e “simetria”.

A relatora do anteprojeto, jurista Rosa Maria de Andrade Nery, reconheceu que alguns pontos podem ser ajustados, mas refutou a ideia de que tais termos gerariam insegurança jurídica. Ela lembrou que a função social do contrato já consta do Código Civil vigente, formulado por Miguel Reale, e que expressões como “ordem pública” são recorrentes em legislações internacionais. Apesar de discordar do uso das palavras “simetria” e “paridade”, destacou que ambas não apresentam dificuldade interpretativa.

O advogado José Roberto de Castro Neves, por sua vez, defendeu a manutenção da redação que vincula a assinatura de contratos à função social, ressaltando que o princípio está amplamente consolidado no Direito e deve permanecer inviolável para garantir segurança jurídica.

Trabalho contínuo

Para o advogado Pedro Zanette Alfonsin, os senadores têm feito um “trabalho de fôlego” na construção do novo Código Civil, mas destacou que caberá ao Judiciário a palavra final sobre sua aplicação. Ele reforçou que o texto ainda está em fase inicial de discussão e passará por ajustes, ressaltando a importância de tranquilizar a sociedade quanto ao caráter amplo e democrático do processo legislativo.

(Com informações da Agência Senado)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Waze suspende alertas de segurança no Brasil após uso político durante eleições

O Waze suspendeu temporariamente no Brasil a função de alertas relacionados à segurança pública após identificar registros falsos utilizados para ironizar campanhas eleitorais. O caso evidencia os desafios das plataformas digitais para combater o uso indevido de recursos colaborativos e evitar a disseminação de informações enganosas durante períodos eleitorais.

STF inicia julgamento sobre acesso a dados de usuários da internet sem decisão judicial

O STF iniciou julgamento para definir se provedores de internet podem fornecer dados de conexão e registros de usuários diretamente às autoridades ou se é indispensável uma decisão judicial prévia. O relator, ministro Cristiano Zanin, e o ministro Dias Toffoli votaram pela validade da exigência prevista no Marco Civil da Internet. O julgamento foi suspenso e ainda não há data para sua retomada.

TRF-4 determina perda do cargo de juiz acusado de furtar champanhes em supermercado

O TRF-4 determinou a perda do cargo de um juiz federal acusado de furtar duas garrafas de champanhe de um supermercado em Santa Catarina. A decisão também prevê sua disponibilidade sem remuneração, mas ainda será analisada pelo CNJ, que poderá reexaminar a medida no âmbito administrativo.

Big techs ampliam identificação de conteúdos gerados por IA

Grandes empresas de tecnologia estão ampliando ferramentas para identificar e sinalizar conteúdos produzidos por inteligência artificial. A movimentação ocorre diante da pressão regulatória, especialmente na União Europeia, e de preocupações com conteúdos de baixa qualidade, desinformação, riscos jurídicos e impactos na experiência dos usuários. Especialistas avaliam que a disputa entre ferramentas de geração e sistemas de detecção de IA deve continuar à medida que os modelos se tornam mais sofisticados.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo