
Embora mais de 90% da população brasileira utilize a internet, a inclusão digital no país ainda ocorre de forma desigual, refletindo barreiras sociais, econômicas e tecnológicas que comprometem o acesso pleno à educação, ao mercado de trabalho e aos serviços públicos. A realidade da Comunidade do Pilar, localizada no Recife Antigo, evidencia esse cenário ao conviver, lado a lado, com um dos maiores polos de inovação tecnológica do Brasil: o Porto Digital.
Para a líder comunitária Ana Cláudia Miguel, a antiga separação física entre a comunidade e o restante do bairro deu lugar a uma nova forma de exclusão.
“A gente mora no polo tecnológico, mas tem um déficit de tecnologia”, afirma.
A Comunidade do Pilar reúne cerca de 600 domicílios ocupados majoritariamente por famílias negras, chefiadas por mulheres e dependentes do trabalho informal. Pesquisa realizada em 2023, com apoio da Universidade das Nações Unidas, aponta que a renda média dos moradores não ultrapassa um salário mínimo e meio.
Do outro lado da rua está o Porto Digital, ecossistema que abriga mais de 500 empresas de tecnologia e movimentou R$ 7,4 bilhões em 2025. O presidente da instituição, Pierre Lucena, destaca que o complexo reúne empresas, incubadoras, aceleradoras, universidades parceiras e uma faculdade própria, consolidando-se como um dos principais centros de inovação do país.
Acesso à internet não significa inclusão digital
Os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD-TIC 2026), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o percentual de brasileiros com acesso à internet chegou a 90,5% em 2025. Entretanto, a qualidade desse acesso permanece desigual.
Segundo o levantamento, 86% dos domicílios possuem internet fixa e móvel simultaneamente, enquanto 10,7% dependem exclusivamente da conexão por dados móveis. Além disso, 59,2% das residências brasileiras não contam com computadores ou tablets, dificultando atividades como estudo, trabalho remoto e acesso a serviços públicos digitais.
Para a advogada e especialista em telecomunicações e direitos digitais Flávia Lefrève, a limitação imposta pelos planos de telefonia móvel afeta diretamente o exercício da cidadania.
A especialista explica que muitas operadoras interrompem o acesso à internet após o consumo da franquia de dados, prática que, segundo ela, contraria as disposições do Marco Civil da Internet, que somente admite a suspensão do serviço em casos de inadimplência.
Na avaliação de Flávia, a dependência da internet para acessar benefícios sociais, realizar matrículas, registrar boletins de ocorrência, declarar imposto de renda e utilizar diversos serviços públicos torna o acesso à rede um elemento essencial para o exercício de direitos fundamentais.
Barreiras à permanência no ensino superior
As dificuldades tecnológicas também impactam diretamente a educação.
Em 2023, a Comunidade do Pilar passou a contar com o programa Pilar Universitário, iniciativa que concede bolsas integrais em cursos superiores do Senac aos moradores da região.
Apesar da oportunidade, muitos estudantes enfrentam obstáculos para permanecer nos cursos em razão da falta de equipamentos e de conexão adequada.
Foi o caso de Eurídize Lima de Santana, de 23 anos, que ingressou no curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, mas interrompeu os estudos após um ano e meio por não possuir computador.
Segundo a estudante, o uso exclusivo do celular tornou inviável acompanhar disciplinas que exigiam programação e desenvolvimento de códigos. Atualmente, ela cursa Gestão Financeira na modalidade de ensino a distância, utilizando apenas o telefone celular e um plano limitado de internet.
Para Ana Cláudia Miguel, a ausência de infraestrutura tecnológica na comunidade impede que jovens tenham acesso às oportunidades oferecidas pelo próprio polo tecnológico vizinho.
Desigualdade também preocupa o setor de tecnologia
A proximidade entre o Porto Digital e a Comunidade do Pilar também desperta reflexões entre as instituições instaladas na região.
Fabi Andrade, coordenadora de ESG do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), relata que o projeto arquitetônico do edifício chegou a prever uma parede para ocultar a comunidade, ideia posteriormente substituída por uma fachada de vidro.
Segundo ela, a convivência diária com a desigualdade evidencia a necessidade de ampliar o acesso da população local à formação tecnológica e às oportunidades geradas pelo ecossistema de inovação.
O presidente do Porto Digital reconhece que existe uma dívida social em relação às comunidades vizinhas e defende uma atuação mais coordenada para promover inclusão digital efetiva.
Neutralidade da rede também é alvo de debate
Outro ponto levantado pela pesquisa é o padrão de utilização da internet no país.
Mais de 95% dos usuários utilizam a rede para chamadas de voz e vídeo, mais de 90% para troca de mensagens e cerca de 85% para acesso às redes sociais.
Segundo Flávia Lefrève, muitos consumidores que esgotam a franquia de dados continuam tendo acesso apenas a determinados aplicativos, como WhatsApp, Facebook e Instagram.
Na avaliação da especialista, essa prática viola o princípio da neutralidade da rede previsto no Marco Civil da Internet, que proíbe a discriminação do tráfego de dados com base na origem, destino ou tipo de aplicação utilizada pelo usuário.
Desde 2023, a Coalizão Direitos na Rede mantém procedimento administrativo junto à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça, questionando tanto o bloqueio do acesso à internet após o consumo da franquia quanto a oferta diferenciada de acesso apenas a determinados aplicativos.
Para especialistas, a superação da exclusão digital exige não apenas ampliar o número de pessoas conectadas, mas garantir acesso contínuo, de qualidade, com equipamentos adequados e em conformidade com os princípios estabelecidos pela legislação brasileira.
(Com informações da Agência Brasil por Eliane Gonçalves)
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