Advogado autista recorre contra decisão que o considerou inapto para juiz leigo

Data:

man writing on paper
Photo by Scott Graham on Unsplash

Márcio Almeida, de 30 anos, natural de Campo Grande (MS), foi aprovado em concurso público para o cargo de juiz leigo do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC), mas teve sua candidatura posteriormente considerada inapta pela Junta Médica do próprio tribunal. Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o candidato concorreu a uma vaga destinada a pessoas com deficiência (PcD) e havia sido inicialmente habilitado no processo seletivo.

De acordo com documentos apresentados no caso, Márcio passou por avaliações psiquiátricas que indicaram capacidade para exercer as atribuições da função, inclusive com a adoção de adaptações razoáveis. O edital previa que a atividade de juiz leigo seria exercida integralmente de forma remota.

Uma das avaliações foi realizada por profissional credenciada pelo próprio TJSC e concluiu que o candidato estava apto para exercer as atividades. Outro laudo pericial avaliou especificamente sua capacidade para desempenhar as funções e apontou plena capacidade psíquica e cognitiva, sem limitações que comprometessem a resolução consensual de conflitos.

Os documentos médicos também registraram diagnóstico de TEA sem deficiência intelectual e sem comprometimento significativo da linguagem funcional. Embora tenham sido sugeridas adaptações relacionadas ao ambiente e à organização do trabalho, os relatórios concluíram pela aptidão do candidato para o exercício da função.

Entre as medidas indicadas estavam a possibilidade de trabalho em home office ou em ambiente com redução de estímulos sonoros, o encaminhamento preferencial de demandas por meios eletrônicos e a possibilidade de realização de psicoterapia semanal.

Apesar das avaliações favoráveis, a Junta Médica do Poder Judiciário de Santa Catarina concluiu pela inaptidão de Márcio. Segundo o parecer, as limitações decorrentes da deficiência não poderiam ser conciliadas, a longo prazo, com o adequado desempenho das atribuições do cargo.

O candidato contestou a conclusão e sustenta que a necessidade de adaptações decorrentes do TEA não poderia ser utilizada como fundamento para impedir sua posse. Para ele, a análise deveria considerar sua capacidade concreta para desempenhar as atribuições do cargo e as adaptações razoáveis disponíveis.

A legislação brasileira reconhece a pessoa com Transtorno do Espectro Autista como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. A previsão consta da Lei nº 12.764/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA. A proteção também está prevista na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), que estabelece normas destinadas a assegurar condições de igualdade, acessibilidade e participação social.

No caso das pessoas com deficiência, a legislação prevê a adoção de adaptações razoáveis destinadas a garantir o exercício de direitos em igualdade de condições. Em concursos e processos seletivos, essas medidas podem envolver recursos de acessibilidade e adequações necessárias à participação do candidato.

Após a decisão da Junta Médica, Márcio recorreu ao Poder Judiciário. Segundo os documentos relacionados ao processo, houve decisão de primeira instância determinando a reserva da vaga e a realização de perícia psiquiátrica judicial independente para avaliar a divergência entre os laudos médicos.

O Ministério Público também teria se manifestado no processo no sentido de que a avaliação biopsicossocial prevista no edital não teria sido realizada integralmente. O órgão opinou pela nulidade do ato administrativo que declarou a inaptidão e pela realização de nova avaliação multiprofissional.

A controvérsia chegou ao Supremo Tribunal Federal por meio da Reclamação Constitucional (Rcl) 99.199, sob relatoria do ministro Gilmar Mendes. A discussão envolve, entre outros pontos, os critérios utilizados para avaliar a capacidade do candidato com deficiência e a necessidade de consideração das adaptações razoáveis no exercício da função pública.

(Com informações do G1 por Ana Karla Flores)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Nunes Marques dá prazo para PGR se manifestar sobre revisão da condenação de Bolsonaro

Kassio Nunes Marques concedeu dez dias para que a PGR se manifeste sobre o pedido de revisão criminal apresentado pela defesa de Jair Bolsonaro, que busca reverter a condenação de 27 anos e três meses de prisão. O caso deverá ser encaminhado ao plenário do STF após a manifestação da Procuradoria.

Desembargador do TJ-MG publica fotos com arma em rede social

O desembargador Roberto Apolinário de Castro, do TJ-MG, publicou fotos com uma arma de fogo e afirmou possuir autorização para porte. Em nota, declarou que as imagens foram feitas em sua residência e que o armamento está legalizado. O CNJ informou que não havia procedimento sobre o caso até a publicação da reportagem.

MP-SP pede condenação de Renato Cariani por tráfico de drogas e lavagem de dinheiro

O Ministério Público de São Paulo pediu a condenação de Renato Cariani e de outros dois investigados por suspeita de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. A investigação aponta o desvio de cerca de 12 toneladas de produtos químicos e possível movimentação superior a R$ 6 milhões. O processo está na fase de alegações finais da defesa.

STF suspende julgamento sobre restrições à Buser após placar de 3 a 2

O STF suspendeu o julgamento sobre a lei mineira que restringe o transporte coletivo por fretamento utilizado por plataformas como a Buser. Antes do pedido de vista de Dias Toffoli, três ministros votaram pela manutenção das regras e dois pela inconstitucionalidade, em discussão que envolve competência legislativa, livre iniciativa e concorrência.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo