STJ afasta uso de relatório de IA como prova em ação penal

Data:

inteligência artificial - oab
Créditos: iLexx | iStock

A Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu que relatórios produzidos por inteligência artificial generativa, sem validação humana, não podem ser utilizados como prova em processos penais. No julgamento de habeas corpus relatado pelo ministro Reynaldo Soares da Fonseca, o colegiado determinou a exclusão do documento dos autos.

O caso envolveu uma denúncia de injúria racial supostamente ocorrida após uma partida de futebol em Mirassol (SP). A acusação sustentava que o réu teria proferido expressão racista, registrada em vídeo. Contudo, perícia oficial realizada pelo Instituto de Criminalística não confirmou a presença da fala, apontando ausência de elementos fonéticos compatíveis com o termo indicado.

Diante disso, investigadores recorreram a ferramentas de inteligência artificial para analisar o conteúdo do vídeo. O relatório gerado concluiu, em sentido contrário ao laudo técnico, que a expressão ofensiva teria sido pronunciada, servindo de base para o oferecimento da denúncia pelo Ministério Público.

Ao analisar o caso, o relator destacou que a admissibilidade da prova no processo penal exige não apenas licitude, mas também confiabilidade. Segundo ele, elementos probatórios devem permitir a construção de inferências racionais sobre os fatos, o que não se verificou no relatório produzido por IA.

O ministro também ressaltou limitações técnicas da tecnologia, que opera com base em padrões estatísticos e pode gerar informações incorretas com aparência de veracidade — fenômeno conhecido como “alucinação”. Além disso, pontuou que as ferramentas utilizadas não são adequadas para análise fonética de áudios, por serem voltadas ao processamento de texto.

Outro aspecto relevante foi a ausência de fundamentação técnico-científica para afastar a conclusão da perícia oficial. Embora o magistrado não esteja vinculado ao laudo pericial, eventual divergência deve ser devidamente justificada, o que não ocorreu no caso.

Diante desse cenário, a Quinta Turma concluiu que o relatório de IA não possui confiabilidade mínima para embasar uma acusação penal, determinando sua exclusão dos autos. O juízo de origem deverá reavaliar a admissibilidade da denúncia, desconsiderando o documento.

A decisão marca o primeiro posicionamento do STJ sobre o uso de inteligência artificial generativa como meio de prova no processo penal.

Processo: HC 1059475

(Com informações do STJ)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Amazon reedita episódio de “Tremembé” após ações por suposto uso indevido de imagem

A Amazon reeditou o quinto episódio da série Tremembé após pelo menos três pessoas ajuizarem ações contra a empresa por suposto uso não autorizado de imagem. Os autores pedem indenizações de R$ 150 mil e alegam danos morais decorrentes da exposição. Os processos tramitam na Justiça de São Paulo e ainda não tiveram decisão. O caso envolve questões relacionadas ao direito de imagem e à responsabilidade civil.

Egito condena apresentadora de TV e outros 11 réus à pena de morte por tráfico de drogas

A Justiça do Egito condenou a apresentadora Sarah Khalifa e outros 11 réus à pena de morte por suposta participação em um grupo organizado voltado à fabricação e ao tráfico de drogas. O processo também envolve acusações de posse e porte ilegal de armas e munições. A decisão foi proferida após consulta ao grão-mufti e ainda pode ser contestada por meio de recursos.

MPF recomenda revisão das regras sobre uso religioso, espiritual e terapêutico da ayahuasca

O Ministério Público Federal recomendou ao Conad e à Anvisa a revisão das regras relacionadas à ayahuasca no Brasil, especialmente para os usos religioso, espiritual e terapêutico. A proposta prevê grupos de trabalho, consulta a povos indígenas e comunidades tradicionais, revisão do enquadramento jurídico da DMT e criação de parâmetros para produção, circulação e utilização da bebida. Os órgãos terão 30 dias para informar se irão acatar as recomendações.

Morre aos 80 anos Robert Alexy, referência mundial na Teoria do Direito e dos princípios

Morreu aos 80 anos o jurista e filósofo alemão Robert Alexy, um dos principais nomes contemporâneos da Filosofia e da Teoria do Direito. Professor da Universidade de Kiel, tornou-se mundialmente conhecido por seus estudos sobre princípios, direitos fundamentais, proporcionalidade e argumentação jurídica. Sua obra exerceu forte influência sobre a doutrina e a jurisprudência brasileiras, especialmente no Direito Constitucional e em decisões do STF.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo