Justiça de Alagoas cria protocolo para classificar presos ligados a facções criminosas por níveis hierárquicos

Data:

Indeferido pedido de liberdade a preso acusado de negociar drogas por telefone
Créditos: Thawornnurak / shutterstock.com

A 16ª Vara Criminal de Maceió, responsável pela execução penal em Alagoas, instituiu um protocolo para classificar pessoas privadas de liberdade com vínculo a organizações criminosas em quatro níveis hierárquicos. A medida, publicada na última quinta-feira (16), busca orientar a gestão do sistema prisional e subsidiar decisões judiciais relacionadas à execução da pena.

A norma foi assinada pelos juízes Alexandre Machado de Oliveira, Nelson Fernando de Medeiros Martins e Allysson Jorge Lira de Amorim e estabelece uma divisão dos custodiados conforme o grau de participação nas facções criminosas.

Pelo protocolo, os presos serão classificados como Liderança (Nível 1), quando houver elementos objetivos que indiquem função de comando na organização criminosa; Operador (Nível 2), para aqueles que exercem funções estratégicas, como logística, disciplina interna, arrecadação, recrutamento ou transmissão de ordens; Integrante (Nível 3), destinado aos presos com vínculo comprovado com a organização, mas sem atuação de liderança; e Egresso Monitorado (Nível 4), categoria voltada a beneficiários de progressão de regime ou outros benefícios que apresentem indícios objetivos de manutenção ou retomada de vínculos com facções.

A portaria estabelece que a classificação deverá ser baseada em elementos concretos e confiáveis. O texto proíbe expressamente que a categorização seja fundamentada apenas em denúncias anônimas, autodeclarações desacompanhadas de outras provas ou informações sem mínimo grau de credibilidade.

Segundo o juiz Alexandre Machado, o protocolo representa uma iniciativa inédita no país e pretende aprimorar o controle da execução penal, permitindo uma melhor identificação da estrutura das organizações criminosas e reduzindo o risco de cooptação de presos sem vínculo com facções.

De acordo com o magistrado, a classificação também fornecerá subsídios técnicos para decisões relacionadas à inclusão e permanência de detentos no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), além de auxiliar na análise de pedidos de progressão de regime, transferências entre unidades prisionais e monitoramento eletrônico.

O protocolo ainda determina que a Secretaria de Ressocialização e Inclusão Social (Seris) encaminhe mensalmente à Vara de Execuções Penais relatórios contendo a situação dos presos enquadrados nas categorias previstas pela norma.

Apesar dos objetivos apresentados pelo Judiciário, a medida gerou questionamentos no meio acadêmico. O professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e pesquisador sobre organizações criminosas Fernando Rodrigues afirmou que a classificação deve ser analisada com cautela.

Segundo o pesquisador, a produção das informações utilizadas para o enquadramento dos presos permanece concentrada na administração penitenciária, o que pode conferir elevado poder classificatório ao sistema sem mecanismos suficientes de controle externo. Na avaliação dele, há risco de que a execução penal passe a exercer funções investigativas e punitivas além da fiscalização do cumprimento da pena.

Até o momento, a Secretaria de Ressocialização e Inclusão Social não se manifestou sobre as medidas administrativas que adotará para implementar o novo protocolo.

(Com informações do UOL por Carlos Madeiro)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Anthropic adotará marca d’água em conteúdos do Claude para cumprir regras do AI Act

A Anthropic anunciou que pretende marcar textos e arquivos gerados pelo Claude com mecanismos de identificação, incluindo marcas d’água e metadados de procedência assinados digitalmente. A iniciativa busca adequar os sistemas às regras de transparência previstas no AI Act, legislação da União Europeia sobre inteligência artificial. A empresa também trabalha para aplicar os mecanismos a modelos já lançados durante o período de transição da legislação.

Agentes de inteligência artificial coordenam ações e expõem riscos à segurança digital

Pesquisadores da OpenAI apresentaram novos detalhes sobre um ataque cibernético envolvendo agentes de inteligência artificial contra a plataforma Hugging Face. Segundo os relatos, os sistemas teriam atuado de forma coordenada por dias ou semanas, explorando vulnerabilidades, compartilhando descobertas e circulando entre diferentes ambientes digitais. O caso amplia o debate jurídico e tecnológico sobre autonomia, segurança e responsabilidade no uso de agentes de IA.

Discord apresenta à AGU medidas para reforçar proteção de crianças e adolescentes

O Discord apresentou à Advocacia-Geral da União uma proposta para reforçar a proteção de crianças e adolescentes na plataforma. As tratativas começaram após relatório do Ministério da Justiça apontar possíveis falhas na verificação de idade e nos mecanismos de proteção de menores. O plano foi discutido com participação do Discord, do MJSP e da ANPD.

Síria condena Bashar al-Assad à morte por crimes contra a humanidade

A Justiça síria condenou à morte, à revelia, o ex-presidente Bashar al-Assad por crimes de guerra e crimes contra a humanidade cometidos durante a guerra civil. O tribunal também impôs pena de morte a Atef Najib, primo de Assad e ex-chefe da segurança política em Daraa. As condenações fazem parte dos primeiros processos conduzidos pelas autoridades de transição contra integrantes do antigo regime.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo