Caso Narcisa e Boninho reacende discussão sobre abandono afetivo após nova lei reconhecer responsabilidade civil

Data:

pai
Créditos: Light Field Studios | iStock

A entrada em vigor da lei 15.240/25, que passou a classificar o abandono afetivo como ilícito civil indenizável, trouxe novas camadas ao debate sobre deveres parentais no país. Nesse contexto, as declarações de Narcisa Tamborindeguy sobre a ausência paterna de Boninho voltaram a chamar atenção para um problema que atinge milhões de famílias brasileiras.

Em falas recentes, a socialite afirmou que o ex-marido seria um “pai ausente”, criticando não apenas a falta de apoio emocional, mas também a ausência de contribuição financeira adequada. As declarações reacenderam o debate sobre a conduta dos pais em relação ao cuidado e ao convívio com os filhos, justamente em um momento de mudança legislativa.

A advogada Tatiana Naumann, integrante da Comissão de Direito de Família da OAB/RJ e sócia do escritório Albuquerque Melo Advogados, ressalta a relevância do caso pelo momento em que ocorre. “Com a nova legislação, o dever de assistência afetiva deixa de ser apenas um valor moral e passa a ser uma obrigação expressa. Não se limita ao pagamento de pensão: envolve presença, participação e vínculo”, afirma.

A lei sancionada em outubro acrescentou ao Estatuto da Criança e do Adolescente a previsão de que os pais devem assegurar convivência e apoio emocional. A falta injustificada dessa assistência — isoladamente ou somada ao descumprimento de deveres materiais — pode gerar responsabilidade civil e indenização por danos morais.

Para Naumann, trata-se de uma verdadeira mudança de paradigma. “O Direito passa a reconhecer que a ausência emocional tem efeitos concretos no desenvolvimento da criança. É uma proteção que ganha força normativa e não depende mais apenas de interpretações judiciais”, explica.

Antes da mudança, tribunais já reconheciam, em alguns casos, indenizações por abandono afetivo. O STJ e cortes estaduais admitiam a tese, mas sem respaldo legal expresso. Com a nova lei, o fundamento passa a ser claro e unificado.

Os números reforçam a dimensão do problema. Entre 2016 e novembro de 2025, mais de 1,4 milhão de crianças foram registradas sem o nome do pai, de acordo com dados do Portal da Transparência do Registro Civil (Arpen-Brasil). Para especialistas, esse cenário evidencia a necessidade de políticas públicas e de instrumentos jurídicos que fortaleçam o cuidado parental.

Segundo Naumann, casos envolvendo pessoas públicas ajudam a ampliar o debate. “Quando situações assim vêm à tona, a sociedade percebe que o abandono afetivo não se restringe a famílias de baixa renda ou anônimas. Ele atravessa diferentes realidades e, agora, gera consequências jurídicas concretas”, diz.

A advogada pontua que o objetivo da nova legislação não é estimular litígios, mas incentivar vínculos. “A regra busca promover convivência, acordos e corresponsabilidade. Quando há afastamento reiterado e injustificado, isso pode refletir não só na esfera indenizatória, mas também em questões como guarda e até sucessão”, conclui.

(Com informações do Migalhas)

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

Waze suspende alertas de segurança no Brasil após uso político durante eleições

O Waze suspendeu temporariamente no Brasil a função de alertas relacionados à segurança pública após identificar registros falsos utilizados para ironizar campanhas eleitorais. O caso evidencia os desafios das plataformas digitais para combater o uso indevido de recursos colaborativos e evitar a disseminação de informações enganosas durante períodos eleitorais.

STF inicia julgamento sobre acesso a dados de usuários da internet sem decisão judicial

O STF iniciou julgamento para definir se provedores de internet podem fornecer dados de conexão e registros de usuários diretamente às autoridades ou se é indispensável uma decisão judicial prévia. O relator, ministro Cristiano Zanin, e o ministro Dias Toffoli votaram pela validade da exigência prevista no Marco Civil da Internet. O julgamento foi suspenso e ainda não há data para sua retomada.

TRF-4 determina perda do cargo de juiz acusado de furtar champanhes em supermercado

O TRF-4 determinou a perda do cargo de um juiz federal acusado de furtar duas garrafas de champanhe de um supermercado em Santa Catarina. A decisão também prevê sua disponibilidade sem remuneração, mas ainda será analisada pelo CNJ, que poderá reexaminar a medida no âmbito administrativo.

Big techs ampliam identificação de conteúdos gerados por IA

Grandes empresas de tecnologia estão ampliando ferramentas para identificar e sinalizar conteúdos produzidos por inteligência artificial. A movimentação ocorre diante da pressão regulatória, especialmente na União Europeia, e de preocupações com conteúdos de baixa qualidade, desinformação, riscos jurídicos e impactos na experiência dos usuários. Especialistas avaliam que a disputa entre ferramentas de geração e sistemas de detecção de IA deve continuar à medida que os modelos se tornam mais sofisticados.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo