STJ mantém condenação de pai a indenizar filha em R$ 150 mil por abandono afetivo

Data:

STJ mantém condenação de pai a indenizar filha em R$ 150 mil por abandono afetivo | Juristas
Créditos: Africa Studio / Shutterstock.com

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a condenação de um pai ao pagamento de R$ 150 mil a título de indenização por danos morais à filha, em razão de abandono afetivo. Segundo o processo, o homem rompeu completamente os vínculos com a filha desde o nascimento e ignorou repetidas tentativas de aproximação ao longo dos anos.

Criada inicialmente pela mãe, a menina passou aos cuidados dos avós maternos após a morte da genitora, quando ela tinha apenas cinco anos. Com o falecimento dos avós, a jovem tentou estabelecer contato com o pai biológico, mas foi bloqueada nas redes sociais.

A condenação foi fixada pelo Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO), que reconheceu o dano moral decorrente da ausência deliberada do pai durante toda a infância e juventude da filha. O tribunal destacou que o genitor também negligenciou suas obrigações legais e materiais, agravando o quadro de abandono.

A decisão do TJGO teve como base o entendimento de que o dever de cuidado dos pais é imposto pela Constituição Federal, pelo Código Civil e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), sendo independe da existência de vínculo emocional.

O caso chegou ao STJ por meio de recurso especial interposto pelo pai, mas o pedido foi negado por questões processuais, mantendo-se assim a condenação. O processo tramitou em segredo de Justiça e a decisão já transitou em julgado, ou seja, não cabe mais recurso.

Caso emblemático

O advogado Charles Christian Alves Bicca, do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), atuou no caso e destacou que esta é a segunda maior indenização por abandono afetivo já reconhecida no Brasil. Fica atrás apenas de um precedente do próprio STJ, de 2012, que fixou indenização de R$ 200 mil (REsp 1.159.242).

Segundo Bicca, a fundamentação do TJGO citou o artigo 229 da Constituição, que determina o dever dos pais de assistir, criar e educar os filhos menores. O relator do caso comparou a omissão do pai a situações de perda de genitores, ressaltando que o abandono também causa sofrimento profundo e contínuo.

O advogado relatou ainda que, apesar das tentativas de reaproximação por parte da filha, o pai demonstrou total rejeição. Em paralelo, a jovem descobriu que uma irmã — fruto de outro relacionamento do pai — levava uma vida de luxo, com acesso a bens, viagens internacionais e alto padrão de vida, enquanto ela cresceu em situação de vulnerabilidade.

Laudos e impacto

Laudos técnicos anexados ao processo comprovaram o impacto emocional do abandono, incluindo quadros de depressão, baixa autoestima, autorrejeição e traumas psicológicos permanentes.

Bicca destacou que a decisão do STJ resgata o patamar indenizatório fixado há mais de uma década. “Condenações por abandono afetivo no Brasil dificilmente ultrapassam R$ 30 mil a R$ 40 mil. Este valor reflete a gravidade do dano, que não é passageiro. É uma ferida profunda, que atinge o projeto de vida da pessoa.”

Para o advogado, a decisão também tem valor pedagógico e simbólico: “Nenhuma criança ou adolescente deve crescer sem o amparo mínimo dos pais. O abandono é uma morte em vida — e precisa ser enfrentado com rigor pela Justiça”.

(Com informações do Instituto Brasileiro de Direito de Família – IBDFAM)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

TJ-PI apresenta novas ferramentas de Inteligência Artificial para modernizar serviços do Judiciário

O Tribunal de Justiça do Piauí apresentou novas ferramentas de Inteligência Artificial desenvolvidas pelo Opala Lab para auxiliar magistrados e servidores, otimizar processos e modernizar os serviços judiciais. As soluções incluem sistemas de transcrição de audiências, análise processual e organização de bases de conhecimento, com foco em segurança, autonomia tecnológica e eficiência.

TJ-SP analisará pedido para excluir filiação materna do registro civil

O TJ-SP deverá analisar recurso de uma mulher que busca excluir a filiação materna de sua certidão de nascimento após relatar ter sido vítima de graves abusos durante a infância. Embora a sentença de primeiro grau tenha reconhecido os traumas e autorizado a retirada dos sobrenomes maternos, o pedido de desconstituição da maternidade foi negado sob o fundamento de que a filiação biológica deve permanecer registrada.

TJ mantém condenação de Marcelo Crivella por uso não autorizado de imagem em campanha eleitoral

O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro manteve a condenação do senador Marcelo Crivella ao pagamento de R$ 20 mil por danos morais a um estudante que teve sua imagem e seu depoimento utilizados, sem autorização, em propaganda eleitoral. A Corte rejeitou novos recursos da defesa e preservou a sentença que também envolve o Partido Republicanos.

Licenciamento de novos data centers no Ceará reacende debate sobre impactos ambientais e consumo de energia

Dois novos projetos de data centers em Caucaia (CE) estão em fase de licenciamento ambiental e poderão consumir energia equivalente à utilizada por 4,5 milhões de residências, volume superior ao total de domicílios do estado. A dimensão dos empreendimentos intensificou o debate sobre os impactos ambientais, o consumo de água, o licenciamento simplificado e a necessidade de consulta às comunidades potencialmente afetadas.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo