Juíza identifica falhas em petição elaborada com IA e adverte advogado por possível má-fé

Data:

black framed eyeglasses and black pen
Photo by Trent Erwin on Unsplash

A juíza Bruna de Oliveira Farias, da 1ª Vara Cível, de Família, de Sucessões e da Infância e Juventude de Planaltina (GO), apontou graves inconsistências em uma petição inicial produzida com auxílio de inteligência artificial (IA) e advertiu o advogado responsável por possível litigância de má-fé.

Na decisão, a magistrada destacou a existência de “vícios formais extremamente graves” e determinou a emenda da inicial para correção das falhas identificadas.

Segundo Farias, o texto apresenta “características típicas de conteúdo gerado por ferramenta de inteligência artificial sem a necessária supervisão profissional”, com o uso de expressões comuns a respostas de assistentes virtuais e a textos acadêmicos, incompatíveis com a técnica exigida em peças processuais.

A juíza fixou o prazo de 15 dias para o saneamento dos vícios, sob pena de indeferimento da petição inicial e extinção do processo sem resolução do mérito. Também foi determinada a expedição de ofício à seccional do Distrito Federal da OAB para comunicar a “atuação profissional irregular” do advogado subscritor da peça.

Ainda que independentes das eventuais medidas disciplinares a serem adotadas pela Ordem, a magistrada advertiu que, em caso de reincidência, poderão ser aplicadas as sanções previstas nos artigos 77 a 81 do Código de Processo Civil, relativos à litigância de má-fé.

Na fundamentação, Farias ressaltou que o uso de ferramentas de inteligência artificial na advocacia exige rigorosa supervisão humana, especialmente quanto à verificação da veracidade de citações doutrinárias e jurisprudenciais. Entre os indícios de uso inadequado da tecnologia, apontou o fato de a inicial se referir ao polo passivo por nomes distintos ao longo do texto.

Erros atribuídos à IA

A magistrada observou que a jurisprudência já vem reconhecendo os riscos associados ao uso indiscriminado de IA na elaboração de peças processuais, como a criação de precedentes inexistentes e a menção a magistrados e julgados fictícios.

No caso analisado, destacou que a inteligência artificial deve servir apenas como ferramenta de apoio, jamais como substituta do raciocínio jurídico do advogado, que permanece integralmente responsável pelo conteúdo apresentado em juízo. A decisão também menciona violação à Recomendação nº 1/2024 do Conselho Federal da OAB, que estabelece diretrizes para o uso de IA na advocacia.

“Houve violação aos deveres éticos e processuais, sendo impossível conferir validade a uma argumentação potencialmente gerada por IA sem respaldo na realidade jurídica, o que configura desrespeito ao Poder Judiciário, às partes e à própria advocacia”, concluiu a juíza.

Clique aqui para ler a decisão.

Processo nº 5050924-97.2026.8.09.0128.

(Com informações do ConJur por Eduardo Velozo Fuccia)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Defesa de Daniel Vorcaro aponta alterações em arquivos de celular apreendido pela Polícia Federal

A defesa de Daniel Vorcaro apresentou ao STF um laudo particular que identificou alterações em 657 arquivos e a criação de outros 436 no celular do empresário enquanto o aparelho estava sob custódia da Polícia Federal. O documento questiona procedimentos de preservação e extração de provas digitais e fundamenta o pedido de acesso aos dados originais do dispositivo.

Justiça nega pedido de Willer Tomaz para obrigar Richarlison a apagar publicações sobre ilha

A Justiça de Brasília negou pedido de Willer Tomaz e da empresa WT Administração de Imóveis e Bens para obrigar Richarlison a apagar publicações sobre a disputa por uma ilha em Angra dos Reis. O processo continua em andamento.

Maior corretora de criptomoedas do mundo sofre invasão e perde bilhões

A Binance sofreu um ataque hacker que resultou no desvio estimado de US$ 6,3 bilhões em criptomoedas. A corretora suspendeu temporariamente os saques, afirmou que os recursos dos clientes estão protegidos e prometeu cobrir os prejuízos. Empresas do setor conseguiram bloquear parte dos ativos, enquanto as investigações sobre a autoria do ataque continuam.

Presidente do TRF-1 decide em processo envolvendo empresa representada pela própria filha

A presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região...

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo