Saúde mental passa a integrar oficialmente normas de segurança do trabalho no Brasil

Data:

Saúde mental passa a integrar oficialmente normas de segurança do trabalho no Brasil | Juristas
Créditos: Shidlovski | iStock

A partir desta terça-feira (26), passa a valer a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), editada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que inclui de forma expressa os riscos psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais das empresas. A nova regra determina que organizações de todos os os portes, incluindo órgãos públicos com empregados regidos pela CLT, passem a identificar, avaliar e controlar fatores que possam comprometer a saúde mental dos trabalhadores.

O descumprimento das exigências poderá gerar autuações, multas administrativas e até responsabilização judicial, caso fique comprovada a omissão do empregador diante de situações que contribuam para o adoecimento mental dos funcionários.

A mudança ocorre em um cenário de crescimento dos afastamentos por transtornos mentais no país. Em 2025, a Previdência Social registrou mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais — o maior número da série histórica. Em pouco mais de dez anos, o volume mais que dobrou.

Segundo o ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e coordenador nacional do Programa Trabalho Seguro, Agra Belmonte, a atualização representa um avanço histórico na proteção à saúde e à segurança do trabalhador. Para ele, a norma fortalece a prevenção ao impor às empresas o dever de identificar e controlar fatores da organização do trabalho que possam afetar a saúde mental dos empregados.

O Ministério do Trabalho explica que os riscos psicossociais já estavam inseridos de forma indireta nas diretrizes anteriores, especialmente nas normas relacionadas à ergonomia. Contudo, a nova redação deixa explícita a necessidade de monitorar e gerenciar fatores ligados à organização do trabalho.

De acordo com Alexandre Scarpelli, diretor do Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho do MTE, a atualização busca reforçar que a maneira como o trabalho é estruturado também deve ser analisada para evitar adoecimentos. Inicialmente prevista para entrar em vigor em maio de 2025, a norma teve sua implementação adiada por um ano para permitir a adaptação das empresas.

Entre os principais fatores que deverão ser observados pelas organizações estão situações de assédio moral e sexual, cobrança excessiva por metas, jornadas prolongadas, falhas de comunicação e, no caso do teletrabalho, a hiperconectividade e a dificuldade de desconexão.

A psicóloga Fabíola Maria de Carvalho Izaias, chefe do Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS) do TST, afirma que a nova regra amplia o conceito de ambiente seguro ao incluir também a proteção da integridade psíquica dos trabalhadores. Segundo ela, a prevenção deve começar antes do surgimento dos sintomas, por meio da análise das condições coletivas de trabalho e dos impactos da estrutura organizacional sobre as equipes.

A atualização da NR-1 também representa uma mudança cultural na área de segurança do trabalho, historicamente associada apenas à prevenção de acidentes físicos. Agora, a proteção à saúde mental passa a integrar oficialmente as políticas de prevenção, em consonância com os direitos fundamentais previstos na Constituição Federal.

Para o ministro Agra Belmonte, o principal desafio será consolidar uma cultura preventiva nas organizações e demonstrar que investir em ambientes de trabalho saudáveis não representa custo, mas ganho em produtividade, dignidade e redução dos impactos sociais e econômicos decorrentes do adoecimento ocupacional.

Diante desse cenário, o Tribunal Superior do Trabalho vem ampliando ações voltadas ao cuidado com a saúde mental de magistrados, servidores, estagiários e colaboradores. Entre as iniciativas está o fortalecimento do Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS), responsável pelo acolhimento e pelo mapeamento de fatores organizacionais que possam afetar o bem-estar interno.

(Com informações do TST por Fernanda Duarte)

 

Participe e receba as postagens diárias do Portal Juristas.

Ao entrar você está ciente e de acordo com os termos de uso e privacidade do Whatsapp.

PARTICIPE DO CANAL
Juristas

Acompanhe o Juristas no Google News

receba as principais notícias jurídicas do Brasil

Seguir no Google

Deixe um comentário

Compartilhe

Inscreva-se

Últimas

Recentes
Veja Mais

New Balance processa Decathlon nos EUA por suposta violação de marca em logotipo da Kiprun

A New Balance processou a Decathlon nos Estados Unidos, alegando que o logotipo utilizado pela marca esportiva Kiprun apresenta semelhança com seu tradicional símbolo em formato de “N”. A fabricante pede a retirada dos produtos do mercado, a destruição dos itens com o símbolo e indenização. A Decathlon contesta a acusação e afirma que o desenho representa a letra “K”. O processo tramita no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito de Massachusetts.

IA amplia preocupação com empregos e já afeta a entrada de jovens no mercado de trabalho

Pesquisas recentes indicam que a inteligência artificial já produz efeitos perceptíveis sobre o mercado de trabalho, especialmente nas oportunidades destinadas a profissionais jovens em ocupações mais expostas à automação. Estudos também apontam crescimento do uso de IA generativa nas empresas, inclusive sem conhecimento dos empregadores, levantando questões relacionadas à governança, segurança da informação, proteção de dados e relações trabalhistas. Os pesquisadores ressaltam, contudo, que os dados disponíveis ainda não comprovam uma substituição generalizada de trabalhadores pela tecnologia.

Nelson Wilians transferiu R$ 6,6 milhões para empresa de herdeiro da Casas Bahia, aponta Coaf

Relatório do Coaf que embasou a Operação Distrato registra 15 transferências realizadas por Nelson Wilians, entre setembro de 2024 e setembro de 2025, totalizando R$ 6,6 milhões destinados à Icon Properties, empresa ligada a Michael Klein. A movimentação é mencionada no contexto de investigação do Ministério Público de São Paulo sobre supostas fraudes envolvendo créditos de ICMS. Wilians afirma que as operações são lícitas e não têm relação com os fatos investigados. Michael Klein não se manifestou, enquanto a Casas Bahia informou ter criado um comitê independente para apurar o caso.

Candidata recorre à Justiça após desclassificação de concurso por uso de medicamento hormonal

Candidata ao concurso da Polícia Penal de Minas Gerais foi considerada inapta na avaliação médica após apresentar documentação indicando histórico de câncer de mama e uso contínuo de tamoxifeno. Ela afirma que exames recentes não apontam atividade da doença e questiona judicialmente a desclassificação, invocando o entendimento do STF no Tema 1.015. Os pedidos de liminar e o recurso apresentado pela candidata foram negados, enquanto o processo principal continua em tramitação.

Descubra mais sobre Juristas

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo